
O 'Carta de Adeus', lançado dia 24 de abril nas plataformas de Streaming, é o 11º álbum de estúdio da Fresno. O trabalho atual marca um novo momento da banda que tem 27 anos de trajetória.
Como forma de celebrar essa história, o trio formado por Lucas Silveira (guitarra e vocal), Gustavo Mantovani (guitarra) e Thiago Guerra (bateria) retorna a Porto Alegre com show gratuito no Parque da Redenção, dia 16 de maio, às 20h, integrando a programação da Semana S.
O lugar não é novidade. Em 2007, quase duas décadas atrás, a Fresno realizou uma apresentação histórica no Parque da Redenção, que segundo Lucas Silveira, “foi um momento muito marcante”. Celebrando essa nova fase da carreira, o músico concedeu uma entrevista ao comunicador Edu Santos, do Portal da Atlântida, relembrando momentos importantes da banda até o lançamento do novo álbum.
Lucas Silveira, da Fresno, por Edu Santos, do Local Brasil
Vocalista e compositor, Lucas Silveira é integrante da Fresno, uma banda que atravessa mais de duas décadas, coleciona hits e carrega uma legião de fãs espalhados por todos os cantos do planeta.
Porém, esse sucesso já estava predestinado. O teclado que ficava na sala da sua casa na infância, os corredores do Colégio Pastor Dohms, em Porto Alegre, a Fabico, na UFRGS, o trabalho em uma produtora, tudo isso são ferramentas que auxiliaram a lapidar a comunicação e o ajudaram a expandir tecnicamente.
Mas a sua genialidade é nata. Ela mora em algum lugar mais profundo. No instinto. No inconformismo. Talvez no DNA, afinal, na família, seu irmão também trilha caminhos fortes no mundo das artes.
Existe algo que antecede a estratégia. Algo que vem antes do algoritmo. E talvez seja isso que sustente alguém por tanto tempo em um mercado com tantos altos e baixos.
Hoje, em plena era digital, quando tudo aponta para o online, Lucas aposta no físico. Na presença. Na experiência. Uma loja na Galeria do Rock em São Paulo. Um espaço. Um gesto quase contraintuitivo que, em poucos dias, já mostrou que conexão ainda vale mais que métrica.
Essa maré viva criada por Lucas e seus parceiros de banda, Vavo e Guerra, chega a Porto Alegre para lançar seu mais recente álbum ‘Carta de Adeus’, disco que vem com a maturidade e a leveza de quem gosta de se divertir fazendo o que ama: música.

Se você ainda não escutou, faça isso. Duvido não se emocionar e até dar uma sacudida na memória, se por acaso, como eu, você for de uma geração que escutou Dalto. Sim, a Fresno, pela primeira vez em seus discos, faz uma versão e a música “Pessoa” ficou perfeita!
Álbum ‘Carta de Adeus’
Aqui no site da ATL, vamos entender um pouco mais desse artista, empreendedor, pai, marido, amigo e tomador de café, que é o Lucas Silveira. Talvez a gente descubra um pouco mais de o que o fez chegar até aqui e também algumas pistas de para onde estamos indo!
Ouça na íntegra a entrevista de Lucas Silveira à ATL
Leia a entrevista de Lucas Silveira à ATL
Início da relação com a música
EDU SANTOS: Lucas, tu já deve ter contado isso muitas vezes, mas como tudo começou? Como a arte e a música entraram na tua vida?
LUCAS SILVEIRA: Começou com eu nascendo, basicamente, visto que tanto meu pai quanto minha mãe eram pessoas muito musicais, assim, naturalmente. Nenhum seguiu uma carreira profissional de músico, mas eram pessoas cuja família gostava do negócio, sabe? Então, no mínimo, eu seria um publicitário que tem uma banda. Eu faria alguma coisa que tem a ver com música, como isso nunca ia sumir.
Mas foi com três para quatro anos, ali que eu comecei a querer brincar com uns instrumentos que tinha em casa, que não era muita coisa, mas tinha um teclado em casa, um tecladinho, aqueles que ficavam na sala de estar, tipo uma vibe de órgão. Mas ele tinha uns acompanhamentos. Meu início foi isso, descobrir que era fascinante e foi uma coisa que eu acho que finalmente eu consegui focar, porque uma criança é muito estimulada o tempo inteiro, gosta de tudo.
Minha mãe percebeu bem cedo que quando eu pegava aquele teclado, velho, eu ficava horas ali, pelo menos na minha memória eram horas tocando, e muito cedo também minha mãe percebeu que eu tocava as coisas de ouvido, que eu ouvia uma melodia e ficava procurando ela naquele teclado. Daí o momento que eu fiz essa relação que as melodias estão por aí, que elas podem ser tocadas, que elas podem ser replicadas, que elas podem ser modificadas, que elas podem ser criadas... aí eu acho que começou.
Então, assim, começou muito cedo. A música foi dando essas cutucadas... até que eu decidi virar músico mesmo mais para frente, com 13/14 anos que foi quando eu também senti uma necessidade mais cultural de me expressar através do instrumento. Foi nessa parada da adolescência ali que eu percebi que a música era uma ferramenta para mim. Eu peguei um violão e comecei ao mesmo tempo que comecei a tocar as músicas que eu gostava, eu também comecei a fazer as músicas que eu queria fazer. Então eu atravessei minha adolescência mais ou menos ileso por causa da música.
EDU SANTOS: E o Lucas adolescente, o Lucas da Escola, do colégio Pastor Dohms?
LUCAS SILVEIRA: Eu, lá no Pastor Dohms, tava indo para o meu terceiro colégio e eu sempre fui uma criança pra frente, pra fora, uma criança extrovertida, não era um cara muito tímido, eu gostava de liderar muito, seja no futebol, na educação física, nas brincadeiras, nas invenções. Eu era representante de classe, depois eu era do grêmio estudantil… sempre gostei de tá encabeçando projetos, criando coisas, inventando coisas pra escola.
A minha turminha, assim, da minha infância ela foi se desfazendo e foi se formando ao meu redor uma turma que era de uma galera um pouco mais velha. Eu acho que eu ainda não tinha virado adolescente e era alguns caras que já estavam virando adolescente. Não vou passar pano para os caras, mas com uns 12/13 anos eu comecei a sofrer um bullying pesado na escola que eu estudava antes, por conta de ser um cara meio pacífico demais, então, eu não gostava de reagir a quem tirava onda comigo. Ao mesmo tempo, eu tinha um puta medo de apanhar e tal e acabou que essa galera maior e mais forte foi percebendo isso e começou a me perseguir bastante. Foi um ano muito péssimo a sexta e a sétima série. Enfim, também acho que eu quis me enturmar tanto que eu virei um cara muito bagunceiro, eu comecei a virar um aluno problema, aluno que pegava suspensão, que a professora chamava a mãe.
A minha mãe não curtia muitas companhias, mas pelo menos eu tive uma mãe que se importava, que tava pelo menos sabendo, estava a par da situação do filho naquela escola e ela também comprava muito as minhas ideias assim, aí eu falei: “bah mãe, eu preciso sair desse colégio aqui, acho que aqui não vai ter muito futuro não”. Eu realmente meti esse papo e eu acabei indo para o Pastor Dohms e foi lá que eu conheci imediatamente os caras da Fresno. Os caras da banda que eu iria fazer parte.
Começo da Fresno
No primeiro ano de Pastor Dohms, a gente montou uma banda e essa banda era o Democratas, que mais tarde seria a Fresno. A gente era os caras do grêmio estudantil, a gente organizava o festival de bandas, colocamos a Fresno para tocar no festival de bandas e esse show foi incrível. Tocamos cover de Comunidade Nin-jitsu, Charlie Brown e tudo que sabíamos tocar, basicamente. E ali começou tudo. O Vavo, guitarrista, tá comigo nessa desde essa época.
A música venceu a publicidade
EDU SANTOS: E seguindo essa etapa escolar, depois que tu entrou na Fabico (Faculdade de Comunicação da UFRGS). Como foi esse período?
