Toda sexta-feira, à meia-noite, o mesmo fenômeno se repete: plataformas de streaming atualizam seus catálogos e despejam uma avalanche de músicas novas. Singles, álbuns, feats e projetos surpresa chegam todos ao mesmo tempo. O hábito parece natural hoje, mas é resultado de uma mudança estratégica que redesenhou a lógica da indústria musical nos últimos anos.
Antes do domínio do streaming, os lançamentos obedeciam a um calendário fragmentado. No Reino Unido e na França, os discos chegavam às lojas às segundas-feiras. Nos Estados Unidos, às terças. No Japão, às quartas. A sexta-feira trazia os lançamentos da Austrália e Alemanha. A escolha dos dias estava ligada à logística do formato físico e à contagem das vendas semanais, que determinavam o desempenho nos charts. Quanto mais cedo na semana, mais tempo para vender.
Esse sistema começou a perder sentido quando a música deixou de depender das prateleiras. Em 2013, Beyoncé entendeu isso antes de todo mundo. Sem aviso prévio, sem divulgação tradicional e sem singles antecipados, a artista lançou o álbum Beyoncé numa sexta-feira, 13 de dezembro. O impacto foi imediato: recordes de vendas digitais, domínio absoluto das redes sociais e um novo padrão de consumo estabelecido.
A estratégia funcionou porque explorou um ponto-chave do comportamento do público. Sextas e sábados são os dias em que as pessoas têm mais tempo livre, mais disposição para ouvir música e mais propensão a compartilhar novidades. No ambiente digital, isso se traduz em engajamento e alimenta algoritmos. Quanto maior o barulho nas primeiras horas, maior a visibilidade.
Dois anos depois, em 2015, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) oficializou a sexta-feira como o dia global de lançamentos musicais. A decisão buscava unificar mercados, reduzir a pirataria e eliminar a frustração de lançamentos que chegavam primeiro em alguns países e demoravam em outros.
Desde então, a sexta-feira virou território disputado. Artistas passaram a competir diretamente pela atenção do público no mesmo dia, apostando no impacto imediato e no tempo livre dos ouvintes. Se ainda é a melhor estratégia, especialistas divergem. Mas o calendário segue firme.
Enquanto ninguém muda as regras, a lógica permanece clara: virou sexta, tem música nova.

