Por que gostar de alguém pode despertar ansiedade? Especialista responde
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Por que gostar de alguém pode despertar ansiedade? Especialista responde

Psiquiatra explica como expectativas, redes sociais e vínculos instáveis afetam a saúde emocional nos relacionamentos

20/02/2026 - 12h34min

Gostar de alguém nunca foi simples. Esperar uma resposta, reler mensagens, interpretar silêncios, entender sinais... O início de um envolvimento afetivo costuma vir acompanhado de projeções, inseguranças e um certo frio na barriga.

Sentir ansiedade ao gostar de alguém pode acontecer em qualquer fase da vida, justamente porque existe expectativa envolvida. Para Carolina Blaya, psiquiatra, pós-doutora, professora da UFRGS e da UFCSPA, no entanto, esse sentimento tende a ser mais presente entre os jovens, já que, nessa etapa, as emoções costumam ser vividas de forma mais intensa.

Além da intensidade emocional própria da idade, a forma como os relacionamentos se estabelecem nesse momento também influencia esse sofrimento. As relações são, em geral, marcadas por diferentes níveis de envolvimento - tem o ficante, o ficante plus, o ficante premium.... E, segundo a especialista, vínculos incertos tendem a gerar mais insegurança emocional.

Relações estáveis funcionam como fator de proteção do ponto de vista da saúde mental, porque as instáveis acabam gerando frustrações, gerando expectativas e interferindo negativamente no emocional

CAROLINA BLAYA

Psiquiatra, pós-doutora, professora da UFRGS e da UFCSPA.

Desse modo, buscar relações profundas, baseadas em confiança e presença, funcionam como um importante fator de proteção mental nessa e em todas as fases da vida.

Reprodução/ChatGPT

Ansiedade faz parte. O problema é quando ela paralisa

Sentir frio na barriga antes de um encontro ou frustração por ver quem se gosta com outra pessoa são experiências consideradas normais. Segundo Carolina, essas reações fazem parte do processo de se envolver afetivamente. "Não é possível viver sem ansiedade, sem frustrações ou sem tristezas. Isso faz parte da vida."

A ansiedade se torna um problema não pelo sintoma em si, mas pelo quanto ela impede a pessoa de viver. O sofrimento passa a ser motivo de atenção quando deixa de ser pontual e começa a gerar prejuízos no dia a dia.

Por exemplo, brigar com o crush, ficar triste e não querer sair naquele dia é absolutamente normal, está tudo certo. Agora, se isso está perdurando por um período maior e perturbando a pessoa a ponto de não encontrar mais os amigos ou ficar só dentro de casa, isso provavelmente está indo para um rumo patológico. A diferença entre o que é normal e o que é patológico também pode ser identificada pelo quão pervasivo é o sintoma: se a pessoa só fica triste e chateada quando vê o sujeito, é uma coisa; agora, quando essa tristeza e essa chateação estão permeando a vida dela quase todos os dias, a maior parte do dia, possivelmente isso se refere a algo patológico

CAROLINA BLAYA

Psiquiatra, pós-doutora, professora da UFRGS e da UFCSPA.

Redes sociais ampliam a comparação e a ansiedade

As redes sociais também atuam como um amplificador desse sofrimento emocional. A exposição constante a versões idealizadas de corpos, relacionamentos e estilos de vida contribui para comparações frequentes e expectativas irreais. “As pessoas passam a se comparar com versões filtradas, sendo que ninguém é daquele jeito filtrado”, comenta Carolina Blaya.

Além disso, a psiquiatra alerta para a comparação a partir da exposição excessiva não só das redes sociais, mas também à pornografia. “O que tu imagina que deveria ser e, quando te depara com a tua realidade, percebe que não é? Isso também cria uma expectativa irreal”, comenta.

A sensação de nunca ser o bastante

Dentro de todo esse contexto, o medo da rejeição e de não ser suficiente tornam-se mais frequentes. De acordo com a especialista, essas emoções costumam estar ligadas a expectativas elevadas - tanto em relação ao outro quanto a si mesmo. “Quanto maior for a expectativa da pessoa, mais insuficiente ela vai se sentir”, afirma.

Para Carolina, uma dica seria se basear mais na realidade, em como as coisas realmente são. "Acho que faria muito bem para os jovens lerem mais biografias e verem menos redes sociais, por exemplo.  Ou seja, entrar em contato com a verdade, enfim, como é a experiência real do ser humano - com as suas fragilidades, com as suas dores -  e menos com esse mundo encantado de filtros." 

Esse sentimento de insuficiência se intensifica quando o valor pessoal passa a depender da validação do outro. De acordo com a psiquiatra, ao colocar a própria percepção de valor no olhar alheio, a pessoa passa a depender de critérios que não controla, já que o outro responde a partir dos próprios parâmetros. Para ela, refletir sobre os próprios valores e alinhar a vida a partir deles - e não da aprovação externa - é uma estratégia mais saudável.

Além disso, é importante reconhecer o que se sente, dar nome às emoções e entender que elas fazem parte da experiência humana. Isso ajuda a normalizar sentimentos comuns nos relacionamentos. “Não existem emoções boas ou ruins. As emoções fazem parte da vida, a gente vai sentir elas. O que faz diferença é o que a pessoa faz com aquilo que sente”, explica.


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