
A rotina de quem busca uma renda extra costumava ser associada a bicos ou turnos em períodos diferentes, mas uma nova tendência está mudando essa percepção. Com a consolidação do home office, profissionais de áreas como tecnologia e serviços têm ocupado dois ou mais cargos em tempo integral simultaneamente.
Essa prática, conhecida como "overemployment", é impulsionada pela busca de liberdade financeira e pela facilidade de gerir múltiplas tarefas longe da supervisão direta dos escritórios. No entanto, o que parece ser uma solução rápida para aumentar o salário traz desafios complexos à carreira e à saúde mental.
A possibilidade de acumular funções gera dúvidas sobre o que é permitido por lei e quais são as reais consequências para quem decide seguir esse caminho.
O funcionamento do movimento e suas motivações
O fenômeno é caracterizado pelo profissional que se dedica a diferentes empregos durante a mesma jornada de trabalho, muitas vezes sem que um empregador saiba do outro. Para gerir essa carga, os trabalhadores utilizam estratégias como o uso de computadores separados, bloqueios de agenda e até a recusa de chamadas de vídeo.
Nesse cenário, a principal motivação é financeira, visando o pagamento de dívidas ou a aceleração da aposentadoria. Além disso, o movimento atrai quem busca segurança contra demissões, já que possuir mais de uma fonte de renda diminui a dependência de uma única companhia.
Por outro lado, muitos especialistas apontam que o overemployment só é viável em culturas organizacionais focadas em resultados, e não em horas trabalhadas. Essa flexibilidade permite que o profissional entregue suas demandas em menos tempo do que o previsto, abrindo espaço para o segundo contrato.
A legalidade e os limites do contrato de trabalho
No Brasil, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não proíbe expressamente que um empregado tenha mais de um vínculo de carteira assinada. No entanto, é fundamental que haja compatibilidade de horários, garantindo que as jornadas não se sobreponham e que os intervalos de descanso sejam respeitados.
Vale considerar que o maior risco jurídico surge quando existem cláusulas de exclusividade ou de não concorrência nos contratos. Se o profissional trabalha para empresas do mesmo setor, ele pode ser acusado de concorrência desleal ou violação de segredo comercial, o que fundamenta demissões por justa causa.
Além disso, a prática de daylighting, que consiste em trabalhar para a empresa B durante o horário remunerado pela empresa A, pode ser interpretada como mau procedimento ou negligência. Nesses casos, a descoberta do segundo emprego pode resultar em rescisão imediata e na possibilidade de ações judiciais por perdas e danos.
Impactos no desempenho e na saúde do trabalhador
Embora os ganhos financeiros sejam atrativos, a sobrecarga de trabalho frequentemente resulta em burnout e estresse crônico. Dividir a atenção entre múltiplas equipes e metas pode comprometer a qualidade das entregas, prejudicando a reputação profissional do indivíduo a longo prazo.
Nesse contexto, as empresas expressam preocupação com a lealdade dividida e o risco de vazamento de informações confidenciais. A falta de foco pode impedir que o talento se conecte com a cultura do negócio e contribua de forma plena para o crescimento da organização.
A tecnologia também desempenha um papel de vigilância, pois registros cruzados em sistemas governamentais ou redes sociais podem revelar a duplicidade de vínculos. Por isso, muitos consultores sugerem que a transparência com o empregador é o caminho mais seguro para quem deseja atuar em múltiplos projetos.
O que considerar antes de aderir à prática
Antes de decidir pelo overemployment, nós recomendamos analisar detalhadamente cada contrato de trabalho e as políticas internas das empresas envolvidas. É essencial calcular não apenas o retorno financeiro, mas também o impacto tributário, já que a soma dos salários pode elevar a faixa do Imposto de Renda.
Manter uma rotina dupla exige uma disciplina extrema e uma gestão de tempo que nem sempre é sustentável por longos períodos. A melhor escolha sempre passará pelo equilíbrio entre as ambições financeiras e a preservação da integridade física e profissional.
