A epifania de um ensaio com Cristal
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A epifania de um ensaio com Cristal

A Rede Atlântida acompanhou o processo de preparação para os dois anos do álbum da artista em Porto Alegre 

28/08/2026 - 19h33min

Não tem quem não conheça a música “September”. Talvez pelo nome fique difícil de lembrar, mas “Do you remember?” já traz de volta um ritmo muito conhecido dos anos 1980. Se ainda precisar de ajuda, vale escutar antes de continuar o texto: 

Essa música, da banda Earth, Wind & Fire, lançada em 1978 em Los Angeles, encaixa perfeitamente com a introdução de “Estrela”, faixa de 2024 da Cristal, quase 50 anos depois. 

Ela só descobriu essa conexão quando os músicos da banda, que vão participar do show de Epifania em Porto Alegre neste domingo, sugeriram incluir “September” nessa parte. Esse momento de troca, descontração e ajustes é exatamente o que acontece dentro de um ensaio. Em entrevista à Rede Atlântida, Cristal diz que o ensaio é um momento crucial para juntar esse “quebra-cabeças”: 

Tem a Epifania disco, tem a Epifania sobre o olhar da direção musical do Duda Raupp, e tem a Epifania quando junta Cristal e o Duda Raupp, todos esses elementos, os músicos que ele uniu pra esse show, né? Então, no ensaio é quando a gente consegue juntar os nossos Divertidamente, as nossas ideias, aspirações, identidades e fazer ele acontecer. Quando começam a surgir os desafios também, mas é a hora mais divertida também, sabe?

CRISTAL

CANTORA

Dois anos de 'Epifania'

Epifania é um álbum visual lançado há dois anos que traz o soul como fio condutor para contar uma história sobre ancestralidade, construção e reconhecimento de repertório, além da busca por um novo caminho para Cristal. Toni Tornado, Cassiano, Sandra de Sá e Tim Maia foram âncoras para a construção desse trabalho, bem como os bailes black dos anos 1970 e 1980. 

Em 2026, se preparando para comemorar os dois anos de “Vitórias” (uma das músicas com as quais Cristal mais se identifica), a cantora se sente mais preparada para entender sobre si mesma e sobre outras referências que auxiliam nesse processo de autoconhecimento, mesmo sem querer: 

Divulgação/Espaço 373

 “Quem é a Cristal no PF e quem é a Cristal no PJ? O que é esse medo que tu sente de juntar as duas coisas?” 

Cara, eu acho que, quando a gente é artista, uma figura pública, existe um medo, às vezes, de tornar algumas coisas menos preciosas, talvez. A Cristal no PF é a Cristalzinha assim: filha, amiga, comadre, prima, amiga, enfim. E acho que tem coisas ali que são tão minhas que, às vezes, eu tenho um pouco de ciúmes de compartilhar isso, sabe? 

E, às vezes, é mesmo um cuidado com a minha imagem, com a minha visibilidade, com a minha intimidade, de preservar as coisas que são misteriosas aos olhos do público, que são preciosas pra mim. Acho que é uma questão de preservar, mas existe um equilíbrio. E eu acho que, vendo artistas que eu gosto muito, Maria Bethânia, por exemplo, ela fala muito sobre essa dualidade. 

Eu acho que a gente passa a vida toda aprendendo esse equilíbrio, assim, né? Entendendo que existe uma fragilidade que, às vezes, é exatamente a nossa força no palco, a nossa força na carreira. E eu tô tentando achar esse equilíbrio, assim, das duas.” 

Ela é super tímida, assim, e, ao mesmo tempo, firme. Então, tu vê que ela joga ali, enfim. Ela é uma diva soberana, e tenho que aprender com ela.

CRISTAL

CANTORA

Uma jornada de descoberta

Neste trabalho visual, Cristal construiu uma personagem — que diz muito sobre quem ela é —, a Soul, que vive uma jornada de descoberta sobre sua família, a cena musical, as possibilidades que ela pode oferecer e os tropeços que podem acontecer durante todo esse caminho. No começo do ensaio, a artista parecia estar concentrada, prestando atenção nas sugestões e contribuindo para as músicas saírem da melhor forma, mas não demorou muito para Soul aparecer e dar os seus próprios pitacos. 

Dividindo a vida entre São Paulo e Porto Alegre, essa é a primeira vez que Cristal apresenta o Epifania completo na capital gaúcha. Quando perguntada sobre a escolha dos músicos que vão participar desse momento, Cristal afirmou que o diretor musical do show é o Duda Raupp, que já trabalhou com ela em outros projetos, como Posse e O Plano É Não Voltar pra Casa (com parceria de Nill). 

 Como tu escolhe também os músicos que vão participar desse processo? São os mesmos músicos que participaram das gravações ou são músicos diferentes?

Então, como o Duda Raupp já tá na produção do Epifania, a gente tinha uma banda em São Paulo formada. E, quando a gente vem pra cá e tem uma direção nova do Duda, ele que faz essa seleção de músicos com quem ele já trabalhou. Então, a maioria dos músicos — o Duda, o Tomás — são de um grupo que ele já tinha, uma banda que ele já tocava também; são dois músicos na banda. E o Bruno Vargas eu já tinha trabalhado também num projeto lindo, homenageando o Lupicínio. Então, quando vem esse olhar, essa direção do Duda, é uma nova equipe. Eles vão estudando o disco com o tempo, assim, trazendo o que eles já têm, as referências que eles já têm — o samba rock, o soul, o jazz —, e a gente vai fazendo esse mix juntos.

