
No dia 4 de junho de 1996, o Metallica lançava Load, um álbum que mudaria para sempre a trajetória da banda. E dividiria profundamente sua base de fãs.
O sexto disco de estúdio do grupo, produzido por Bob Rock, completa 30 anos em 2026 carregando o peso de ter sido um dos trabalhos mais controversos da história do rock. Muito além das músicas, Load representou uma transformação estética, sonora e comportamental.
O disco estreou em primeiro lugar na Billboard 200, vendeu cerca de 15 milhões de cópias no mundo e conquistou disco de ouro no Brasil. Prova de que a ousadia da banda também encontrou respaldo comercial.
A mudança na trajetória do Metallica
Antes de Load, o Metallica já havia consolidado seu nome como um dos pilares do thrash metal.
Os primeiros discos, Kill 'Em All (1983), Ride the Lightning (1984) e Master of Puppets (1986), ajudaram a definir o gênero e estabeleceram a banda como símbolo de agressividade, técnica e contracultura.
Mas os anos 1990 trouxeram um novo cenário.
Após o impacto gigantesco do Black Album (1991), que levou o grupo ao mainstream com sucessos como “Enter Sandman” e “Nothing Else Matters”, surgiu um desafio: como manter a identidade rebelde sem repetir fórmulas?
O período também carregava marcas emocionais importantes. A morte do baixista Cliff Burton, em 1986, seguia sendo um ponto de ruptura na história do grupo.
Load chegou dez anos após Master of Puppets e cinco depois do Black Album, em um momento em que o Metallica já era uma potência da indústria musical e acumulava turnês extensas ao redor do mundo.
A resposta encontrada pela banda foi radical. Produzido por Bob Rock, o disco abandonou parte da velocidade e agressividade do thrash metal em direção a um som mais próximo do hard rock, do blues rock e do rock alternativo.
O resultado aparece em faixas como “Until It Sleeps”, “Hero of the Day”, “Mama Said” e “King Nothing”.
Com 78 minutos e 59 segundos, Load permanece como o álbum mais longo da discografia do Metallica.
As sessões de gravação renderam aproximadamente 30 músicas e chegaram a alimentar a ideia de um disco duplo. O material acabou sendo dividido, originando Load (1996) e seu álbum-irmão, Reload (1997).
A fase que irritou os metaleiros
A ruptura sonora não foi a única transformação. A era Load/Reload ficou marcada por uma série de transgressões que incomodaram parte do público mais tradicional do metal.
A imagem da banda mudou radicalmente. Os integrantes abandonaram o visual clássico dos longos cabelos e adotaram uma estética mais alinhada ao rock alternativo dos anos 1990.
Para muitos fãs, aquilo parecia uma ruptura com a identidade construída nos anos anteriores. Mas o desconforto fazia parte do processo.
O Metallica parecia interessado em provocar expectativas e testar os limites da relação com sua própria audiência.
A capa mais polêmica da carreira
Se a mudança musical já causava debates, a capa do álbum levou a discussão para outro nível.
A arte de Load chama-se Blood and Semen III e foi criada pelo artista Andrés Serrano.

A imagem foi produzida com uma mistura real de sangue bovino e sêmen do próprio artista, posicionados entre placas de acrílico e fotografados sob iluminação intensa. O resultado foi a composição abstrata em vermelho, laranja e amarelo que se tornou uma das capas mais comentadas (e controversas) da história do rock.
A obra fazia parte de uma exposição de Serrano e chamou a atenção do guitarrista Kirk Hammett e do baterista Lars Ulrich, que ficaram impressionados com o trabalho.
Mas dentro da própria banda houve resistência. James Hetfield nunca escondeu seu desconforto com a escolha visual do disco.
Lars Ulrich, por outro lado, explicou em entrevistas que a intenção era justamente "romper expectativas e trabalhar com elementos da arte contemporânea".
Segundo o baterista, a ideia não era apenas chocar gratuitamente, mas provocar reflexão e desafiar a reação do público diante de uma nova proposta artística. (E conseguiu.)
Até hoje, a capa de Load segue dividindo opiniões entre quem a considera uma provocação artística ousada e quem a enxerga apenas como um gesto deliberadamente incômodo.
O legado de Load 30 anos depois
Três décadas depois, Load continua ocupando um lugar singular dentro da discografia do Metallica.
Inicialmente recebido com estranhamento por parte da comunidade metal, o álbum passou por um processo de reavaliação ao longo dos anos e ganhou novos olhares de fãs e críticos.
Em 2025, a banda revisitou esse capítulo com o lançamento de uma reedição especial de Load.
O material chegou em diferentes formatos, incluindo LP duplo de 180 gramas, CD, cassete, versão digital e a Load Remastered Limited Edition Deluxe Box, reforçando o interesse contínuo por esse período da carreira do grupo.