LUCAS SILVEIRA: Eu fui parar na Fabico porque, ao mesmo tempo que a gente era super engajado na escola, eu também tive uma sorte muito grande no Pastor Dohms.
Justamente naquele meu ano, aquela turminha ali com a qual eu comecei na escola, a galera era muito cabeçuda, muito inteligente. O Vavo é um cara que passou em primeiro lugar no vestibular, então não existia aquela coisa de “é legal ser burro”, sabe? De ser legal e ruim nas coisas, então, ao mesmo tempo que a gente fazia, acontecia e aprontava tal qualquer adolescente, a gente também era meio legal e inteligente e bom nas coisas, tínhamos conversas com os professores num nível mais do que escola. Isso foi muito crucial porque todo mundo acabou passando no vestibular e eu entrei na Fabico, passei na UFRGS de primeira.
Quando entrei na faculdade, na verdade, eu já estava completamente decidido que eu ia ter uma banda, então nesse momento para mim a vida virou basicamente: “o que eu vou fazer até a minha banda virar alguma coisa que me faça largar tudo?”. A faculdade de publicidade eu nunca terminei, "o que eu tenho que saber sobre teoria da comunicação pra promover a minha banda?”. Tudo era a banda… eu devia ser uma pessoa insuportável até conversando, porque era só isso mesmo e ainda é um pouco isso, né? Uma fixação, um negócio que se confunde muito com a vida. Então, se alguma pessoa pergunta como é que eu to, eu respondo: a banda tá bem. Se eu deixar, acaba virando isso a conversa.
EDU SANTOS: E o trabalho na Loop Reclame Produtora de Audio? Além de ter sido o único trabalho em firma formal na tua vida. Conta um pouco?
LUCAS SILVEIRA: Como a banda ainda não era um negócio que rentabilizava, eu comecei a querer trabalhar dentro da publicidade. Eu entrei na faculdade com um pensamento mais do design, da direção de arte, mas fui aprendendo a tocar, fui aprendendo a produzir, para mim foi natural que eu continuasse dentro da publicidade.
Mas na produção musical, foi aí que eu fiz o meu primeiro e único estágio de carteira assinada, que foi na Loop Reclame, a sua firma que está aí até hoje. Mas quando a Loop surgiu tinha dois estagiários e eu era um deles. Fiquei lá uns bons meses e foi muito importante. Eu tinha, dentro do meu escopo de trabalho, finalizar fonogramas que tocariam no rádio. Eu já fui muito cedo entendendo o que é uma música que toca no rádio, ou melhor, o que uma música tem que ter pra galera gostar, pro próprio cliente da agência falar assim: “pô, adorei este jingle”.
Foi um aprendizado e, principalmente, porque o meu chefe na época valorizava muito que os caras que trabalhassem lá tivessem trabalhos de banda, que não fossem pessoas que querem ficar vivendo de publicidade. Então todo mundo lá tinha banda, rolou um negócio de conhecer gente muito forte, muito foda.
A Fresno sempre foi o projeto principal
EDU SANTOS: Quando tu teve certeza que a Fresno era teu principal projeto de vida? E fala também se em algum momento passou pela tua cabeça desistir da banda.
LUCAS SILVEIRA: Acho que a banda nunca não foi meu principal projeto. Teve um momento em que eu até cheguei a ter outras bandas naquele meio tempo, porque eu tinha uma vontade de tocar que era maior do que a vontade da Fresno. Eu tinha uma vontade de tocar o máximo que desse com o máximo de pessoas que desse. Então eu cheguei a ter outras bandas nesse período bem do começo, mas pra mim era muito óbvio que tudo era meio que a serviço da Fresno, dessa banda primordial que eu tinha. Então, nunca teve essa dúvida até sobre o lance que tu perguntou sobre desistir, nunca passou pela minha cabeça por muito tempo desistir. Já passou pela minha cabeça grandes correções de curso, grandes mudanças, mas desistir, do tipo “isso aqui não vale a pena”, eu acho que nunca chegamos nem perto, em nenhuma das formações, em nenhum dos momentos.
