
O anúncio de Marilyn Manson como uma das atrações do The Town 2027 provocou uma onda de críticas nas redes sociais. Confirmado para a primeira noite da próxima edição do festival, o cantor retorna ao Brasil depois de 11 anos, mas chega ao país cercado por uma série de polêmicas que acompanham sua carreira há décadas.
A principal discussão em torno da escalação está relacionada às acusações de abuso e violência feitas por mulheres contra o músico, além de episódios controversos envolvendo sua trajetória artística. Manson, por outro lado, nega as acusações de abuso e não foi condenado criminalmente por esses crimes.
A organização do festival se manifestou após a repercussão e afirmou que repudia qualquer forma de violência, agressão e assédio. A Rock World, empresa responsável pelo evento, também destacou que cabe às autoridades avaliarem as acusações e determinar eventuais responsabilidades.
Mas o histórico controverso do cantor vai muito além das denúncias dos últimos anos.
A relação com o massacre de Columbine
Uma das maiores controvérsias envolvendo Marilyn Manson aconteceu após o massacre da escola Columbine, em 20 de abril de 1999, no Colorado, nos Estados Unidos.
Na época, setores da imprensa e políticos americanos passaram a discutir se filmes, videogames e músicas violentas poderiam influenciar jovens a cometer atos de violência. Manson foi um dos artistas associados ao debate porque os dois responsáveis pelo massacre eram conhecidos por consumir música pesada e reportagens destacaram o interesse deles pelo trabalho do cantor.
No entanto, não houve evidência de que Manson tivesse relação causal com o massacre.
Ainda assim, a pressão sobre o artista foi grande. Dez senadores americanos chegaram a enviar uma carta à gravadora de Manson pedindo que a distribuição de seus discos fosse interrompida, sob a alegação de que o músico glorificava a violência.
Após o episódio, o artista também cancelou as últimas cinco apresentações de uma turnê. E a controvérsia acabou consolidando ainda mais a imagem do cantor como um dos principais símbolos do debate sobre violência, censura e influência da cultura pop nos Estados Unidos.
As acusações contra mulheres
Mais recentemente, as polêmicas envolvendo Manson ganharam uma dimensão diferente.
Em 2021, diversas mulheres fizeram acusações de abuso sexual, violência doméstica, coerção e violência psicológica contra o cantor. Entre elas estão a atriz Evan Rachel Wood e a atriz Esmé Bianco.
Um dos episódios mais conhecidos envolve Evan, que teve um relacionamento com o cantor e chegou a ficar noiva dele. Manson posteriormente processou Wood, alegando que ela havia fabricado acusações contra ele. O músico desistiu do processo em 2024 e concordou em pagar aproximadamente US$ 327 mil em honorários advocatícios da atriz.
Os casos deram origem a processos civis e investigações. Alguns deles terminaram em acordos, enquanto outros foram arquivados ou rejeitados.
O cantor negou as acusações e afirmou que suas relações foram consensuais. E a investigação criminal conduzida pelas autoridades de Los Angeles também terminou sem que Manson fosse acusado criminalmente por estupro ou outros crimes sexuais.
Uma carreira construída sobre a provocação
Muito antes das acusações dos últimos anos, Marilyn Manson já era uma figura controversa nos Estados Unidos.
A própria construção do personagem, com o nome inspirado em Marilyn Monroe e Charles Manson, nasceu de uma combinação proposital entre uma das maiores estrelas da cultura pop americana e um dos criminosos mais conhecidos do país.
Nos anos 1990, Manson provocava grupos religiosos com letras, videoclipes, figurinos e performances que exploravam temas como sexo, religião, violência, drogas, rebeldia e o lado obscuro da natureza humana.
O álbum Antichrist Superstar, lançado em 1996, se tornou um dos principais símbolos dessa fase. A obra utilizava imagens religiosas distorcidas e uma estética deliberadamente provocativa.
O cantor também foi acusado de incentivar satanismo, violência e comportamento antissocial. Manson, por outro lado, defendia que sua obra funcionava como uma crítica à sociedade americana e à hipocrisia religiosa, e não como um incentivo literal à violência.
A repercussão chegou ao ponto de Manson ser impedido de se apresentar em alguns locais administrados pelo governo americano.
Outras acusações e controvérsias
O histórico do cantor também inclui outras acusações e episódios controversos, entre eles alegações de assédio e racismo. Esses episódios se somaram à imagem já estabelecida de Manson como um artista que deliberadamente confrontava padrões sociais e religiosos.
Um episódio que teve consequência judicial ocorreu após um show em 2019. Manson se declarou culpado por uma infração relacionada a um incidente envolvendo uma cinegrafista durante uma apresentação. Como consequência, recebeu 20 horas de serviço comunitário e uma multa.
De volta aos palcos e ao Brasil
Depois de um período de maior afastamento da indústria musical, Marilyn Manson retomou a carreira.
Em 2024, o cantor assinou contrato com a gravadora Nuclear Blast e lançou o álbum One Assassination Under God – Chapter 1. Nos anos seguintes, voltou a fazer turnês pela Europa e pelos Estados Unidos.
Manson esteve no país pela última vez em 2016, quando se apresentou no Maximus Festival, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Agora, 11 anos depois, ele volta ao mesmo local para integrar a programação do The Town.
O que diz o The Town?
Depois da repercussão negativa do anúncio, o The Town se manifestou sobre a escolha.
Em nota ao Estadão, a organização afirmou que “repudia qualquer manifestação de violência, agressão e assédio, seja ela qual for” e acrescentou que cabe às autoridades avaliar as acusações e determinar as responsabilidades de qualquer pessoa envolvida.
Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, empresa responsável pelo festival, também comentou a decisão em entrevista à Folha de S.Paulo.
Segundo ele, a escolha levou em consideração o fato de Manson não ter sido condenado criminalmente pelas acusações de abuso. “É um cara que não foi condenado, não tem uma coisa provada”, declarou.
O executivo também afirmou que as histórias envolvendo o cantor “absolutamente não fazem parte de nada do que a gente acredita”, mas ressaltou que Manson é um artista que estará em turnê pelo mundo durante o período do festival.
A organização ainda explicou que a presença do cantor está relacionada à programação do Slipknot, que também será atração da primeira noite. Manson faz parte da atual turnê mundial da banda, com apresentações previstas em Londres e na América Latina.
Quando acontece o The Town 2027?
Slipknot e Marilyn Manson estão confirmados na primeira noite da terceira edição do The Town. O festival terá cinco dias de programação e será realizado nos dias 4, 5, 6, 11 e 12 de setembro de 2027, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.

