A inteligência artificial passou a ocupar um espaço cada vez mais presente na indústria fonográfica, mas sua utilização está longe de seguir um único modelo. Enquanto alguns artistas recorrem à tecnologia para criar instrumentos, desenvolver ideias ou modificar vozes, outros a incorporam como parte de processos experimentais ou de restauração de gravações.
Os casos de nomes como Tyga, Timbaland, Grimes, Holly Herndon e Paul McCartney mostram diferentes possibilidades de aplicação da ferramenta e também ajudam a dimensionar um debate que envolve criação artística, direitos autorais e os limites da participação humana na produção musical. Confira nove artistas que já afirmaram o uso de inteligência artificial para criar músicas.
1. Tyga
Recentemente, o rapper Tyga confirmou que utilizou inteligência artificial na produção de seu novo álbum, $tarface, lançado em 31 de julho. O projeto aposta em uma estética inspirada no synthpop dos anos 1980 e já vinha despertando especulações justamente pela presença de elementos sonoros associados à tecnologia.
Questionado sobre o uso de ferramentas como a Suno, o cantor confirmou a utilização e explicou que a inteligência artificial foi incorporada ao processo como uma ferramenta de produção. Segundo o artista, a tecnologia ajudou na criação de elementos como sintetizadores com sonoridade "oitentista" e solos rápidos de guitarra.
Apesar do uso da ferramenta, o rapper afirmou que as letras e os vocais foram produzidos por humanos. Ele também comparou a chegada da IA à popularização do Auto-Tune, argumentando que novas tecnologias costumam enfrentar resistência inicialmente, mas acabam sendo incorporadas ao processo criativo dos artistas.
2. Fenix Flexin
O caso de Fenix Flexin ganhou contornos mais controversos. Em junho deste ano, o rapper do Shoreline Mafia lançou “RUBBERZ”, faixa que apresentou uma mudança significativa em relação aos trabalhos anteriores do artista. Com sonoridade synthpop e estética inspirada nos anos 1980, a música também chamou atenção pelos vocais, que levantaram suspeitas de terem sido produzidos com inteligência artificial.
Durante algumas semanas, Flexin negou ter utilizado a tecnologia. Posteriormente, porém, admitiu que a faixa havia sido produzida com auxílio da Treblo, ferramenta de geração musical anteriormente conhecida como Sonauto.
A repercussão aumentou depois que “RUBBERZ” chegou à Billboard Hot 100. A própria Treblo identificou posteriormente a música como provavelmente gerada com seu modelo. Ao explicar a escolha, Flexin adotou uma posição semelhante à de outros artistas que passaram a experimentar a tecnologia: para ele, a inteligência artificial representa uma nova ferramenta que os músicos precisam aprender a utilizar.
3. Luke Steele — Empire of the Sun

O vocalista do Empire of the Sun, Luke Steele, também declarou publicamente que utiliza inteligência artificial em seu processo musical. Em entrevista à iHeartRadio Canada, o artista foi questionado diretamente sobre a utilização da tecnologia em suas criações.
Steele afirmou que utiliza IA para criar música e defendeu a tecnologia como uma ferramenta capaz de potencializar artistas que saibam utilizá-la.
A declaração coloca o vocalista entre os músicos que não apenas reconhecem a presença da inteligência artificial no processo criativo, mas também enxergam possibilidades artísticas em sua utilização.
4. Timbaland

