Quando se fala em rock gaúcho nos anos 1990, é difícil resumir a cena a um único estilo. Em Porto Alegre e outras cidades do Estado, bandas misturavam punk, rockabilly, pop, reggae, funk, rap e até elementos da música regional, criando uma identidade própria e bastante diferente do que acontecia em outras partes do Brasil.
Depois do primeiro grande boom do rock gaúcho nos anos 1980, a década seguinte começou com menos espaço para o gênero nas rádios e nos grandes palcos. Ainda assim, a cena encontrou novos caminhos em lugares como o Bar Ocidente, o Garagem Hermética e o Estúdio Dreher, além de contar com as rádios locais para divulgar os trabalhos.
Foi nesse circuito que uma nova geração ganhou força. Algumas bandas já vinham dos anos 1980, enquanto outras surgiram ou se consolidaram durante os anos 1990. Juntas, elas ajudaram a preparar o terreno para a explosão que aconteceria na virada do milênio.
Confira 10 bandas e artistas que marcaram o rock gaúcho nos anos 90:
1. Bidê ou Balde

Se existe uma banda que representa a irreverência de uma parcela do rock gaúcho dos anos 1990, é a Bidê ou Balde.
Formado por músicos que já haviam passado por outros grupos importantes da cena, o projeto misturava rock, jovem guarda, psicodelia, música regional e letras bem-humoradas. A sonoridade pouco convencional ajudou a transformar a banda em uma referência do circuito alternativo de Porto Alegre.
2. DeFalla

O DeFalla já vinha da década anterior, mas continuou sendo uma presença importante na transformação do rock gaúcho durante os anos 1990.
A banda nunca teve muito interesse em ficar presa a uma fórmula. Seu som passou pelo punk, heavy metal, funk, pop e música experimental, ajudando a ampliar a própria ideia do que poderia ser considerado rock gaúcho.
Em 1992, o grupo lançou Kingzobullshitbackinfulleffect92, pelo selo independente Cogumelo Records. O álbum teve repercussão suficiente para levar a banda ao Hollywood Rock de 1993, um dos grandes festivais de música do Brasil naquele período.
A trajetória do DeFalla também influenciou bandas que surgiriam nos anos seguintes, especialmente aquelas interessadas em misturar o rock com outros gêneros.
3. Acústicos & Valvulados

Formado em Porto Alegre no início dos anos 1990, o Acústicos & Valvulados surgiu influenciado pelo rockabilly e pelo revival das décadas de 1950 e 1960.
A banda nasceu em meio à efervescência cultural da cidade e rapidamente passou a fazer parte do circuito de casas e espaços alternativos que movimentavam a cena. O grupo lançou seu primeiro álbum, God Bless Your Ass, em 1996, de forma independente.
A estética retrô, o rock direto e a presença constante nos palcos fizeram do grupo um dos nomes que ajudaram a manter o rock de garagem e o rockabilly vivos na cena porto-alegrense.
A história da banda também passa pelo chamado Bafo de Bira, uma mistura de estúdio e salão de festas que serviu como ponto de encontro para músicos nos anos 1990.
4. Tequila Baby

O punk também teve um papel importante na renovação do rock gaúcho dos anos 1990 — e a Tequila Baby foi um dos principais nomes dessa vertente.
Formada em Porto Alegre, a banda lançou seu primeiro álbum, Tequila Baby, em 1996, com forte influência dos primeiros discos do Ramones. O trabalho ajudou a estabelecer uma sonoridade simples, rápida e irreverente, características que se tornariam marcas do grupo.
A banda também construiu sua trajetória a partir dos shows, circulando pelo interior do Rio Grande do Sul e ajudando a conectar diferentes públicos à cena punk e rock do Estado.
5. Ultramen

A Ultramen ajudou a mostrar que o rock gaúcho não precisava ficar restrito às guitarras tradicionais.
Formada em Porto Alegre, a banda misturava rock, funk, reggae, rap e soul, criando uma sonoridade que destoava das classificações mais tradicionais. O primeiro álbum, Ultramen, foi lançado em 1998 e trouxe músicas que se tornaram importantes para a cena, como “Bico de Luz”.
A mistura de gêneros seria uma das características mais marcantes da geração que chegou à cena na segunda metade dos anos 1990. A Ultramen estava justamente no centro dessa transformação.
6. Comunidade Nin-Jitsu

