
O Carnaval do Rio de Janeiro vai muito além de fantasia e brilho. Ao longo das décadas, os desfiles das escolas de samba se tornaram palco de debates políticos, inovação artística e momentos que atravessaram gerações.
Pensando nisso, A ATL reuniu os desfiles mais icônicos das escolas de samba cariocas considerando critérios como impacto histórico, marcos sociais e políticos, revoluções visuais e técnicas, além da força simbólica e cultural.
De Cristo coberto por plástico preto a serpentes gigantes rasgando a avenida: confira os desfiles da Sapucaí que entraram para sempre na memória do Brasil.
Mocidade Independente (1985): Ziriguidum 2001
Em 1985, o carnavalesco Fernando Pinto apresentou um desfile que parecia saído de outra dimensão. “Ziriguidum 2001” propunha uma viagem ao futuro a partir do olhar irreverente do samba, misturando ficção científica, cultura popular e uma crítica sutil ao avanço tecnológico desenfreado.
A estética era ousada para a época, com muito brilho prateado, referências espaciais, figurinos metálicos e alegorias que evocavam naves e cenários futuristas. Em plena década de 80, quando o Carnaval ainda valorizava narrativas mais tradicionais e históricas, a Mocidade apostou em um imaginário visionário.
Fernando Pinto transformou a avenida em um laboratório criativo, provando que o Carnaval também podia dialogar com o amanhã.


Beija-Flor (1989): Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia
Criado por Joãosinho Trinta, o enredo levou à avenida uma denúncia explícita da desigualdade social no Brasil. Enquanto outras escolas apostavam no luxo tradicional, a Beija-Flor fez o oposto: trouxe lixo cenográfico, mendigos estilizados e uma estética propositalmente desconfortável.
O ponto máximo foi a alegoria inspirada no Cristo Redentor representado como mendigo. Proibida pela Justiça de desfilar daquela forma, a imagem entrou na avenida coberta por um plástico preto com a frase: “Mesmo proibido, olhai por nós”.
A censura transformou o desfile em um manifesto ainda mais forte. Até hoje, é considerado o maior exemplo de crítica social já visto na Sapucaí.


Unidos da Tijuca (2010): É Segredo!
Em 2010, a Unidos da Tijuca mudou o jeito de se pensar Carnaval na Sapucaí. Com o enredo “É Segredo!”, o carnavalesco Paulo Barros apostou no mistério e transformou a avenida em um grande espetáculo de ilusionismo.
O desfile brincava com aquilo que está escondido, revelando aos poucos truques visuais, referências históricas e curiosidades que surpreendiam o público. Mas o grande feito foi a comissão de frente quando bailarinos trocavam de roupa instantaneamente, diante dos olhos da plateia, em uma coreografia que misturava dança, teatro e mágica. O efeito viralizou antes mesmo de “viralizar” ser um termo comum.
Com o desfile, a escola conquistou o seu segundo título de campeã do carnaval carioca, 74 anos depois da primeira conquista, no carnaval de 1936.


Paraíso do Tuiuti (2018): Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?
Vice-campeão, mas eterno na memória coletiva. Em 2018, a Paraíso do Tuiuti fez a Sapucaí parar e pensar. Com o enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”, a escola levou para a avenida uma pergunta incômoda: a escravidão realmente acabou no Brasil?.
O desfile partia da abolição formal em 1888 para mostrar como estruturas de exploração ainda permanecem, agora sob novas formas. Trabalhadores precarizados surgiram representados como “manifestoches”, fantoches manipulados, numa crítica direta às reformas trabalhistas e às relações modernas de trabalho.
O momento mais comentado veio com o “Vampiro Neoliberalista”, personagem com faixa presidencial que desfilava em destaque na última alegoria. A imagem viralizou, gerou debates e transformou o desfile em um dos atos políticos mais explícitos da história recente do Carnaval carioca.


Mangueira (2019): História para Ninar Gente Grande
Em um momento político polarizado no país, a Mangueira levou para a avenida uma revisão da história oficial do Brasil. O enredo exaltou personagens apagados dos livros didáticos, indígenas, negros, mulheres e líderes populares, questionando a narrativa dominante.
A homenagem a Marielle Franco emocionou a Sapucaí e viralizou nas redes sociais. O desfile foi preciso tecnicamente e contundente narrativamente e um marco contemporâneo da força política do samba.


Viradouro (2024): Arroboboi, Dangbé
Em 2024, a Unidos do Viradouro fez um desfile avassalador na Sapucaí e conquistou o campeonato com “Arroboboi, Dangbé”, um enredo que mergulhou nas tradições do culto vodum do Benim, na África Ocidental. A escola levou para a avenida a força simbólica da serpente sagrada Dangbé, entidade ligada à proteção, ancestralidade e equilíbrio espiritual.
O desfile foi marcado por alegorias grandiosas, fantasias riquíssimas em detalhes e uma harmonia quase perfeita entre canto, bateria e evolução. As serpentes que “rasgavam” a avenida, com movimentos cenográficos e efeitos visuais impactantes, criaram uma das imagens mais poderosas dos últimos anos no Carnaval carioca.