São necessários meses de ensaio para tudo fluir como ela imagina, ainda mais tentando conciliar os horários dos músicos, do estúdio e uma agenda corrida com outros trabalhos. Por isso, cada segundo é precioso e organizado com antecedência. 

Setlist

Esse sempre é um dos pontos importantes na hora de montar um show. Considerando que é uma comemoração aos dois anos de Epifania, Cristal afirmou que nenhuma faixa vai ficar de fora, mas também não vai deixar de cantar as clássicas que o público gosta e espera: 

A gente já tenta ensaiar o bis. Escolhe umas dessas pra gente já estar preparado. Porque, enfim, como é um show com banda, tem que estar pronto pra tudo. Mas, sim, o foco é Epifania. E, depois da Epifania, a gente já faz alguns critérios, assim: se a gente alongar nessa música, e se a Cristal trouxer uma poesia, uma fala. Já tem tudo, tudo é muito ensaiado, tudo é muito previsto, mas dentro da liberdade também. Uma liberdade, assim… é uma permissão de liberdade. Então, todo mundo tem o momento de brilhar, de improvisar, de criar e ter vários caminhos. É mais a gente estudar as possibilidades e tá todo mundo sintonizado pra tudo que acontecer no dia.

CRISTAL

CANTORA

Outras duas músicas que ela já confirmou e adiantou que estarão presentes no show são “Posse” e “Ashley Banks”, vídeo que fez Cristal ser reconhecida pelo país e por nomes importantes da cena do rap nacional, como Djonga: 

Ashley Banks também vai ter um momento no show. E algumas que não podem faltar. Como é um show com o Duda Raupp, a gente vai trazer as nossas parcerias também, os nossos feats. E, para esses próximos projetos, eles tão muitos associados a essa era do Epifania também. Então, esses feats que estão vindo, é mais eu entrando no universo desses artistas que eu tô colaborando, experimentando, testando… mas eu ainda tô nessa vibe do Epifania. Tudo que ele tem pra me trazer, assim. Tem muitos caminhos na Soul Music, na Neo Soul, enfim. Eu acho que ele me abriu portas para fazer outras coisas. Então, eu tô nesse laboratório juntando peças, sonoridades. O Duda Raupp também tá envolvido nesses próximos projetos, então as coisas vão vir assim, bem na vertente do Epifania, mas acho que de um jeito mais usado, mais moderno, não sei… é difícil definir quando ainda está no processo. Mas vem aí, logo tá aí.

CRISTAL

CANTORA

Depois de dois anos de Epifania, o álbum segue sendo a trilha sonora favorita da Cristal. Mas tem algumas músicas que fazem ainda mais sentido depois dessa caminhada: 

Completar dois anos de um disco é muita coisa, assim. Sentir que ele ainda é vivo e fresco na cabeça, nos ouvidos das pessoas, assim, que a galera ainda quer ouvir, quer ouvir ao vivo, quer mais da Epifania. Eu também fico revisitando, tipo: ‘tá, mas por que que isso acontece?’. Então, eu também vou ouvindo de novo. Mas ‘Vitória’, pra mim, desde o início, desde que eu finalizei o disco — a última faixa —, ela ainda me pega muito forte. Uma sensação de que eu ainda estou concluindo o disco toda vez que eu ouço ela. ‘Vitória’, ‘Obrigada Black’ — acho que, porque eu tô aqui em Porto Alegre, o disco nasceu aqui no Sul e tem essa força ancestral que eu troco com Paulo Dionísio e Marietti Fialho, e o Epifania nasceu dessa força preta, assim, dessa música negra aqui do Sul. Então, ‘Obrigada Black’ e ‘Vitória’, ultimamente, têm me emocionado demais, assim.

CRISTAL

CANTORA

Tá, e ‘Imagem e Som’, não?

Imagem e Som, muito! Porque toda hora é um tapa na minha cara, porque fala sobre aceitação, sobre se amar, sobre juntar algumas partes. A gente, quando é artista, eu tento separar um pouco meu PF do meu PJ, e é importante: eu tenho meu momento de intimidade que eu preservo do público. 

Mas, em algum momento, as peças precisam estar juntas pra eu me sentir completa, pra eu me sentir inteira. Às vezes, eu tento negar algumas partes minhas com medo, e a minha artista tá sempre querendo se mostrar. Então, uma coisa meio que fica divergindo da outra, competindo, assim, em conflito. ‘Imagem e Som’ é meio que: ‘para de ser boba, mona, vamo se jogar. Vamo juntar tudo isso, a imagem e o som, o babado todo, e vamos mostrar o que a gente veio pra fazer’.

SERVIÇO 

  • Show: Cristal – EPIFANIA | Sessão Especial em Porto Alegre 
  • Data: 30 de agosto de 2026, às 19h30 Local: Espaço 373 (Rua Comendador Coruja, 373 – Bairro Floresta, Porto Alegre – RS) 
  • Ingressos: disponíveis em plataformas de venda online, como a Tri.RS

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