A Copa do Mundo sempre movimenta torcidas, bolões entre amigos e debates sobre quem será o próximo campeão. Nos últimos anos, porém, um novo hábito passou a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros: apostar em praticamente todos os jogos. Com um celular na mão, poucos minutos são suficientes para registrar um palpite e acompanhar a partida torcendo também pelo resultado da aposta.
O problema começa quando essa prática deixa de ser eventual e passa a ocupar espaço cada vez maior na vida da pessoa. Enquanto a Copa de 2026 impulsiona o mercado das bets, médicos, pesquisadores e órgãos públicos também observam outro movimento: o aumento dos casos de ludopatia, nome dado ao transtorno relacionado ao vício em jogos e apostas.

Mais do que uma discussão sobre dinheiro, o tema envolve saúde mental, endividamento, relações familiares e qualidade de vida.
O que é ludopatia?
A ludopatia, também conhecida como transtorno do jogo, é uma dependência comportamental caracterizada pela perda de controle sobre o impulso de apostar. Diferentemente da dependência de álcool ou outras drogas, não existe uma substância química envolvida. Ainda assim, os mecanismos cerebrais ativados são muito semelhantes.
A condição é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde e também faz parte dos principais manuais internacionais utilizados para o diagnóstico de transtornos mentais.
Na prática, a pessoa continua apostando mesmo quando acumula prejuízos financeiros, conflitos familiares, dificuldades no trabalho e sofrimento emocional. O jogo deixa de ser entretenimento e passa a comandar decisões importantes da rotina.
Por que a Copa aumenta o número de apostas?
Eventos esportivos de grande audiência costumam atrair novos apostadores. Durante a Copa do Mundo, há mais partidas diariamente, maior cobertura da imprensa, campanhas publicitárias intensas e uma sensação constante de que qualquer jogo pode render lucro.
Um levantamento da fintech Klavi, com base em dados do Open Finance, sistema de integração de dados do Banco Central, mostrou que a parcela de brasileiros que realizou apostas online passou de 11% para 34,8% desde o início da Copa de 2026, um crescimento que acendeu o alerta entre especialistas e autoridades.
A facilidade também pesa. Hoje, basta abrir um aplicativo para apostar em quem vence uma partida, quem marca o próximo gol, quantos escanteios haverá ou até quantos cartões serão distribuídos durante o jogo.
Esse acesso permanente cria um ambiente propício para quem já apresenta fatores de risco relacionados à compulsão.
O que acontece no cérebro de quem desenvolve o vício?
Grande parte da explicação está no sistema de recompensa do cérebro. Sempre que existe a expectativa de ganhar dinheiro, ocorre a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e à antecipação de recompensas. O detalhe é que o cérebro responde não apenas quando há vitória, mas também quando existe a possibilidade de ganhar.
Esse mecanismo faz com que muitas pessoas permaneçam apostando mesmo após sucessivas perdas.
Outro fator importante é o chamado reforço intermitente. Como ninguém sabe exatamente quando vai ganhar, cada nova aposta alimenta a expectativa de que a próxima será diferente. Esse padrão mantém o cérebro constantemente estimulado e dificulta interromper o comportamento.
Com o tempo, a busca deixa de ser apenas pelo prêmio financeiro. A própria sensação provocada pela aposta passa a ser parte da dependência.
Quando apostar deixa de ser diversão?
Nem toda pessoa que faz apostas desenvolve ludopatia. A diferença está na capacidade de estabelecer limites e respeitá-los.
Quem aposta de forma recreativa consegue interromper a atividade quando deseja, aceita as perdas como parte do entretenimento e não compromete o orçamento nem outras áreas da vida.
Já no transtorno do jogo, as apostas passam a ocupar boa parte dos pensamentos e influenciam decisões financeiras, profissionais e pessoais. Entre os principais sinais de alerta estão:
- pensar constantemente em apostas;
- aumentar progressivamente o valor apostado;
- tentar recuperar prejuízos apostando novamente;
- esconder o hábito da família;
- mentir sobre perdas financeiras;
- pedir empréstimos para continuar jogando;
- sentir irritação ou ansiedade quando não consegue apostar;
- abandonar compromissos ou hobbies por causa dos jogos.
Quanto mais cedo esses sinais forem identificados, maiores são as chances de interromper o ciclo antes que ele provoque consequências mais graves.
Quem corre mais risco?
A ludopatia pode atingir qualquer pessoa, mas alguns fatores aumentam a vulnerabilidade. Especialistas apontam maior risco entre pessoas com histórico de impulsividade, TDAH, transtorno bipolar, ansiedade, depressão ou outras dependências.

Jovens adultos também aparecem entre os grupos mais expostos, principalmente porque utilizam com frequência aplicativos e redes sociais onde a publicidade das casas de apostas é constante.
Outro ponto de atenção é a presença de influenciadores digitais e atletas em campanhas publicitárias. Para profissionais da saúde, esse tipo de comunicação pode reduzir a percepção dos riscos e associar as apostas a sucesso, diversão e retorno financeiro fácil.
O impacto além do dinheiro
Embora as dívidas costumem ser o efeito mais visível, os prejuízos da ludopatia vão muito além da conta bancária.
O transtorno pode provocar ansiedade intensa, depressão, isolamento, conflitos familiares, queda no desempenho profissional e dificuldades para manter relacionamentos.
Em casos mais graves, especialistas também observam aumento do risco de pensamentos suicidas, especialmente quando a pessoa acumula perdas financeiras e sente vergonha de pedir ajuda.
Por isso, o problema passou a ser tratado como uma questão de saúde pública.
Dados apresentados recentemente pelo Ministério Público Federal mostram que os atendimentos relacionados a problemas de saúde mental associados às apostas cresceram de forma expressiva nos últimos anos, aumentando a pressão sobre o Sistema Único de Saúde.
Com a regulamentação das apostas esportivas, o debate deixou de ser apenas econômico e passou a incluir medidas de proteção aos consumidores.
Entre os recursos disponíveis está a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, criada pelo Governo Federal. A ferramenta permite que o próprio usuário solicite o bloqueio do CPF em todas as casas de apostas autorizadas, dificultando o acesso aos jogos.
Também estão em discussão propostas para ampliar as restrições à publicidade das bets, principalmente durante grandes eventos esportivos, como o caso da Copa do Mundo, além de mecanismos para evitar o superendividamento e melhorar a fiscalização das plataformas.
O Ministério Público Federal ainda defende o aumento dos recursos destinados ao SUS para prevenção e tratamento da ludopatia, considerando o crescimento dos atendimentos relacionados ao transtorno.
Existe tratamento para a ludopatia?
Sim. Assim como acontece em outras dependências, o tratamento costuma envolver diferentes frentes.
A psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), é considerada uma das principais abordagens. Dependendo de cada caso, o acompanhamento psiquiátrico também pode incluir medicamentos para controlar impulsividade ou tratar transtornos associados, como ansiedade e depressão.
Outra estratégia importante é reorganizar a vida financeira, bloquear o acesso às plataformas de apostas e envolver familiares durante o processo de recuperação.
Grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos, também ajudam muitas pessoas a romper o ciclo da compulsão.
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