Às vezes, a gente pensa... não é o largar tudo, porque eu não consigo pensar em largar a música ou largar a Fresno, eu acho que, às vezes, rola assim: “vou desistir de uma parte do bagulho... ah meu, quer saber velho…”, porém é muito rápido que chega a consciência falando assim: “não, tá, perai, faz parte, faz parte, vamos lá”. Então não existe aquela desistência por achar que o meu negócio não vale a pena, que minha banda não vale a pena, que meu talento não vale a pena… porque os sinais que a gente tem que o negócio vale a pena são muito maiores e, mais do que isso, não é uma resposta guiada por resultado.
Óbvio que, por muito tempo, a banda era basicamente prejuízo. Por vários anos foi prejuízo, bem no começo da banda, e também depois daquele auge que a gente viveu ficou muitos anos operando num prejuízo e a banda ficando pequena, fazendo shows cada vez menores, mas eu não me lembro de existir uma conversa interna da banda pensando assim: “Pô, vamos mudar o plano… vamos mudar a rota… vamos acabar a banda… vamos fazer um show de despedida…” nunca passou pela nossa cabeça!
EDU SANTOS: E quando tu percebeu que estava lidando com algo muito maior do que vocês imaginavam?
LUCAS SILVEIRA: Foi bem cedo que eu percebi. Eu acho que as realizações que a gente tem assim, as coisas que a gente percebe e viram certezas, elas nunca acontecem pontualmente por causa de uma coisa só, é uma porrada que existe que nos deixa claro alguma coisa. São as ideias, elas vão sendo cimentadas na cabeça.
E uma coisa que eu tenho, que eu me lembro quando eu fiz uma das minhas primeiras músicas, que se chama “Stonehenge”, tinha um amigo meu que ele era o cara que eu mais respeitava musicalmente dentro dos meus colegas, ele era o cara que apesar de ser da minha idade tinha um gosto mais pra frente. Ele adorava Radiohead, ele adorava saber tudo de Nirvana e quando ele ouviu “Stonehenge”, ele falou: “meu, tava indo para faculdade, botei essa música meio alto no carro, quando eu vi eu tava chorando” - lembrando que era um demo gravada no violão, bem tosca, com cachorro latindo no fundo - eu pensei “caralho, porque será?” Foi uma percepção que eu tive, que ele teve, que ele me passou.
Um pouquinho depois disso, a gente fez algum show em Porto Alegre, numa casa bem undergroud, ali na João Pessoa. Tinha 50 pessoas e a maioria delas iam tocar depois da gente ou antes e tinha um grupo de pessoas ali que estava assistindo o show abraçado, como se eles estivessem assistindo um show de verdade, de um artista grande que eles conhecem há muito tempo, que tem uma cultura forte dentro da vida deles, amizade deles. Mas não, eles conheciam a Fresno, gostavam daquela música e quando viram a gente tocando ao vivo, estavam abraçados chorando e foi um outro negócio que eu fiquei “eita”.
Tiveram muitas anedotas, muitas historinhas que me fizeram perceber: a gente está sendo capaz de mover pessoas aqui de uma forma que não é muito normal. E hoje qualquer show que a gente faz, isso é comprovado que existe. A gente vê esse tipo de demonstração, esse tipo de acontecimento. Nunca é um bagulho que a gente se acostuma e fala “é isso mesmo… sou foda”. Cara, não velho! A banda ainda tem um tamanho que, apesar de grande, eu ainda consigo entender a dimensão, não é aquele negócio que perde total escala, porque tu não sabe, mas sabe. Então, eu sei a escala, eu vejo as pessoas se identificando e procuro entender cada pessoa, cada pessoa é uma história é um indivíduo que por causa de uma música viveu tal coisa. Então isso é muito mágico é muito incrível!
EDU SANTOS: A indústria da música movimenta uma cadeira produtiva muito grande. Quantas pessoas trabalham hoje diretamente na equipe da Fresno?
