Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Roteiro e Melhor Direção, Uma Batalha Após a Outra não se tornou um fenômeno por acaso. O novo filme de Paul Thomas Anderson vai além do prestígio técnico e das grandes atuações: ele captura o espírito de um tempo marcado por extremos, cansaço coletivo e relações familiares tensionadas pelo medo e pela herança do passado.
Estrelado por Leonardo DiCaprio, o longa mistura drama, humor ácido e ação para contar uma história que é, ao mesmo tempo, íntima e política, sem jamais se render ao discurso fácil.
Uma história sobre sobrevivência
No centro da trama está Bob, um homem que vive à margem, isolado do mundo, criando a filha Willa como se cada dia fosse um exercício de defesa. Quando a jovem é sequestrada por um inimigo que ressurge após 16 anos, Bob é forçado a abandonar o refúgio paranoico que construiu e encarar escolhas que ele acreditava enterradas.
O filme não apresenta Bob como herói. Pelo contrário: ele é falho, exausto, contraditório. Sua motivação não nasce de ideologia ou desejo de redenção pública, mas de um impulso primitivo: proteger aquilo que ainda resta.
A batalha como ciclo
O título Uma Batalha Após a Outra funciona menos como promessa de ação e mais como diagnóstico social. Anderson constrói uma narrativa em que os conflitos não se resolvem, apenas se transformam.
O inimigo que retorna não é apenas um antagonista individual, mas a personificação de estruturas que insistem em sobreviver: autoritarismo, violência normalizada e pactos silenciosos. O filme sugere que, para certos grupos, a ideia de “paz” nunca foi realmente uma opção.
Um filme político sem discurso político
Ambientado em um futuro muito próximo, o longa dialoga com o presente sem explicações didáticas. Não há slogans, não há falas programáticas. O roteiro confia na inteligência do público e trabalha com metáforas, silêncios e repetições históricas.
Essa abordagem foi um dos principais motivos para o reconhecimento no Globo de Ouro de 2026. O texto evita o panfleto e aposta na ambiguidade: personagens tomam decisões moralmente questionáveis, alianças se formam por necessidade, não por pureza ética.
Relações humanas no centro do caos
Apesar da escala grandiosa e do clima de tensão constante, Uma Batalha Após a Outra é, acima de tudo, um filme sobre vínculos. A relação entre pai e filha funciona como eixo emocional da narrativa e como contraponto ao mundo em colapso ao redor.
Paul Thomas Anderson usa essa dinâmica para falar de legado, responsabilidade e da dificuldade de proteger a próxima geração sem repetir os mesmos erros. Não se trata apenas de salvar Willa, mas de decidir que tipo de mundo, e de memória, será deixado para ela.
Por que o roteiro venceu o Globo de Ouro
O prêmio de Melhor Roteiro reconhece justamente essa combinação rara: um texto que sustenta espetáculo, densidade emocional e comentário social sem sacrificar nenhum dos três.
O roteiro se destaca por:
- Personagens complexos, sem arquétipos fáceis
- Diálogos que equilibram tensão e humor
- Estrutura narrativa que rejeita soluções simples
- Capacidade de dialogar com o presente sem datar o filme
É um texto que entende que o cinema pode ser entretenimento e reflexão ao mesmo tempo.
Campanha de premiações
O filme vem conquistando uma leva impressionante de estatuetas em uma temporada de premiações que ainda está no início. Além do Globo de Ouro de Melhor Roteiro, Uma Batalha Após a Outra também levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante em Filme de Drama com a atuação de Teyana Taylor e Melhor Direção para Paul Anderson, Melhor Roteiro, Melhor Filme e Melhor Direção no Critic's Choice Award.

