
A passagem da Lagum por Porto Alegre rendeu mais do que um show especial para os fãs. Antes de subir ao palco da PUCRS, onde celebrou os oito anos da ATL House, a banda participou do Tá Vazando, programa da Rádio Atlântida apresentado por Mik Silva e Babi Bitencourt, em uma conversa sobre o momento atual da carreira, o novo álbum e a evolução da sonoridade do grupo.
Formada em 2014, em Belo Horizonte, a Lagum surgiu da união de Pedro Calais (vocalista), Otávio "Zani" Cardoso (guitarra e vocais), Jorge Borges (guitarra), Francisco "Chico" Jardim Neto (baixo) e Breno Braga, o Tio Wilson (bateria). Apostando em uma sonoridade que mistura pop, rock, reggae e indie, a banda rapidamente chamou a atenção.
Após o lançamento do álbum Seja O Que Eu Quiser, em 2016, a banda conquistou um público cada vez maior com faixas como "2026" e "Fifa”. Mas o grande ponto de virada veio em 2019, com o álbum Coisas da Geração, que apresentou sucessos como "Chegou de Manso" e "Oi", canções que ajudaram a transformar o grupo mineiro em um fenômeno nacional.
De lá para cá, a banda evoluiu musicalmente, mas manteve a mesma essência. Os álbuns Depois do Fim (2023) e As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo (2025) reforçam a identidade que se preserva mesmo com as mudanças ao longo da trajetória.
Durante a entrevista, realizada no dia 30 de junho de 2026, os integrantes relembraram a trajetória da banda, falaram sobre o processo criativo por trás de As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo e compartilharam reflexões sobre a relação construída com o público ao longo dos últimos anos.
A seguir, confira os principais destaques do bate-papo e a entrevista completa ao final na matéria.
Entrevista Lagum no Tá Vazando
Babi Bittencourt (Comunicadora da ATL): A gente tá tocando bastante a música de vocês, o single “Seu e Só”, e ficamos muito intrigados com o clipe da música. Eu queria saber até onde é verdade, o que não é verdade, o que é real daquele clipe ali e que vocês explicassem para a galera que ainda não assistiu o clipe, como é essa história de “Seu e Só”?
Pedro (vocalista): A gente tinha que lançar “Seu e Só”, já tinha uma data de lançamento, estava tudo pronto para lançar a música e precisávamos ir ao Rio de Janeiro para gravar uma live session no bondinho, né?
Babi: Irado, inclusive.
Pedro: É, muito obrigado. E aí a gente precisou correr com essa produção do clipe. Tinha uma verba muito baixa para fazer, porque estávamos investindo tudo para fazer no bondinho no Rio de Janeiro. Então, o clipe tinha que ser decidido rápido e com pouco dinheiro. Só que isso às vezes funciona e às vezes não funciona. A gente tem um clipe de “A Cidade”, por exemplo, que é um clipe que a gente fez super fácil. Era um terraço que eu via da minha janela, a gente chegou lá e tal. Então, a gente é meio acostumado com isso, com ideias que parecem fáceis e que elas vão ser milagrosamente bonitas. Só que não foi o caso de "Seu e Só". A gente contratou o “trenzinho da alegria”, que é a “carreta furacão” para quem não conhece. Chegamos lá e enfrentamos alguns desafios. Por exemplo, os caras não davam mortal de costas, que é uma coisa que a gente esperava, né?
Babi: Pior, nas imagens não tem mesmo.
Pedro: Não tem. Eles não conseguiam ficar muito tempo dançando e a gente achava que os caras era tipo assim, dançariam. Eu acho que era umas 3 horas gravando. Os caras eram muito loucos. Correria. A gente vê os vídeos da carreta furacão e eu pensava assim: “caralho, os caras vão fazer qualquer coisa que a gente quiser”... mas não, pô, o dia tava muito quente, tava complexa a gravação. Aí deu errado, a gente não tinha imagem suficiente, o dia caiu. E no dia seguinte era meu aniversário e eu sempre raspo meu cabelo, geralmente no meu aniversário.
Mik (Comunicador da ATL): Pois, eu ia perguntar: algum motivo especial ou é por causa do aniversário?