LUCAS SILVEIRA: A gente é uma banda que tem 26 anos de história, que na estrada emprega um número flutuante de 20 a 25 pessoas e, que fora da estrada, a gente é atendido por bastante gente. Eu não saberia enumerar assim quantos cargos diretos e indiretos a gente consegue ter. Mas pô, cada show que se faz, é uma levantada de palco, é uma levantada de divulgação, são pessoas que vem, às vezes, de outras cidades, que a gente não consegue ir. Então, assim cara, hoje dá para se dizer que é muita gente, que de alguma forma tem uma vida profissional que tem lá na Fresno um desses vértices... e também é algo que eu me orgulho pra caralho.
Mas eu percebo que, dentro da Fresno, ainda tem essa camada das pessoas sentirem que estão ali lidando com um sonho, que é um pouco mais tátil, com artistas, no caso das pessoas da banda, serem pessoas que não perderam essa coisa da relação humana, que é muito normal às vezes em bandas e artistas, quando vão ganhando uma dimensão, perder um pouco essa relação, esfriar essa relação. Então é um negócio que eu muito me orgulho. Acho que nunca teve num time nosso essa coisa distante, eu acho que todo mundo ali se conhece muito bem e está trabalhando com o artista que gosta. Isso influi completamente no que vai acontecer e porque a entrega tá sendo tão foda e tão legal.
O trabalho de produtor, além da Fresno
EDU SANTOS: Além de compositor e cantor, tem teu lado produtor musical, que já é amplamente reconhecido. Fala um pouco sobre produção musical e também sobre artistas que tu produziu, além da Fresno.
LUCAS SILVEIRA: Eu tenho uma dúvida sobre a minha carreira enquanto produtor de trabalhos para os outros, sabe. Eu vejo tudo como um desdobramento do meu trabalho de produtor da Fresno. Eu comecei a produzir porque eu comecei a compor e compor, de certa forma, acaba vindo com a produção junto. Para provar o meu ponto às vezes, para provar a minha visão, para fazer um demo que eu pudesse convencer até os outros caras da banda, eu acabava produzindo. Foi assim que eu fui produzindo e aí quando eu exercito isso para produzir o trabalho de uma outra pessoa, primeiro que eu tenho que ser eu. Também tenho que estar dentro daquele projeto num nível que eu me considere parte daquilo a ponto de ser um disco meu também.
Eu não consigo me colocar muito como prestador de serviço ali na história. Eu tento me colocar, “pô, isso vai ser importante para mim”. Por causa disso eu pego muito poucas produções, mas uma produção que eu tenho um orgulho de fazer, tem várias assim. Mas eu acho que disso ter sido reconhecido por bandas de outras gerações e acabar fazendo produção para o Capital Inicial, isso foi um negócio muito legal, eu fiz um álbum inteiro.
Fiz um álbum do RPM que nunca saiu, porque a banda tava sem se entender direito e o Paulo Ricardo acabou lançando algumas dessas músicas na carreira solo dele, mas é um disco que eu tenho uma visão que teria sido um bagulho diferente, porque a banda é o RPM. No caso, sempre foi muito moderno e aí eu trouxe um pouco do que eu acredito que a banda era para continuar sendo. Isso foi em 2015, cara, e a banda nunca entrou em consenso e nunca lançou este álbum. E a última vez que falei com o Paulo Ricardo, porra, mano, aquele álbum tinha várias faixas foda e eu tenho orgulho, porque nunca saiu... vai que, sabe… ficou na gaveta e vai que o negócio que vai mudar a tua vida tá numa gaveta... Eu não gosto de deixar nada em gaveta!
A Fresno na Gleria do Rock, em São Paulo
EDU SANTOS: Em um mundo cada vez mais virtual, onde se compra qualquer coisa online, de onde surgiu a ideia de abrir uma loja física em São Paulo?
LUCAS SILVEIRA: A ideia da loja física vem muito de uma vontade que a gente tinha… de primeiro, percebendo que Fresno faz parte de uma cultura de muita gente. Então a loja sendo mais do que uma loja ali, onde o cara pode encontrar coisas da banda, é um lugar que celebra um pouco a cultura da banda, uma micro cena, uma micro cultura, uma micro comunidade – que é bem grande inclusive. E tendo como endereço a Galeria do Rock que é um lugar que celebra o rock, enquanto ritmo, enquanto atitude, nada mais justo do que ter uma loja ali da Fresno e a nossa história também é muito ligada à Galeria do Rock, porque foi o primeiro lugar que a gente se viu como, de certa forma, célebre de alguma maneira. Era um lugar que a gente não conseguia entrar, porque no auge daquela primeira explosão do emo, os emos jovens adolescentes saiam da escola e se reuniam na galeria do rock.
