
O julgamento do assassinato de Tupac Shakur começou nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, em Las Vegas, quase 30 anos depois da morte do rapper. Duane “Keffe D” Davis, ex-líder da gangue South Side Compton Crips, é a única pessoa formalmente acusada pelo crime e responde por homicídio com uso de arma mortal, com agravante relacionado à atuação de gangue. Ele se declarou inocente.
Durante as alegações iniciais, a promotoria apresentou Davis como o responsável por coordenar o ataque contra Tupac em uma ação de vingança após uma briga envolvendo o rapper e Orlando “Baby Lane” Anderson, sobrinho de Davis. A defesa, por outro lado, sustenta que o caso não apresenta provas suficientes para demonstrar a participação de seu cliente no assassinato.
O julgamento pode durar cerca de um mês e deve reunir entre 35 e 45 testemunhas.
Relembre o assassinato de Tupac Shakur
Tupac foi baleado na noite de 7 de setembro de 1996, em Las Vegas. Naquele momento, ele estava no banco do passageiro de um BMW dirigido por Marion “Suge” Knight, então uma das principais figuras da Death Row Records.
Pouco antes, os dois haviam assistido à luta entre Mike Tyson e Bruce Seldon no MGM Grand. Após o evento, enquanto circulavam pela região da Las Vegas Strip, o BMW foi abordado por um Cadillac branco. Os ocupantes do veículo efetuaram diversos disparos contra o carro.
Tupac foi atingido várias vezes. Ele permaneceu internado durante seis dias e morreu em 13 de setembro de 1996, aos 25 anos. O crime permaneceu sem uma acusação formal durante quase três décadas.
A principal linha investigativa aponta para uma possível retaliação após uma briga ocorrida no MGM Grand naquela mesma noite. Tupac e integrantes de seu grupo teriam entrado em confronto com Orlando Anderson, ligado aos South Side Compton Crips e sobrinho de Davis.
Anderson foi apontado durante anos como um dos possíveis envolvidos no ataque, mas morreu em 1998, em um tiroteio em Compton. Ele nunca foi formalmente acusado pela morte de Tupac.
Quem é o acusado pela morte de Tupac?
Aos 63 anos, Duane “Keffe D” Davis é a primeira e única pessoa a responder criminalmente pelo assassinato de Tupac Shakur. Ele foi preso em setembro de 2023, depois que declarações dadas ao longo dos anos passaram a ser utilizadas pelas autoridades como parte da investigação.
A acusação sustenta que Davis não foi o responsável por puxar o gatilho, mas teria planejado o ataque e fornecido a arma utilizada no crime. Durante a abertura do julgamento, o promotor Binu Palal afirmou que Davis teria coordenado a ação como retaliação pela agressão sofrida por seu sobrinho.
A legislação de Nevada permite responsabilizar criminalmente uma pessoa que tenha participado ou facilitado a prática de um homicídio, mesmo quando ela não tenha sido a responsável pelo disparo. Por isso, a identificação do atirador não é necessariamente suficiente para definir o resultado do processo contra Davis.
Por que o caso demorou quase 30 anos para chegar à Justiça?
Durante anos, o assassinato permaneceu sem um acusado formal. A investigação enfrentou dificuldades relacionadas à falta de cooperação de testemunhas e ao contexto de violência entre gangues que envolvia parte dos personagens do caso.
A situação começou a mudar depois que Davis passou a falar publicamente sobre o assassinato. Em entrevistas concedidas ao longo dos anos, ele descreveu sua participação naquela noite e afirmou que estava no banco dianteiro do Cadillac branco de onde partiram os disparos.
Em uma entrevista que posteriormente passou a integrar a investigação, Davis afirmou que recebeu e repassou uma pistola para o banco traseiro do veículo, de onde, segundo ele, partiram os tiros. Ele não identificou o responsável pelos disparos.
Em 2019, Davis também publicou o livro de memórias Compton Street Legend, no qual voltou a descrever sua versão dos acontecimentos. A obra foi posteriormente autorizada pela Justiça para ser utilizada como evidência no julgamento.