Pedro: É... às vezes tô cansado de ficar cabeludo e raspo, mas eu guardo esse momento para o aniversário para ser um novo ciclo, deixar aquela energia para atrás e construir novas histórias. Então eu tenho esse simbolismo para mim. No dia seguinte a gente falou: "Tá, vamos gravar mais”, só que eu já estava com o cabelo raspado e não ia dar continuidade no clipe, né? A ideia caiu, mas eu aluguei a carreta furacão e a gente passou o meu aniversário andando pela cidade ali no trenzinho. E acabou que o clipe em si deu errado, mas a gente foi registrando os dias seguintes porque envolvia trabalho, envolvia o Rio de Janeiro, envolvia meu aniversário. Quando a gente botou a música para tocar e os cara dançando, o bagulho não tava tão “cincado”, não tinha nem um mortal para trás, não tinha nada, ficamos assim, “pô, isso tá parecendo uma patacoada”. A gente vai passar vergonha se a gente for assumir isso. Então, vamos assumir que a gente tentou e que a gente errou... e aí assumimos e foi legal. Porque eu já tinha visto um clipe de um trapper que ele não apareceu no vídeo e o diretor meio bolado, ele falou assim: "Olha, eu fiz essa produção inteira, gastei esse dinheiro inteiro, era para o cara estar aqui”. Ele mostrava as imagens, mostrava os desenhos, né? Eu tinha visto essa referência há muitos anos, quando eu tava na faculdade de publicidade. Foi uma coisa que eu guardei para mim, falei: "Tá, acho que a gente pode também abraçar o nosso erro e fazer disso uma narrativa, né?". Cara, ficou muito legal.
Babi: A próxima pergunta que eu vou fazer tem a ver com isso. Tem um comentário de uma fã de vocês nesse clipe que diz: "Nossa, isso é muito mais Lagum do que talvez um clipe totalmente produzido". Essa relação com os fãs é uma coisa que vocês vêm construindo e cada vez mais se percebe que é uma relação muito bonita. Como vocês mantém isso e como vocês veem também que as pessoas acreditam tanto no trabalho da Lagum, mesmo quando vocês fazem um vídeo que deu errado?
Pedro: Eu vou responder a parte do vídeo, vocês podem responder o restante, mas é porque é uma coisa que me intriga muito. Desde o início da banda a gente mostrou muito o que que a gente estava fazendo, sabe? Tinha um quadro no YouTube que chamava “Dia de Lagum”. E a gente filmava a nossa semana inteira ali, as nossas reuniões, nossos ensaios, nossas viagens no carro. Então, acho que a cara de Lagum para um fã nosso é aquilo que é tipo, “eles estão tentando e eles estão mostrando que eles estão tentando até eles conseguirem de fato”. Quando tem essa energia de mostrar o processo sem vergonha de estar errado, sabe? Eu acho que isso tem cara de Lagum e é muito louco, porque hoje a gente tá grande, a gente consegue fazer shows pelo Brasil inteiro, pela Europa. Mas eu ainda sinto como se a gente fosse aquela mesma banda que tá tentando, sabe? Que tá quebrando a cabeça, errando e sem a necessidade de parecer perfeito para todos.
Jorge (guitarrista): Os fãs para gente é tudo, né? Eu acho que a gente sempre tenta manter essa relação com a galera, até porque são eles que tão, por exemplo, aqui do lado de fora do estúdio. São eles que estavam lá agora esperando a gente chegar no aeroporto. Então, a gente sempre tenta manter esse contato assim. [...] Então eu acho que é a forma que a gente encontra de fazer essa energia circular. Mês passado a gente fez faz uma ação de pato-aranha com umas fãs.
Todos: É, não, explica isso aí, mas. É, por favor.
Jorge: A gente tava falando de “Seu e Só”, né? Resolvemos fazer uma ação, o Chicão se vestiu de pato-aranha...
Chicão (baixista): Não era eu não (risos).
Jorge: Colocar uma roupa do Homem-Aranha com uma cabeça de pato e ir para a fila do show, onde a galera vai tá ali esperando ansiosamente passar 4 horas, às vezes no calor, no frio. E a gente chegou até uma fã e ela teve a sorte de interagir e poder escutar seu e só na íntegra antes de ser lançada. Então, eu acho que da mesma forma que o Pedro falou que a gente sempre tenta manter essa raiz assim de fazer com as próprias mãos e manter uma coisa profissional, mas ao mesmo tempo que seja assim a gente que tem a ideia, a gente que vai, bota a mão na massa e isso também de estar com os fãs, de estar sempre em contato, ouvindo o que eles pensam, ouvindo pedido de música, fazendo ações criativas. Então, é uma relação que eu acho que a gente sempre vai encontrando lugares e meios de fazer acontecer e poder tirar uma foto, escutar uma história, que aí a gente bota essa energia para circular.
Babi: E para confirmar, vocês estão trabalhando de forma independente agora, sem gravadora, né? Estar sem gravadoras também significa poder trazer mais da personalidade de vocês ou isso não interferia antes?
Jorge: Eu acho que assim, a gente nunca teve uma interferência mercadológica grande, só que eu acho também, a cada dia que passa, vamos descobrindo o tanto de trabalho que é ter uma banda. Estamos falando de uma equipe que tá presente aqui também, mas é que é gigantesca e para cada situação, seja uma vinda numa rádio, seja fazer um show, seja gravar um clipe, é uma equipe, uma extensão de pessoas muito grande. Então, eu acho que ser independente assim, é igual aquela frase do Homem-Aranha: Grandes poderes, grandes responsabilidades. Então, é saber brincar com isso tudo.