Olha só que louco né, a galera se reunia num lugar físico, mesmo sendo um público já de internet, se reuniam num lugar físico para curtir as bandas, para ir atrás de disco, para trocar informação, para trocar, para se conhecer, para namorar.
Enfim, a Galeria do Rock era um centro disso e tudo isso girava em torno de uma cultura das bandas emo e, principalmente, as bandas emo brasileiras, né. Então, eu acho que a gente abriu essa loja com 20 anos de atraso. Era para ter uma loja nossa lá desde sempre, faz muito parte da ética do hardcore e do punk rock os caras de banda terem lojas, terem distribuidoras, terem selos, que a gente até demorou para fazer. Isso devia ter desde antes, mas é um negócio que tá dando muito certo.
É uma operação que nós mesmos da banda que operamos, somos sócios daquilo então existe uma cota grande de trabalho, principalmente nesse começo, na implementação. Mas, obviamente, a gente contratou gente para operar esse braço de uma maneira profissional, sem ser aquela coisa nós, e tem dado muito certo. Gente do Brasil inteiro visita a Galeria do Rock, o centro de São Paulo também, que tá num reflorescimento, então é um lugar muito legal de dar rolê. E a Galeria do Rock é um desses lugares do centro que é legal de dar rolê. E ter a nossa loja lá, bem grande na fachada, é muito massa!
Lucas além do trabalho
EDU SANTOS: Com tantos projetos e uma vida corrida, tu acha que tem conseguido tempo suficiente para curtir a vida com tua família?
LUCAS SILVEIRA: As pessoas fazem muito essa pergunta, de como eu tiro tempo para fazer as coisas. Eu acho que, com a idade, a gente vai ficando menos propenso a jogar tempo fora porque a gente vai entendendo o significado do tempo. Eu procuro ser muito pragmático nas coisas que eu faço e todo tempo que eu dedico para alguma coisa eu procuro ser bem utilitarista em relação aquele tempo para que, justamente, eu possa não jogar tempo fora e ter o tempo livre que é necessário. Eu estar com a minha família, criar minha filha, fazer as coisas de pai do dia a dia, as "coisas chatas"... ter o máximo de rotina possível dentro da vida de uma pessoa que viaja pra tocar e tal.
Mas a nossa realidade também tem uma certa comodidade porque a gente não faz uma quantidade muito grande de shows, então a gente não fica muito tempo viajando e isso serviu inclusive para melhorar até a nossa condição de banda. Por a gente querer entregar um show mais foda acabamos tendo uma exigência maior de equipamento, de estrutura. Isso faz com que a gente tenha menos shows, mas ao mesmo tempo, esses shows são como a gente planejava, mais foda, é um negócio que marca assim. E tendo menos shows conseguimos nos dedicar um pouco mais a cada um desses shows e ter um pouco de intenção a mais em cada um desses shows.
Eu consigo, sim, ter mais tempo livre do que as pessoas imaginam justamente porque eu gosto de otimizar muito esse tempo e dentro da banda, apesar de eu ser vocalista e ter uma liderança natural de vocalista, a gente divide muito nossas tarefas e tem áreas da banda que cada um toma conta justamente para que a empresa inteira consiga ter um rendimento foda sem que fique uma pessoa cuidando de tudo e às vezes dando mancada por justamente tá jogando em muitas posições ao mesmo tempo. A gente se divide bem nisso e tem uma simbiose muito grande ali entre nós, justamente para que todo mundo consiga ter suas vidas particulares, até seus outros trabalhos.
