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Por que “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) dividiu tanto o público?

Nova versão do clássico de Emily Brontë, dirigida por Emerald Fennell, acumula críticas por mudanças radicais na trama

19/02/2026 - 13h30min

Reprodução/Warner Bros. Discovery
A versão de "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emerald Fennel, está cercada de críticas sobre escolhas narrativas.

Antes mesmo de chegar aos cinemas,O Morro dos Ventos Uivantes(2026) já era alvo de debates acalorados. A recém-lançada versão comandada por Emerald Fennell (Bela Vingança) transformou o romance gótico de Emily Brontë em uma experiência descrita por muitos como mais sensual, mais estilizada e menos fiel ao texto original.

A escalação de Jacob Elordi e Margot Robbie intensificou a discussão nas redes sociais, assim como o tom assumidamente mais erótico da narrativa, algo que contrasta diretamente com o livro, que sequer apresenta um beijo explícito entre Catherine e Heathcliff.

A pergunta que passou a circular, então, foi inevitável: por que essa nova versão é tão ruim criticada?

Sobre o que é “O Morro dos Ventos Uivantes”

Publicado em 1847, “O Morro dos Ventos Uivantes” (Wuthering Heights) é o único romance de Emily Brontë. A trama se passa em Yorkshire, no norte da Inglaterra, entre o fim do século XVIII e o início do XIX.

A história começa quando o senhor Earnshaw, proprietário da sombria propriedade chamada Wuthering Heights, adota um menino órfão encontrado nas ruas de Liverpool: Heathcliff.

A chegada do garoto desestabiliza a dinâmica familiar. Enquanto Catherine Earnshaw desenvolve com ele uma ligação profunda, a ponto de quase perder a noção da própria identidade, seu irmão Hindley reage com ciúme e crueldade.

Catherine e Heathcliff crescem cultivando um vínculo intenso, que acaba atravessado pelas rígidas divisões de classe da sociedade inglesa da época. A decisão de Catherine de se casar com o herdeiro Edgar Linton transforma a narrativa em uma saga marcada por obsessão, ressentimento e vingança.

As principais críticas ao filme de 2026

Críticos e fãs da obra apontaram que, em “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026), de Emerald Fennell, toda a narrativa ampla e complexa do romance original foi condensada em um drama centrado na paixão obsessiva de Catherine e Heathcliff.

Na nova adaptação, o foco deixa de recair sobre a estrutura social e passa a privilegiar o desejo, a dependência emocional e a autodestruição, que se sobressaem ao longo da narrativa.

Se há um consenso sobre “O Morro dos Ventos Uivantes”, é o de que existe um certo “karma literário”: nenhuma das diversas adaptações anteriores do romance conseguiu unanimidade entre os leitores. Ainda assim, a versão de Fennell parece ter rompido uma barreira ao promover tantas mudanças na história original.

A questão racial e de classe

Outro ponto sensível envolve a caracterização de Heathcliff. No livro, ele é descrito como um “cigano de pele escuta”, constantemente tratado como outsider racial e social. Ao escalar Jacob Elordi, ator branco, a produção foi acusada de esvaziar o debate racial e de classe presente na obra.

Para parte da crítica, a decisão dilui uma das dimensões mais potentes do romance: o preconceito estrutural que molda a trajetória do personagem.

A escolha de Margot Robbie como Cathy

Reprodução/Warner Bros. Discovery
Fãs da obra original criticaram a escolha de Margot Robbie para interpretar Cathy.

Fãs também questionaram a escalação de Margot Robbie. No romance, Catherine é descrita como morena e atravessa fases decisivas ainda na adolescência.

A diferença de idade e aparência foi apontada como um distanciamento significativo da essência da personagem, especialmente em uma história em que juventude, impulsividade e imaturidade emocional são centrais.

O apagamento de Hindley

Uma das decisões mais questionadas foi a exclusão do irmão de Catherine, Hindley Earnshaw. No livro, o personagem é crucial para a construção do trauma e da marginalização de Heathcliff.

Na nova versão, o alcoolismo e o vício em jogos são transferidos para o pai de Catherine, o Sr. Earnshaw, que assume o papel de figura abusiva. Para críticos e leitores, essa alteração enfraquece o arco de ressentimento que sustenta as motivações do protagonista.

O desaparecimento de Hareton, Cathy e Linton

A exclusão do arco de Hindley também elimina Hareton, seu filho. Além disso, Cathy (filha de Catherine) e Linton (filho de Heathcliff) não aparecem na narrativa.

A consequência é direta: desaparece a segunda geração que, no livro, simboliza repetição, vingança e possível redenção. Sem essa camada, o filme abandona a disputa pela propriedade Earnshaw e o tema da rivalidade masculina que estrutura boa parte do conflito original.

Erotização versus profundidade emocional

Talvez a crítica mais recorrente diga respeito ao tom do filme. Muitos analistas apontam que a adaptação aposta em cenas sexuais e provocativas, mas falha em traduzir o tormento psicológico que define o livro.

Em vez de uma paixão silenciosa, reprimida e devastadora, o que se vê é uma abordagem mais literal e explícita. Para parte do público, isso enfraquece o impacto emocional, substituindo tragédia por estética.

Mudanças sem justificativa narrativa

O ponto que mais ecoa nas análises é que nenhuma dessas alterações parece indispensável para a construção ou para o desfecho da história. Isso leva parte do público a questionar se essa adaptação realmente precisava ser produzida.

A resposta de Emerald Fennell

Reprodução/Warner Bros. Discovery
Fennel afirma que sua intenção nunca foi fazer uma adaptação literal da obra.

Apesar de se inspirar na obra de Brontë, Emerald Fennell nunca prometeu fidelidade absoluta ao texto original. A diretora afirmou em entrevistas que sua proposta é uma releitura, e não uma versão literal do romance.

Não por acaso, a Warner Bros. apresenta o título entre aspas, sinalizando esse distanciamento consciente da obra original.

Em entrevista, Fennell declarou: “Então é ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ e não é. Mas, na verdade, eu diria que qualquer adaptação de um romance, especialmente um romance como este, deveria ter, sabe, aspas em volta do título.”

Para ela, o interesse está menos em reproduzir cada acontecimento e mais em explorar sensações.

Pontos positivos

Apesar das críticas, “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) também encontra defensores. A fotografia deslumbrante, a névoa constante, o som do vento cortando as paisagens e a atmosfera opressiva são frequentemente apontados como grandes acertos.

Se, para alguns, a adaptação falha ao abandonar pilares narrativos do romance, para outros ela cumpre exatamente o que promete: transformar um clássico em uma experiência sensorial, provocativa e autoral.



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