No carro a caminho do trabalho, no computador na hora de estudar, nos fones na academia ou até no supermercado, durante as compras... A música está sempre por perto. Muitas vezes, nem percebemos o quanto ela nos acompanha - e o impacto que tem em nossas vidas.
A música vai muito além do entretenimento: estudos e especialistas apontam que, quando utilizada de forma consciente, ela pode gerar efeitos positivos na saúde mental e no bem-estar, já que ativa sistemas ligados à emoção, à memória e ao prazer, estimulando a liberação de substâncias como dopamina e serotonina, que influenciam diretamente o humor.
O uso intencional da música na regulação emocional
Diferentes ritmos, sons e intensidades estimulam áreas distintas do sistema nervoso, influenciando o nível de ativação emocional e fisiológica. Músicas mais lentas e suaves tendem a desacelerar a respiração e os batimentos cardíacos, favorecendo uma sensação de calma. Já sons mais rápidos ou com batidas marcadas podem gerar mais energia e disposição.
No entanto, esse efeito não é igual para todo mundo, como explica a musicoterapeuta Diana Dick: “Cada pessoa tem uma identidade sonora, ou seja, um conjunto de sons, estilos e músicas que fazem sentido para a sua história, suas vivências e suas emoções. O que acalma uma pessoa pode não ter o mesmo efeito em outra”.
O reconhecimento da própria identidade sonora é o ponto de partida para que a música se torne uma poderosa ferramenta de autorregulação emocional.
Regular o humor com música vai muito além de simplesmente ouvir qualquer coisa; trata-se de compreender os efeitos que cada tipo de som desencadeia no corpo, nos pensamentos e nas emoções. "É como se eu criasse, através do som, um caminho para me sentir melhor, mais presente e mais conectado comigo mesmo”, ressalta Diana.
Dica Vibe Real: crie playlists para diferentes momentos e emoções
Separar músicas por momentos emocionais, como playlists para relaxar, focar, animar-se ou refletir, é uma forma simples de usar canções a nosso favor no cuidado com o bem-estar.
Para Eduardo Pinheiro, residente em psiquiatria no Hospital Psiquiátrico São Pedro e músico, criar playlists passa por dois pontos importantes. O primeiro é a intencionalidade. “Quando você monta uma playlist para um determinado sentimento, já sabe que aquelas músicas vão te ajudar naquele momento. O cérebro passa a reconhecer esse caminho”, afirma.
Além disso, segundo ele, o cérebro é muito bom em encontrar padrões e funcionar dentro de contextos: “Se eu tenho uma playlist só com músicas animadas para treinar e sempre escuto ela na academia, mesmo nos dias em que a motivação está baixa, colocar essa playlist já ajuda a gerar mais energia”.
Ouvir é bom. Fazer música também
Além de ser trilha sonora, a música também pode ser uma ferramenta poderosa de bem-estar quando vira prática. Cantar, tocar um instrumento ou se arriscar a compor transformam o som em um espaço de expressão - de traduzir aquilo que está preso internamente - e de autoconhecimento.
Para Eduardo Pinheiro, aprender um instrumento e se aprofundar na teoria musical pode contribuir para a redução da ansiedade e para uma melhora significativa na qualidade de vida.
Para ele, o processo de aprender, errar e evoluir musicalmente também tem um impacto direto na autoestima: “Sempre que a gente está praticando algo, aprendendo e se tornando melhor naquilo, cresce muito a sensação de autoconfiança, autonomia e capacidade. Quando a gente percebe que consegue traduzir algum conteúdo difícil e complexo, isso faz um efeito muito poderoso na autoestima”.
Conexões reais a partir da música
A música também diz muito sobre quem somos. As preferências musicais estão ligadas à nossa história, à geração e até à forma como enxergamos o mundo. Não à toa, encontrar alguém que gosta dos mesmos cantores e álbuns cria uma identificação. É como se o outro entendesse algo que nem sempre conseguimos colocar em palavras.
Quem nunca ouviu uma música lançada há 30 anos e pensou: "Ela fala exatamente o que eu estou sentindo agora"? Assim se cria um espaço de validação e pertencimento.
Além disso, a música também é ponto de encontro. Um samba na rua, um karaokê, um festival ou um show viram desculpa para sair de casa, reunir-se e viver algo em conjunto. “A música dá um motivo para as pessoas se encontrarem. Isso é algo que a gente acaba perdendo com o tempo: a ideia de se reunir simplesmente para estar junto. E a música ajuda muito nesse sentido”, destaca Eduardo.
Para a musicoterapeuta Diana Dick, a música em grupo cria conexões autênticas. "Quando as pessoas cantam juntas, tocam juntas ou compartilham experiências musicais, elas se sentem menos sozinhas. Esse tipo de experiência fortalece vínculos e promove acolhimento”, enfatiza.