Ta muito claro que a Fresno é uma prioridade máxima para todo mundo, mas todo mundo meio que tem uma vida dedicada um pouco a seus próprios interesses. O Vavo é comentarista de basquete da NBA, é um dos caras que mais manja de basquete do Brasil, ele é guitarra na Fresno também, mas ele manja tudo de basquete e trabalha com isso. O Guerra faz trilha e é dono de um espaço cultural. Eu trabalho muito com publicidade, com redes sociais e também produzindo algumas coisas para mim, para outras pessoas. A gente acaba se dividindo bem, isso é crucial.
EDU SANTOS: Lucas, o que te emociona?
LUCAS SILVEIRA: O que me emociona é a música. E eu não tô nem falando de uma letra, de uma história, de alguma coisa, eu acredito que as notas musicais têm um negócio ali, cara, que é físico, químico, mecânico biológico. A gente quando está com a mente aberta, coração aberto, a sensibilidade aflorada, tu ouve uma nota, um acorde, tu ouve uma sequência, tu ouve uma voz posicionada de um jeito, uma história ali sendo contada por uma música, até em música instrumental, e isso me dá um negócio como se fosse uma dor, só que um negócio bom. É como se fosse um sentimento de se estar vivo. Aquele sentimento que o nenê tem quando ele respira o primeiro ar saindo do útero da mãe e chora, ele não tá chorando porque ele ta puto ou porque tá triste, ele tá chorando porque ele tá vivo. Quando a música tem isso, ela me pega. Aí que ela me dá esses sentimentos, então isso vai acontecer com vários estilos de música.
A minha busca musical é justamente replicar isso, mas não replicar imitando, como é que eu posso devolver para as pessoas o que essas pessoas tão me dando? No sentido de as músicas que eu ouço me dão tantas coisas… quero ser capaz de dominar isso e fazer isso também. Então a nossa música que emociona as pessoas, que dá certo, é basicamente eu aplicando o que eu aprendi ouvindo as músicas que me emocionam. Eu quero provocar isso também, tem um pouco de ego, eu quero ter esse poder, eu quero ter o domínio dessa mágica que nunca é exata, que tu não vai aprender na faculdade, tu não vai aprender com o professor; tu vai aprender vivendo. Então, o que me emociona é isso.
O que me emociona também, em alguns momentos, é ser capaz de também provocar isso nas pessoas, porque não é um negócio muito simples, não é um negócio que dá pra descrever, não é um negócio que dá pra ensinar. Então, também me sinto bem honrado de ter tido uma vida, uma criação que me possibilitou ter a sensibilidade que eu tenho, que eu aplico numa criação que eu faço. É isso então, somos caras bem emocionados.
Fresno na Redenção, em Porto Alegre
EDU SANTOS: Pra fechar nosso papo, vamos de planos para o futuro, álbum novo e o show no Parque da Redenção, em Porto Alegre.
LUCAS SILVEIRA: Planos para o futuro… tamo com álbum novo [Carta de Adeus]. Um álbum novo é um momento de sonho muito presente, momento de concretizar muita coisa que está voando. Tem que transformar em verdade, em um mundo real através do show, através da divulgação, através do marketing, através da comunicação, então é o momento que eu adoro.
Lançar um disco que foi feito em um processo super interno e levar ele para o mundo e virar uma coisa eterna, uma coisa coletiva um negócio que começa a fazer sentido para mais gente. Então, esse é o momento, nosso álbum ‘Carta de Adeus’ está na rua, só ouvir lá em todas as plataformas e, principalmente, ir a um show da banda.
Inclusive, galera de Porto Alegre, a gente vai tocar de graça na Redenção. Esse show vai ser histórico, porque a gente já fez um show parecido em 2007, há 20 anos atrás na Redenção, e foi um momento muito marcante. Poder repetir isso 20 anos depois, poder ser uma banda que já tem 20 tantos anos e nunca pensou em parar e que principalmente tá aí lançando coisas, não só vivendo de um passado.
É uma honra muito grande, é um negócio foda viver de música em um país onde é muito difícil viver de qualquer coisa, imagine só de música? Então a gente tem uma honra muito grande, um sentimento de “vamo entregar um negócio muito foda” e aí Porto Alegre tá na mira. Nosso próximo show e vai ser incrível!!! É isso valeu, Eduzera, e vamos da-lhe.

