
É cada vez mais comum rolar o feed das redes sociais e encontrar álbuns que documentam o crescimento de crianças, desde o primeiro ultrassom até o primeiro dia de aula. Esse hábito, que nasce do desejo genuíno de dividir momentos felizes com amigos e familiares, tornou-se parte natural da rotina digital de muitas famílias.
No entanto, essa exposição constante deu origem ao conceito de "sharenting", um termo que une as palavras compartilhamento (share) e parentalidade (parenting) para descrever a publicação excessiva de conteúdos envolvendo menores. Embora geralmente feita com as melhores intenções, essa prática carrega riscos invisíveis relacionados à privacidade e à segurança física e emocional das crianças. A seguir, nós mostramos o que deve ser considerado para lidar com essa situação de forma equilibrada
A construção precoce do rastro digital
Muitas vezes, a presença digital de uma criança começa antes mesmo do nascimento, por meio da publicação de imagens de exames ou anúncios de gravidez. Estudos indicam que uma parcela significativa das crianças já possui uma identidade online estabelecida pelos responsáveis antes de completar dois anos de idade.
Ao compartilhar esses momentos, nós podemos revelar, sem querer, dados sensíveis como nomes completos, datas de nascimento e locais frequentados, como escolas ou parques. Esse acúmulo de informações cria um rastro digital permanente que pode ser rastreado e acessado por terceiros, muitas vezes sem o nosso controle.
Além disso, muitas plataformas sociais possuem termos de uso que lhes garantem o direito de utilizar o conteúdo postado para seus próprios fins. Isso significa que, ao publicar uma foto, podemos perder a propriedade exclusiva sobre aquela imagem, dificultando sua remoção completa no futuro.
Riscos de segurança e o uso de Inteligência Artificial
Um dos aspectos mais preocupantes envolve o uso indevido dessas imagens por pessoas mal-intencionadas, incluindo o download de fotos para redes ilegais. Relatórios apontam que uma parte considerável do material encontrado em sites de exploração infantil tem origem em publicações inocentes feitas em redes sociais abertas.
Além disso, o avanço da inteligência artificial trouxe novas ameaças, como a manipulação de fotos para criar conteúdos falsos e inapropriados envolvendo menores. Registros simples do cotidiano podem ser alterados por algoritmos para gerar imagens comprometedoras, escapando completamente do contexto original pretendido pela família.
A exposição de detalhes geográficos também pode facilitar a ação de criminosos no mundo físico. Quando todos parecem saber quem a criança é e onde ela estuda, a vulnerabilidade a assédios e abordagens indevidas aumenta consideravelmente.
Impacto psicológico e o direito à privacidade
Para além da segurança física, devemos considerar os efeitos emocionais a longo prazo, uma vez que a imagem projetada online pode não se alinhar com a identidade que a criança deseja construir. Conteúdos que parecem engraçados ou adoráveis para os adultos podem se tornar fonte de constrangimento ou bullying para o jovem no futuro.
Existe também um debate ético sobre o consentimento, já que crianças mais novas não têm capacidade de autorizar a exposição de sua intimidade para uma audiência global. Especialistas alertam que o direito à imagem e à honra pertence ao menor, e priorizar a popularidade nas redes pode desgastar a relação de confiança dentro da família.
Navegar pelo mundo digital exige um equilíbrio entre a alegria de registrar memórias familiares e a responsabilidade de proteger a vulnerabilidade daqueles que amamos. Adotar medidas de proteção, como ocultar rostos, limitar a audiência das publicações e evitar a divulgação de dados escolares, são formas de mitigar esses riscos.
