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Onda de calor urbano em 2026: por que as cidades brasileiras batem recordes de temperatura e o que prefeituras podem fazer além de plantar árvore

As cidades enfrentam temperaturas extremas causadas pela urbanização densa e mudanças climáticas, exigindo novas estratégias de resiliência pública

25/03/2026 - 14h53min

Reprodução/Pexels
O avanço das ilhas de calor nas cidades brasileiras tem intensificado recordes de temperatura e exposto desigualdades urbanas no acesso a ambientes mais frescos.

O Brasil tem enfrentado recordes sucessivos de altas temperaturas, com cidades registrando marcas históricas que desafiam a saúde pública e a infraestrutura urbana. Esse fenômeno não é apenas sazonal, mas reflexo de uma crise climática que se manifesta de forma mais intensa nos grandes centros urbanos.

Para a maioria de nós, o calor excessivo altera a rotina e aumenta a dependência de sistemas de resfriamento que nem sempre são acessíveis a todos. Compreender as causas desse aquecimento é o primeiro passo para cobrar e implementar soluções eficazes em nossas comunidades.

Neste texto, a ATL explica como o redesenho do zoneamento urbano e o resgate de elementos arquitetônicos tradicionais, como brises e cobogós, podem dissipar o calor retido nas fachadas.

O fenômeno das ilhas de calor e a desigualdade térmica

As cidades brasileiras sofrem com o efeito de "ilhas de calor", onde o excesso de concreto e asfalto aprisiona a radiação solar durante o dia e a libera lentamente à noite. Isso faz com que as temperaturas noturnas permaneçam elevadas, impedindo o resfriamento natural do ambiente e do corpo humano.

Vale considerar que esse calor não atinge a todos de forma igual, revelando o que especialistas chamam de racismo ambiental ou desigualdade térmica. Enquanto bairros arborizados e pouco densos conseguem dissipar o calor, favelas e periferias chegam a registrar temperaturas até 12°C mais altas que seus vizinhos.

Nesse cenário, a falta de ventilação cruzada e o uso de materiais como telhas de zinco nas comunidades agravam a sensação térmica, que já ultrapassou os 60°C em locais como o Rio de Janeiro. A crise climática, portanto, tem território e classe social bem definidos.

Soluções arquitetônicas e o resgate de técnicas tradicionais

Para combater o abafamento nos interiores, especialistas defendem o retorno de elementos da arquitetura moderna brasileira, como o brise (quebra-sol) e o cobogó (parede vazada). Essas estruturas ajudam a barrar a incidência direta do sol enquanto permitem que o ar circule livremente pelos ambientes.

Outra alternativa tecnológica são os telhados e fachadas verdes, que podem reduzir a temperatura interna em até 10°C em comparação a coberturas metálicas. No entanto, nós precisamos considerar que o custo dessas instalações ainda é um limitador para a população de baixa renda.

Além disso, o uso de cores claras nas fachadas e materiais de isolamento térmico são estratégias fundamentais para diminuir o ganho de calor das edificações. A indústria tem avançado em vidros especiais e bioconcreto, embora essas soluções ainda sejam restritas a empreendimentos de alto padrão.

Urbanismo resiliente e os refúgios climáticos

As prefeituras começam a testar os "refúgios climáticos", que são espaços públicos projetados para oferecer hidratação e resfriamento imediato à população em trânsito. Cidades como Belo Horizonte implementaram ilhas de frescor com bebedouros e áreas sombreadas para mitigar os efeitos das ondas de calor extremo.

Por outro lado, o planejamento urbano precisa rever as leis de zoneamento para exigir maior espaçamento entre os edifícios. Quando as construções são muito próximas, o calor fica "preso" nos corredores urbanos, impedindo a dissipação térmica e a renovação do ar nas ruas.

A criação de corredores verdes e a manutenção de solos permeáveis para que a terra “respire” também são bem-vindas. Integrar a malha hídrica da cidade, em vez de canalizar rios sob o asfalto, ajuda a criar microclimas mais amenos por meio da evaporação natural da água.

A responsabilidade pública e a justiça climática

A adaptação das cidades não deve ser vista como um privilégio individual, mas como um direito coletivo e uma responsabilidade do Estado. Políticas de urbanização que ignoram as favelas acabam negando a cidadania e agravando a vulnerabilidade das populações negras e periféricas.

Nós percebemos que ações emergenciais, como a suspensão de aulas ou o alerta via celular, são importantes, mas não substituem mudanças estruturais de longo prazo. O compromisso público deve envolver desde o saneamento básico até o financiamento de reformas habitacionais para conforto térmico nas áreas marginalizadas.


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