Após 16 anos longe dos palcos brasileiros, o AC/DC reencontrou seu público na noite de terça-feira (24) com um espetáculo grandioso no MorumBIS, em São Paulo. Cerca de 70 mil pessoas lotaram o estádio para o primeiro de três shows da turnê Power Up no país, em uma apresentação que combinou clássicos de cinco décadas, espetáculo visual tradicional e a resistência física e artística de dois ícones do rock mundial.
A banda australiana, formada em 1973, atravessa uma fase de reformulação desde a última passagem pelo Brasil, em 2009. Mortes, aposentadorias e problemas de saúde colocaram em dúvida sua continuidade ao longo da última década. Ainda assim, sob a liderança do guitarrista Angus Young, 70, e do vocalista Brian Johnson, 78, o grupo mostrou que permanece relevante, e capaz de sustentar um espetáculo de mais de duas horas com energia e precisão.
Perdas, pausas e reconstrução
Desde a turnê Black Ice, que trouxe o AC/DC ao Brasil em 2009, o grupo enfrentou uma série de turbulências. Em 2014, Malcolm Young deixou a banda por problemas de saúde e faleceu em 2017, vítima de complicações decorrentes de demência. No mesmo período, o baterista Phil Rudd se afastou por questões judiciais. Em 2016, Brian Johnson precisou interromper a turnê Rock or Bust após agravamento de um quadro de perda auditiva, sendo substituído temporariamente por Axl Rose.
O cenário indicava um possível encerramento das atividades. No entanto, em 2020, o lançamento de Power Up marcou o retorno de Johnson aos estúdios e uma homenagem explícita a Malcolm. A turnê, iniciada internacionalmente em 2024, consolidou uma nova formação ao vivo: além de Angus e Johnson, o quinteto conta com Stevie Young (guitarra base), sobrinho de Malcolm, Chris Chaney (baixo) e Matt Laug (bateria).
A apresentação em São Paulo marcou a primeira performance da banda no Brasil desde a morte de Malcolm.
Estrutura enxuta e foco na música
O show começou pontualmente às 21h, após abertura da banda americana The Pretty Reckless. Sem discursos longos ou introduções elaboradas, o AC/DC iniciou a apresentação com “If You Want Blood (You’ve Got It)”, seguida imediatamente por “Back in Black”, um dos álbuns mais vendidos da história da música.
A sequência inicial já estabeleceu o tom da noite: execução direta, sem pausas extensas entre as músicas e com pouca interação verbal. “Viemos tocar rock and roll pra vocês”, resumiu Johnson logo no início, em uma das raras falas da noite.
Apesar de a turnê levar o nome do disco mais recente, apenas duas faixas de Power Up integraram o repertório: “Demon Fire” e “Shot in the Dark”. O foco esteve concentrado no catálogo clássico, especialmente nas décadas de 1970 e 1980.
Angus Young

Vestindo seu tradicional uniforme escolar, desta vez em verde, com detalhes remetendo às cores do Brasil, Angus Young manteve a identidade visual que o acompanha desde os anos 1970. O guitarrista executou seus conhecidos movimentos de palco, incluindo os pulos característicos, corrida pela extensão frontal do palco e interação com plataformas elevadas.
O ponto alto instrumental ocorreu em “Let There Be Rock”. A música ganhou versão estendida, com solo superior a dez minutos. Angus percorreu passarelas elevadas, subiu em plataforma móvel e executou trechos deitado no chão do palco, sob chuva de papel picado. O momento foi acompanhado por silêncio atento do público, seguido de forte aplauso coletivo.
Brian Johnson

Aos 78 anos, Brian Johnson apresentou desempenho consistente, ainda que com limitações naturais em comparação a fases anteriores da carreira. Em determinados momentos, deixou de atingir notas mais agudas, especialmente em trechos originalmente gravados em tonalidades altas. Ainda assim, manteve postura enérgica e demonstrou entusiasmo constante.
O público desempenhou papel fundamental, assumindo parte dos refrões em músicas como “Thunderstruck”, “You Shook Me All Night Long” e “T.N.T.”. Johnson sorriu frequentemente e agradeceu de forma breve à plateia, mantendo a característica objetividade do grupo.
Repertório e momentos de destaque
Entre os principais momentos da noite estiveram:
- “Thunderstruck”, acompanhada por coro coletivo de “olé olé olé, AC/DC”;
- “Hells Bells”, com o tradicional sino cenográfico descendo sobre o palco;
- “Highway to Hell”, quando Angus surgiu com chifres iluminados e efeitos de fogo;
- “Whole Lotta Rosie”, apresentada com versão digital da personagem nos telões, substituindo a tradicional boneca inflável;
- “Jailbreak” e “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, que reacenderam a energia do público na metade final do show.
O encerramento manteve a tradição estabelecida desde os anos 1980: “For Those About to Rock (We Salute You)” foi acompanhada pelo disparo de canhões cenográficos posicionados sobre a estrutura de amplificadores.
Formação atual
Stevie Young assumiu com fidelidade a base rítmica originalmente criada por Malcolm Young, ainda que sem o mesmo peso histórico. Chris Chaney reproduziu a linha sólida característica do baixo da banda, enquanto Matt Laug apresentou performance vigorosa, com batidas firmes que sustentaram músicas mais extensas como “Jailbreak”.
A sonoridade geral manteve-se fiel às gravações clássicas: afinação original, ausência de trilhas pré-gravadas perceptíveis e pouca interferência tecnológica na execução ao vivo.
Despedida
Embora não haja anúncio oficial de encerramento de atividades, a idade avançada dos integrantes e o histórico recente de desafios pessoais alimentam a percepção de que esta pode ser uma das últimas passagens da banda pelo Brasil.
Mais do que nostalgia, o AC/DC entregou um espetáculo baseado em sua essência: riffs diretos, refrões cantáveis, estrutura simples e impacto sonoro imediato.

