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Nota de Corte "Inflacionada": Por que cursos tradicionais estão ficando mais concorridos em universidades do interior

A nova regra que permite utilizar notas de edições anteriores do Enem elevou a disputa por vagas em todo o país, afetando inclusive os campi fora das capitais 

21/04/2026 - 10h00min

Reprodução/Freepik
A regra das "três gerações" do Enem elevou as notas de corte e transformou a disputa por vagas em universidades.

A mudança no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) em 2026 trouxe uma dinâmica inédita para os vestibulandos brasileiros. Pela primeira vez, o sistema considera automaticamente a melhor média do candidato entre os exames de 2023, 2024 e 2025.

Essa medida, embora planejada para reduzir a ociosidade em cursos menos procurados, gerou um efeito de "inflação" nas notas de corte dos cursos mais tradicionais. O resultado é um cenário de incerteza para milhares de jovens que buscam o ensino superior público.

Neste texto, nós vamos analisar os principais pontos que envolvem esse tema e como essa nova configuração do Sisu altera as chances de aprovação.

A dinâmica das "três gerações" em uma única vaga

O principal motor do aumento das notas é a concentração de candidatos de alto desempenho de diferentes anos em um mesmo processo seletivo. Com três notas disponíveis, o sistema seleciona a versão mais competitiva de cada estudante, o que "empurra" o topo da régua para cima.

Nesse cenário, cursos como Medicina na UFRJ e Direito na UFMG registraram altas superiores a 10 pontos em relação ao ano anterior. O funil de seleção deixou de ser anual para se tornar um acumulado de três edições, tornando a entrada em carreiras concorridas um desafio ainda maior.

O efeito cascata sobre as universidades do interior

Um fenômeno observado por especialistas é o deslocamento da concorrência das capitais para as cidades do interior. Quando um candidato com nota alta não consegue vaga nos grandes centros, ele migra sua inscrição para instituições menores, elevando as notas de corte locais.

Por outro lado, essa migração pode ser provisória. Muitos estudantes ocupam essas vagas apenas para garantir a matrícula, mas continuam tentando aprovação em seus locais de origem usando a mesma nota em edições futuras. Isso pode gerar um ciclo de abandono de vagas e prejuízo para a formação de profissionais nessas regiões.

Veteranos experientes contra novatos do ensino médio

A desigualdade entre quem está terminando a escola e quem já estuda há mais tempo ficou mais evidente. O aluno que concluiu o ensino médio em 2025 agora disputa diretamente com veteranos que possuem mais maturidade e tempo de preparação acumulado.

Vale considerar que a nova regra favorece quem tem condições financeiras de realizar o exame múltiplas vezes e investir em cursinhos preparatórios por longos períodos. Para o estudante que está na sua primeira tentativa, a sensação é de estar em desvantagem competitiva desde o início.

Os "colecionadores de aprovação" e o sistema técnico

Outro fator que gera ruído nas notas de corte parciais é a presença dos chamados "colecionadores de aprovação". São pessoas já matriculadas ou sem intenção real de cursar a graduação que entram no sistema apenas para testar seu desempenho, inflando artificialmente as pontuações.

Nesse contexto, o uso da Teoria de Resposta ao Item (TRI) é a ferramenta que o governo utiliza para garantir que as notas de anos diferentes sejam comparáveis entre si. No entanto, a complexidade técnica de associar cada CPF a três edições do Enem ainda levanta preocupações sobre a estabilidade do sistema.


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