Se a Ultramen mostrou que era possível misturar rock com funk e rap, a Comunidade Nin-Jitsu levou essa combinação ainda mais longe.
O grupo lançou Broncas Legais em 1999, com produção de Edu K, vocalista do DeFalla. O álbum incorporava elementos de metal, funk carioca e letras nonsense, criando uma identidade completamente particular.
Faixas como “Detetive”, “Melô do Analfabeto” e “Quero Te Levar” ajudaram a transformar a banda em um dos nomes mais lembrados daquela geração.
A Comunidade também representa uma mudança importante na cena: o rock gaúcho já não precisava necessariamente soar como o rock tradicional. A mistura de referências virou parte da própria identidade dos novos grupos.
7. Fresno

Embora tenha surgido no final dos anos 1990 e desenvolvido sua carreira principalmente nos anos 2000, a Fresno representa a nova geração que começou a aparecer na cena gaúcha na virada do milênio.
Formada em Porto Alegre em 1999, a banda começou a construir sua trajetória no circuito independente da cidade, com uma sonoridade ligada ao emocore, hardcore melódico e pop punk.
O primeiro álbum, Quarto dos Livros, foi lançado em 2003 e marcou uma nova fase da banda. Nos anos seguintes, a Fresno ganhou projeção nacional e se tornou um dos principais nomes brasileiros associados ao emocore.
A história do grupo ajuda a mostrar como a cena construída nos anos 1990 abriu espaço para uma nova geração de bandas que chegaria com força aos anos 2000.
8. TNT

O TNT é um dos nomes fundamentais para entender a formação do rock gaúcho e sua influência durante os anos 1990.
Formada em Porto Alegre no final dos anos 1970, a banda foi uma das responsáveis pelo primeiro grande movimento do rock produzido no Rio Grande do Sul e atravessou diferentes fases ao longo das décadas seguintes.
Durante os anos 1990, o TNT continuou ligado à cena gaúcha e ajudou a manter viva a tradição construída pela geração que havia surgido na década anterior. O grupo também serviu de referência para os artistas que começaram a ocupar os palcos de Porto Alegre nos anos seguintes.
A presença do TNT nessa lista também representa a convivência entre diferentes gerações dentro da cena: enquanto novos grupos surgiam, nomes que haviam ajudado a construir o movimento continuavam circulando.
9. Engenheiros do Hawaii

Os Engenheiros do Hawaii já eram uma banda nacionalmente conhecida quando os anos 1990 começaram, mas a trajetória do grupo é indispensável para entender a dimensão que o rock gaúcho havia alcançado.
Formada em Porto Alegre em 1985, a banda liderada por Humberto Gessinger ganhou projeção nacional ainda nos anos 1980 e continuou lançando trabalhos de destaque na década seguinte.
Álbuns como O Papa é Pop, de 1990, e Várias Variáveis, de 1991, mantiveram os Engenheiros em evidência no cenário brasileiro. A banda também levou para o restante do país características que ficaram associadas ao rock produzido no Rio Grande do Sul.
Ao longo dos anos 1990, os Engenheiros do Hawaii passaram por mudanças de formação e de sonoridade, mas continuaram como uma das principais referências gaúchas no rock nacional.
10. Cidadão Quem

O nome de Duca Leindecker também é fundamental para compreender o rock gaúcho dos anos 1990. À frente da Cidadão Quem, o músico ajudou a construir uma vertente mais melódica e autoral da cena.
A Cidadão Quem foi formada em Porto Alegre no final dos anos 1980 e atravessou a década seguinte, consolidando seu espaço no circuito gaúcho. A partir dos anos 1990, Duca passou a se tornar uma figura cada vez mais conhecida dentro da cena, tanto pelo trabalho com a banda quanto por sua atuação como compositor.
Sua trajetória representa uma das características mais marcantes do rock gaúcho daquele período: a existência de artistas que conseguiam transitar entre o circuito independente e o mercado nacional sem abandonar a produção autoral.
Rock do Milênio: a história do rock gaúcho ganha documentário na ATL TV
A história dessa geração será revisitada em Rock do Milênio, nova produção documental original da ATL TV.
Com seis episódios, a série resgata a cena do rock gaúcho na virada do milênio a partir de depoimentos de músicos e artistas que viveram aquele período, além de imagens e registros de arquivo. A produção tem participação do produtor Lelê Bortholacci, que acompanhou de perto a cena por meio da Olelê Music.
Rock do Milênio estreia em 22 de outubro, às 19h, na ATL TV. Os novos episódios serão publicados todas as quintas-feiras, às 19h, após a transmissão da segunda edição do Pretinho Básico.
A série revisita justamente o período em que uma nova geração de bandas ocupou palcos, casas de shows, rádios e espaços culturais de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, ajudando a transformar aquela cena em parte importante da história da música brasileira. Assista ao trailer:

