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Quem são CA7RIEL & Paco Amoroso, os pibes que reinventaram o trap argentino

Dupla mistura caos, estética, humor e genialidade e mostra que a nova música latina tem sotaque de Buenos Aires

06/11/2025 - 19h26min

Eles entraram no Tiny Desk com um colete cheio de corações de pelúcia, um chapéu azul felpudo e uma banda que parecia saída de um sonho psicodélico. Em poucos minutos, CA7RIEL & Paco Amoroso transformaram o estúdio da NPR num laboratório de som e ironia. De lá pra cá, os “pibes” de Buenos Aires viraram o novo nome quente da música latina, com milhões de visualizações, shows esgotados e uma legião de fãs que ainda tenta decifrar se eles são trap, rock, pop ou apenas eles mesmos.

Mas a verdade é que CA7RIEL & Paco Amoroso não nasceram de algoritmo. Eles são o resultado de uma amizade de duas décadas, da curiosidade sem limite e da energia rebelde de quem nunca quis caber em rótulo nenhum.

Reprodução
Ca7riel e Paco Amoroso crianças em Buenos Aires

Os pibes do bairro

Catriel Guerreiro e Ulises Guerriero (os sobrenomes são assim, bem parecidos mesmo) se conheceram aos seis anos, sentados lado a lado numa escola de Buenos Aires. O destino já começou pregando peças: além de dividirem a carteira, quase dividiam o sobrenome. O que eles também compartilhavam era o mesmo sonho, o de serem rockstars.

Na adolescência, formaram sua primeira banda, Astor, um grupo de rock progressivo com toques de funk e reggae. Ali já dava pra ver o talento dos dois: Paco na bateria, Ca7riel na guitarra, e um som que parecia mais ambicioso do que qualquer coisa que dois garotos de bairro poderiam imaginar.

“Eu queria ser os Rolling Stones, não só o Keith Richards”, disse Paco numa entrevista. “E eu queria ser o Queen inteiro”, respondeu Ca7riel. E foi mais ou menos isso que aconteceu, uma carreira feita de exageros, teatralidade e experimentação sem limites.

Do rock ao trap 

Quando o trap começou a tomar conta da América Latina no fim dos anos 2010, a dupla decidiu mergulhar de cabeça. O resultado veio em 2018, com singles como “Ouke” e “A Mí No”, que logo os colocaram como destaque da cena urbana argentina.

Mas, ao contrário de muitos artistas do gênero, Ca7riel e Paco não queriam ser “mais do mesmo”. A bagagem de anos no rock os fez pensar em estrutura, em arranjo, em performance. Enquanto a geração do Quinto Escalón (que revelou nomes como Duki, YSY A e Wos) rimava sobre batidas cruas, eles traziam guitarras, sintetizadores e uma pegada de show ao vivo.

“Ter tocado rock por tanto tempo nos deu um plus. A gente já sabia o que era tocar em banda, lidar com palco, com improviso. Isso muda tudo”, contou Paco.

“Baño María”

O primeiro álbum, Baño María (2024), é uma viagem caótica pela cabeça dos dois. Com 12 faixas que transitam entre o trap, o reggaeton, o soul e o jazz, o disco parece uma noite inteira condensada em som, da euforia da pista até o momento em que a festa acaba e você dança sozinho na cozinha.

O título faz sentido: “Baño María” é o processo de aquecer algo lentamente, e também uma metáfora para o que eles fazem com a música, misturam estilos e gêneros e criam algo novo.

No Lollapalooza Argentina de 2024, em vez de um show tradicional, eles fizeram uma “audição coletiva” do álbum enquanto mergulhavam em uma jacuzzi no palco. “A única coisa que nos interessava era fazer uma festinha na banheira”, disseram, rindo.

O Tiny Desk que mudou tudo

Foi em outubro de 2024 que o mundo finalmente descobriu os argentinos. No Tiny Desk Concerts, programa da rádio NPR, Ca7riel & Paco mostraram um lado mais cru, “música sem maquiagem”, como definiu Ca7riel.

As faixas foram adaptadas para um formato acústico, mas nada soou domesticado. O groove da banda, os figurinos surreais e a química entre os dois criaram uma performance que viralizou: mais de 45 milhões de visualizações e o posto de um dos episódios mais vistos da história recente do programa.

E ainda sobrou tempo pra uma cutucada política: os músicos da banda usaram camisetas com fotos dos vistos de trabalho que precisaram solicitar para entrar nos EUA, um gesto lido como crítica à política anti-imigração de Donald Trump.

Estilo, sarcasmo e atitude

Na era das redes, CA7RIEL & Paco Amoroso são quase fantasmas. Publicam pouco, falam menos ainda mas quando aparecem, é pra marcar. No Tiny Desk, a estilista La Negra foi responsável pelos looks que refletiam exatamente o espírito da dupla: “uma atitude sem esforço, como se nos importássemos muito em estar ali”, brincou Paco.

O visual é parte do show, mas também parte da mensagem, fazem parte do conjunto de toda a estética a cada nova era dos músicos. Entre o chapéu felpudo azul, o colete de pelúcia e os cabelos tingidos, existe uma estética pensada como extensão da música: exagerada, debochada e livre.

Quando perguntado sobre o estilo, Ca7riel respondeu: “Sou um degenerado. Não sigo gêneros de nenhum tipo. A música é estética para o ouvido, e posso me esconder atrás de qualquer coisa.”

“Papota”

Depois do sucesso global, o desafio era manter o caos, e foi o que fizeram com Papota (2025). O álbum mistura instrumentação orgânica e batidas eletrônicas, com letras que ironizam a fama, a indústria e os privilégios.

Em La Que Puede, Puede”, por exemplo, eles falam sobre desigualdade e o governo de Javier Milei com o sarcasmo de quem prefere rir pra não chorar. Já em #Tetas”, o duo brinca com os padrões de beleza e o narcisismo digital, “Te apresento o Daniel, meu cirurgião”.

O disco garantiu à dupla seis indicações ao Grammy Latino, incluindo Álbum e Canção do Ano. Para a divulgação, a dupla ainda gravou uma esquete animada de 16 minutos que une em sonoridade e história visual diversas músicas do álbum.

De Buenos Aires ao mundo

O sucesso no Tiny Desk abriu as portas para uma turnê internacional que passou por Europa, Ásia e América Latina. No Brasil, os shows em São Paulo e no Rio esgotaram em horas, e a dupla ainda abriu o show de Kendrick Lamar no Allianz Parque.

No palco, o que se vê é pura combustão. Ca7riel com sua guitarra, Paco comandando a energia, e um público que canta cada verso como se fosse mantra.

Reprodução
Ca7riel e Paco Amoroso em tour

CA7RIEL & Paco Amoroso não fazem questão de serem compreendidos e talvez seja por isso que funcionem tão bem. Entre o deboche e a genialidade, entre o trap e o jazz, eles são a tradução de um tempo em que tudo pode coexistir.



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