As declarações públicas de Davis ajudaram a reabrir o caso e se tornaram uma das principais bases da acusação. Em 2023, um grande júri de Nevada apresentou a denúncia contra ele.
O que a promotoria pretende provar?
A acusação tenta demonstrar que Davis participou diretamente do planejamento do ataque e que sua atuação foi fundamental para que o assassinato acontecesse.
Segundo os promotores, a sequência de acontecimentos começou com a briga entre Tupac, integrantes de seu grupo e Orlando Anderson no MGM Grand. A partir desse episódio, Davis teria organizado uma ação de retaliação.
Um dos pontos centrais do processo será justamente a utilização das próprias declarações de Davis. A promotoria pretende apresentar entrevistas gravadas e trechos de suas memórias para sustentar que ele admitiu elementos importantes de sua participação no crime.
A acusação, no entanto, não afirma que Davis tenha sido o atirador. O processo busca estabelecer sua responsabilidade pelo planejamento e pela facilitação do ataque.
O que diz a defesa?
A defesa de Davis contesta a interpretação dada pela promotoria às declarações do acusado e questiona a qualidade das provas reunidas décadas depois do assassinato.
O advogado Michael Sanft argumenta que a investigação apresenta inconsistências e que parte da narrativa utilizada pela acusação não possui comprovação suficiente. A defesa também tentou impedir que entrevistas antigas e o livro de Davis fossem utilizados no processo, mas a Justiça autorizou a utilização de parte desse material como evidência.
Assim, um dos principais pontos de disputa no julgamento será determinar se as declarações públicas de Davis representam relatos confiáveis sobre sua participação no crime ou se, como afirma a defesa, contêm informações inventadas ou inconsistentes.
Como será o julgamento?
A seleção do júri ocorreu na semana passada, antes do início das alegações iniciais. O painel conta com 16 jurados, incluindo suplentes, e o julgamento é conduzido pela juíza Carli Kierny.
Os jurados estão parcialmente isolados durante o processo. A medida foi adotada para reduzir a influência da cobertura da imprensa e de informações externas sobre o caso, especialmente diante da enorme repercussão envolvendo Tupac e os demais personagens da investigação.
A promotoria estima apresentar entre 35 e 45 testemunhas, incluindo pessoas que estavam próximas de Tupac antes do ataque, investigadores e outros envolvidos no contexto do crime. Suge Knight, que estava no carro com o rapper no momento dos disparos, e que atualmente está preso por outro caso, também aparece entre as pessoas que podem ser chamadas para depor.
O julgamento deve se estender por até seis semanas. A expectativa é de que a análise das testemunhas, documentos, entrevistas e demais evidências ajude a estabelecer o que aconteceu naquela noite de setembro de 1996.
As perguntas que ainda permanecem sem resposta
Mesmo com o processo contra Davis, o julgamento não necessariamente irá solucionar todas as dúvidas relacionadas à morte de Tupac.
Uma das principais questões é quem efetivamente disparou contra o rapper. A acusação sustenta que Davis participou da organização do ataque, mas não afirma que ele tenha sido o responsável pelos tiros.
Também permanece a dúvida sobre quem mais participou do planejamento. Davis é o único acusado criminalmente, enquanto outros possíveis envolvidos morreram ao longo dos anos.
Outro ponto é qual foi exatamente o papel de Orlando Anderson. Ele foi apontado durante décadas como possível participante do ataque, mas morreu dois anos depois de Tupac sem jamais responder formalmente pelo assassinato.
A suposta relação entre o crime e a rivalidade entre a Costa Oeste e a Costa Leste do hip-hop também continua sendo um elemento de contexto, mas não deve ser confundida com uma conclusão judicial.
A disputa entre Death Row Records e Bad Boy Records fazia parte do ambiente de tensão da época, mas isso não comprova, por si só, que a morte de Tupac tenha sido ordenada como consequência direta dessa rivalidade.
Quase três décadas depois do assassinato, o processo pode finalmente produzir uma resposta judicial sobre a participação de Davis. No entanto, mesmo uma eventual condenação não necessariamente encerrará todas as dúvidas sobre quem disparou contra Tupac ou sobre a participação de outras pessoas no crime.