Entre os grandes nomes da música mainstream que passaram a falar abertamente sobre inteligência artificial, Timbaland é um dos casos mais expressivos. O produtor revelou que utiliza a Suno, plataforma capaz de gerar músicas a partir de comandos, e afirmou que chega a passar cerca de dez horas por dia utilizando a ferramenta.
Em outra entrevista, Timbaland comparou a chegada da inteligência artificial ao surgimento do Auto-Tune, defendendo a ideia de que novas tecnologias podem inicialmente causar estranhamento, mas acabam incorporadas ao processo de produção musical.
A relação do produtor com a ferramenta foi além da experimentação. Timbaland passou a se aproximar da própria indústria de inteligência artificial e assumiu o cargo de Consultor Estratégico da Suno, consolidando uma atuação que envolve tanto a utilização criativa quanto o desenvolvimento do mercado de música gerada por IA.
5. David Guetta
David Guetta foi um dos grandes produtores da música eletrônica a demonstrar publicamente as possibilidades da inteligência artificial na criação musical. Em 2023, o DJ apresentou uma faixa que utilizava a tecnologia para simular uma participação de Eminem.
O processo envolveu a criação de um verso inspirado no estilo do rapper e, posteriormente, o uso de uma ferramenta de IA para produzir uma voz semelhante à de Eminem. Guetta chegou a apresentar o resultado durante um festival, mostrando ao público uma possibilidade que ainda era relativamente nova no mercado musical.
O produtor, no entanto, esclareceu posteriormente que não pretendia lançar a música comercialmente. O episódio ficou marcado principalmente como uma demonstração das possibilidades e dos questionamentos que a tecnologia começava a trazer para a indústria.
6. Holly Herndon
Muito antes da popularização de plataformas como Suno e Udio, a artista Holly Herndon já explorava a inteligência artificial como parte de seu processo criativo.
O álbum PROTO, lançado em 2019, foi desenvolvido em colaboração com Spawn, uma inteligência artificial criada por Herndon, Mat Dryhurst e o programador Jules LaPlace.
O sistema foi treinado com vozes humanas e passou a participar da criação de materiais vocais e musicais. A proposta do projeto era justamente explorar a relação entre humanos e máquinas dentro do processo artístico.
Dessa forma, Herndon não utilizou a IA apenas para gerar uma música pronta. A tecnologia foi incorporada à própria linguagem artística de PROTO, funcionando como parte do processo de composição e experimentação do álbum.
7. Everything Everything
A banda britânica Everything Everything também incorporou inteligência artificial de maneira explícita ao processo de criação de Raw Data Feel, lançado em 2022.
Para desenvolver o projeto, o vocalista Jonathan Higgs e seus colaboradores criaram um bot chamado Kevin, alimentado com materiais diversos, incluindo Beowulf, termos e condições do LinkedIn, publicações do 4chan e frases atribuídas a Confúcio.
A partir desse material, o sistema gerou conteúdos que posteriormente foram selecionados, trabalhados e editados pelos integrantes da banda. A inteligência artificial, portanto, não foi responsável pela criação integral do disco, mas participou de etapas específicas do processo.
Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, aproximadamente 5% das letras do álbum tiveram contribuição da IA, além de um dos títulos das músicas.
8. Grimes

Em 2023, Grimes lançou o projeto Elf.Tech, que permitia que outras pessoas produzissem músicas utilizando uma versão gerada por inteligência artificial de sua própria voz.
A artista autorizou deliberadamente esse tipo de uso e propôs dividir os royalties das músicas comerciais que utilizassem sua voz. A iniciativa também refletia uma visão mais aberta de Grimes sobre as possibilidades da tecnologia dentro da indústria musical.
Em entrevista, a cantora explicou que a ideia vinha sendo desenvolvida desde aproximadamente 2019 e comparou a inteligência artificial a um sintetizador. Nesse modelo, o artista continuaria responsável pela composição e pela produção, enquanto a tecnologia poderia modificar elementos como o timbre vocal.
Em 2026, Grimes continua defendendo uma posição relativamente favorável à inteligência artificial, embora faça uma distinção entre a utilização da IA como ferramenta criativa e a produção totalmente automatizada de músicas.
9. Paul McCartney
O caso de Paul McCartney exige uma distinção importante. Em 2023, o ex-Beatle revelou que utilizou inteligência artificial para recuperar e isolar a voz de John Lennon de uma gravação antiga que seria utilizada em “Now and Then”, lançada posteriormente pelos Beatles.
A tecnologia foi empregada para separar a voz de Lennon do piano e de outros ruídos presentes na gravação original, permitindo que o material pudesse ser trabalhado de maneira mais adequada na produção da faixa.
McCartney esclareceu posteriormente que não houve geração artificial de uma nova voz ou de instrumentos. Nesse caso, a inteligência artificial foi utilizada como uma ferramenta de restauração e separação de áudio, e não para criar uma performance inédita de Lennon.
Com estes exemplos, pode-se ver que a presença da IA na música não se resume à produção de faixas inteiramente geradas por ferramentas, mas que a tecnologia pode assumir funções distintas. Ao mesmo tempo, o avanço dessas ferramentas mantém em discussão questões como transparência sobre seu uso, autoria, remuneração e consentimento de artistas e intérpretes.

