
A relação dos usuários cada vez mais intensa com o celular tem se tornado uma preocupação de saúde pública. Em entrevista à Vogue Brasil, a médica norte-americana Aileen Alexander, especialista em medicina do estilo de vida, alertou que o consumo excessivo de conteúdo digital pode comprometer funções essenciais do cérebro, como atenção, memória e capacidade de concentração.
Segundo a especialista, o problema não está apenas no tempo gasto diante das telas, mas na forma como o conteúdo é consumido. O chamado “rolar infinito” das redes sociais e a predominância de vídeos curtos criam um ciclo de recompensas rápidas que condiciona o cérebro a buscar estímulos constantes. Esse padrão pode reduzir a tolerância a atividades que exigem foco prolongado, como leitura, estudo ou até mesmo assistir a um filme completo.
Dados mencionados pela American Psychological Association reforçam isso: pesquisas recentes indicam que o consumo frequente de conteúdos de curta duração está associado à piora do desempenho cognitivo e à diminuição da capacidade de atenção, tanto em jovens quanto em adultos.
Volte para os conteúdos longos
Para reverter esse quadro, Alexander defende mudanças graduais, e não uma ruptura radical com a tecnologia. Uma das estratégias é reintroduzir conteúdos longos na rotina. Começar com um episódio de série sem interrupções e evoluir para um filme inteiro é um exercício simples de reeducação da atenção. A leitura também aparece como uma ferramenta importante nesse processo, por estimular áreas cerebrais ligadas à imaginação, à empatia e ao raciocínio complexo.
Tente atividades manuais e analógicas
A especialista recomenda, ainda, priorizar experiências analógicas. Ler livros físicos ou utilizar dispositivos dedicados exclusivamente à leitura, como o Kindle, ajuda a reduzir distrações e minimizar a exposição à luz azul.
Além disso, estabelecer ambientes da casa livres de celular, como o quarto ou a mesa de jantar, contribui para quebrar o uso automático do aparelho.
Atividade física como prioridade
A atividade física também desempenha papel importante na saúde cognitiva. Estudos citados pelo Oxford Longevity Project apontam que caminhadas regulares estimulam processos biológicos que fortalecem as conexões neurais, melhoram a memória e reduzem o risco de doenças neurodegenerativas. Caminhar, segundo os pesquisadores, funciona como um “nutriente” para o cérebro, além de ajudar a diminuir a ansiedade frequentemente associada ao excesso de informação.
Embora o vício em conteúdo ainda não seja formalmente classificado como diagnóstico na Organização Mundial da Saúde, a médica ressalta que os mecanismos comportamentais envolvidos são semelhantes aos de outros transtornos reconhecidos, como o transtorno por jogos eletrônicos. A diferença é que o celular está integrado à rotina de trabalho, estudo e interação social, o que torna a desconexão mais complexa.
Para Alexander, a chave está na criação de limites claros e na retomada do controle consciente sobre o uso da tecnologia. “Precisamos dar espaço ao cérebro”, afirmou à Vogue. É nesse espaço, longe das notificações constantes, que surgem criatividade, reflexão e capacidade de autorregulação.
Em um cenário em que estar online é quase permanente para nós, proteger o cérebro pode começar com escolhas simples: caminhar sem o celular, ler antes de dormir e resistir, ainda que por alguns minutos, ao impulso de desbloquear a tela e rolar infinitamente no feed das redes socias.

