Quando Matuê subiu ao palco do Planeta Atlântida 2026, não foi apenas mais um show dentro do line-up. Um daqueles momentos em que o festival muda de temperatura, o público se comprime e a música deixa de ser trilha para virar experiência de toda a plateia.
Em noite com outros nomes do trap nacional no line-up, como Wiu e Brandão, o cearense chegou à Saba carregando o peso de quem já não precisa provar nada. Com quase uma década de carreira, números impressionantes nas plataformas digitais e uma base de fãs fiel e barulhenta, Matuê apresentou um show que confirmou seu lugar como principal nome do trap brasileiro e um dos artistas mais influentes da música nacional atual.
Desde os primeiros segundos, ficou claro que não se tratava de uma apresentação convencional. Matuê apostou na força do próprio universo artístico e trouxe seu cenário carregado. Era ele, o DJ, o microfone com autotune e uma cenografia que ajudava a criar uma atmosfera densa, noturna e quase ritualística. Luzes baixas, graves pesados e um público completamente entregue.

A Saba virou um bloco compacto de jovens cantando versos na ponta da língua. Matuê mal precisou puxar o coro. O engajamento foi imediato, orgânico, intenso. Hits como “Kenny G”, “Quer Voar”, “Máquina do Tempo” e "Vampiro" funcionaram como explosões de energia, enquanto faixas mais densas transformaram o espaço em um ambiente de tensão controlada.

O repertório teve como eixo central os trabalhos mais recentes, especialmente o álbum 333, responsável por consolidar o trap em outro patamar de produção no Brasil. Mas foi com XTRANHO que o show ganhou contornos mais ousados, apesar de um repertório que pouco explora o álbum. As músicas do disco trouxeram ruído, peso e estranheza ao palco do Planeta, quebrando qualquer expectativa de um espetáculo confortável.

Faixas como “REI TUÊ” e “OS MELHORES” ajudaram a construir uma narrativa que alternou agressividade e afirmação. O discurso estava nas batidas, na estética e na postura.
O público já estava em ebulição quando Matuê abriu espaço para encontros que ampliaram ainda mais a força do show. Ele trouxe ao palco Wiu e Brandão, nomes que também integravam o line-up do festival, além de convidar a rapper Cashley para uma participação especial. O momento reforçou a potência coletiva da cena do trap nacional, misturando flows distintos, beats pesados e uma conexão direta com a multidão que tomava a Saba. Sem excessos ou dispersões, as participações funcionaram como extensão natural da narrativa construída por Matuê ao longo da apresentação.

No contexto do Planeta Atlântida, o show de Matuê representou mais do que uma atração bem-sucedida. Um sinal claro de que o festival também pertence à música urbana, ao trap e a uma geração que se reconhece em outros códigos estéticos, sonoros e comportamentais.