Mik: Que demais. Gurizada, As Cores, As Curvas e As Dores do Mundo, é a tour que vocês tão circulando pelo Brasil hoje e tal, tem uma música chamada “A Cidade”, que eu gosto demais dela.
Babi: Ele é viciado nessa música. Toda vez que toca ele aumenta o volume do estúdio. Ele ama essa música
Mik: É (risos). Eu não sei por que, eu não sei se tem uma coisa com a letra, uma coisa com a melodia, tem tudo. O álbum todo traz exatamente essa sensação muito urbana, né? Foi alguma coisa que vocês quiseram desde o início trazer? Como é que surgiu isso? Porque tem uma relação com a vida da gente. Vi até uma entrevista que vocês falam que trazem isso das cores, curvas e as dores do mundo que vocês trazem ao longo das faixas. Como foi a construção e cair na estrada com esse álbum? Como é que tem sido para vocês também?
Pedro: Tem sido muito interessante, esse álbum, ele foi criado em Belo Horizonte. É, o nosso penúltimo álbum que é o Depois do Fim, ele foi criado numa fazendinha no interior de São Paulo. Então a gente viveu aquela parada de morar junto numa casa e acordar no pasto e viver ali aquela, né, três, dois meses ali imerso naquilo. E esse álbum a gente construiu no nosso estúdio, que é a Ilhota Studios, que é um lugar que tem os nossos equipamentos, têm o nosso tempo para construir da forma que a gente quer. E estando em Belo Horizonte, cada um tem a sua rotina própria. Cada um tem a sua experiência antes de chegar no estúdio. E quando a gente foi fazer a parte visual desse disco, a gente percebeu isso nas músicas, o que tinha ali falando sobre a cidade, tinha esse cheirinho de Belo Horizonte e tal, então a gente, tanto pelo título quanto pela estética do álbum é muito baseado na nossa cidade.
Mik: Muito bom, parabéns pelo trabalho. Eu quando escuto a cidade, por exemplo, eu imagino alguém no carro, naturalmente viajando pela cidade ouvindo a música numa relação solitária com aquela música. Eu não sei se isso bate para todo mundo, mas é assim que funciona para mim, mas é uma coisa que realmente é muito bom de ouvir e sempre que tem a oportunidade tocamos na programação da Atlântida.
Jorge: A gente até trocou uma ideia sobre isso ontem, que é uma curiosidade, que muitas vezes soltamos a música com uma intenção, né? O Pedro acaba que escreve a letra ali, pensa alguma parada, mas quando a música solta, ela é do mundo. Então, igual você falou, que a cidade representa para você, a gente ouve muito isso da galera, dos fãs, que cada pessoa tem a música ali para cada um, saca? Então, pode ser interpretado x, y ou z e é muito legal essa parada, essa curiosidade, que fica a música quando sai, cada um interpreta e leva pro jeito que quer. “A cidade”, inclusive, viralizou no TikTok, porque na letra fala "a cidade sem você não é igual” e aí uma galera levou para esse lado do luto e tal. Mas a gente vê muito isso rolando sempre na música, de a gente soltar ela e aí cada um interpreta de uma forma e tal. A gente sempre ouve relatos diferentes, cada pessoa pegando uma música, especificamente para aquilo ali é bem uma parada bem massa da música.
Babi: Guris, olha só rapidinho. Seja como eu quiser, tem a música “2026” e eu vi vocês falando numa entrevista que precisariam pensar em alguma coisa para esse momento, né? Sei que vocês fizeram agora o live session no Bondinho, mas tem alguma coisa preparada para agosto de 2026, pensando nessa música e que dê pra falar?
Jorge: Eu acredito que dê para falar que “Seu e Só” e o Bondinho são um pontapé inicial disso que a gente tá preparando para agosto de 2026. A gente não vai nem, e nem quer, deixar isso passar em branco. Obviamente para nós é uma loucura. A gente tá aqui 10 anos depois dessa música podendo fazer mais do que a gente já fez até aqui, sabe? Então é uma vontade e é um trabalho que a gente tá sempre ralando muito esses últimos meses aí para soltar muita coisa legal, a gente não pode falar exatamente o que é. Mas já, já, tá chegando.
Mik: Pô, a gente botou o nome do programa Tá Vazando só para tentar... Tá tudo bem, tudo bem. Não tem problema. Gurizada, muito obrigado pela presença de vocês.
Babi: Obrigado, guris. De verdade, a gente adora vocês. A gente adora o trabalho de vocês. Então é muito bom receber vocês aqui na PUCRS hoje. Só alegria.
Todos: Obrigado aí pelo espaço, rapaziada. Tamo junto.

