
Se tu já acompanha o Di Ferrero e o NX Zero, sabe que o cara está acostumado com palco grande, milhares de pessoas e aquela energia que parece não acabar nunca. Mas e quando tudo isso diminui? Quando ficam só voz, violão e público?
É justamente essa a proposta do show solo acústico que Di apresenta nesta sexta-feira (18), no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre. E, segundo o próprio cantor, é nesse formato mais íntimo que ele consegue estar mais presente.
Você está totalmente à mercê das músicas, das pessoas, do que pode acontecer. Todo mundo tem voz ali. Se o cara quiser dar um grito, eu vou ouvir. Qualquer coisa que a pessoa falar, eu também vou ouvir. Então é mais aberto, não tem muito roteiro.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
E, depois de tantos anos de estrada, talvez seja justamente essa falta de roteiro que faça diferença. Quando perguntei o que ainda dá aquele frio na barriga antes de subir ao palco, principalmente em um show menor, a resposta foi até um pouco diferente do que eu esperava.
Esses shows, por incrível que pareça, são shows que eu curto mais. É diferente de fazer, sei lá, o Rock in Rio, que eu fiz na semana passada, que é aquela tensão de tempo, ou os grandes festivais. Então é isso. Eu consigo estar presente, curtir o momento.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
NX Zero, carreira solo e todas as fases de Di
Falando em fases, não dava para deixar o NX Zero de fora. Hoje, Di coloca músicas da banda e da carreira solo no mesmo repertório. Mas será que, para ele, são momentos completamente diferentes?
Eu não separo muito, mesmo. Tem várias partes. Até do próprio NX, eu lembro de vários momentos, com álbuns diferentes.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
Quando começou a carreira solo, Di chegou a tentar se distanciar um pouco do som da banda. E esse começo aconteceu de um jeito curioso: antes mesmo de lançar oficialmente qualquer música, ele já tinha levado um repertório novo para o palco do Planeta Atlântida.
Eu não tinha lançado nenhuma música. E aí eu toquei um monte de música nova lá, e a galera: ‘Legal, quando lança?’. Porque não lançou. Eu tava lá tocando.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
A partir daí, essas músicas começaram a ganhar vida própria. E hoje, olhando para tudo que já fez, Di não parece enxergar uma separação tão grande entre o artista que estava no NX e o que veio depois.
Tem música que fica “deprê” demais no acústico
Mas nem toda música chega no violão do mesmo jeito. Algumas, inclusive, ficam bem mais pesadas.
Tem algumas que eu achei que no acústico ficaram muito... muito deprê
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
Uma delas é “Som da Desilusão”. E, bom, o próprio nome já entrega um pouco do problema. “Olha o nome da música. É emo total”, afirmou.
Di também cita “Marcas de Expressão”, que, segundo ele, exige outro tipo de concentração quando entra no repertório acústico.
Ela é forte. Tem que parar tudo, respirar e tocar, sabe?
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
E tem ainda “Cuida”, faixa do SE7E que ele considera uma das mais pesadas do álbum nesse sentido.
Eu vou tocar uma amanhã que, pra mim, é a mais pesada desse último álbum, nesse sentido. Chama ‘Cuida’
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
Ou seja: às vezes, tirar a produção e deixar só voz e violão não deixa a música mais leve. Pelo contrário.
De onde veio o SE7E?
Se tu já viu a identidade visual do SE7E, provavelmente percebeu que o azul aparece bastante. E não é por acaso.
Quando perguntei sobre a escolha do nome e aquela imagem do fim da tarde, começo da noite, Di falou de um momento que, para ele, sempre teve um significado especial.
É uma hora que eu sempre paro um pouco o que eu tô fazendo. Tá escurecendo, tá acabando o dia. É um momento bem reflexivo pra mim, sempre foi. Uma hora que me dá um prazer. Eu adoro essa hora.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
E tem mais uma coisa: a duração desse momento.
Parece que o mundo para. Amo a cor azul, aquela cor bonita. E é rápida. Não é que tem um dia inteiro daquele tom. Aquele tom dura minutos.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
É aquela passagem entre uma coisa e outra. O dia acabou, mas a noite ainda está começando.
E a ancestralidade entrou na música
A conversa sobre o conceito do álbum também acabou chegando em um assunto bem pessoal: a família de Di. A mãe dele é astróloga, e ele conta que cresceu em meio a diferentes tradições e referências espirituais.
Todo mundo, né? A minha família inteira. (...) Eu cresci com isso. É uma coisa da minha família. E minha mãe é astróloga.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
Di também contou que nunca tinha levado esse universo diretamente para a música. Pelo menos não de uma forma tão consciente: “Isso aí é meu DNA”, confirmou.
Ele também fala sobre ter morado em muitos lugares e sobre essa relação com o movimento e a própria origem familiar.
Eu sou nômade. Morei em mil lugares. Eu já sou meio cigano, já. Minha família é toda cigana, assim. Lá de origem mesmo. Lá de trás.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
E talvez seja justamente por isso que ele veja essa presença no álbum como algo que simplesmente chegou no momento certo. Não como uma coisa planejada, mas como parte de quem ele é.
“Aprendi a falar não”
Se o SE7E representa uma fase de transformação, uma das principais mudanças parece estar na forma como Di encara a própria carreira.
Ele conta que, dessa vez, não colocou no processo aquela cobrança de precisar fazer tudo bombar.
Eu não coloquei nenhum tipo de cobrança, primeiro. E... de ânsia, de... ‘tem que bombar, tem que fazer’. Eu não coloquei nenhum desses sentimentos.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
O álbum foi sendo construído e lançado aos poucos. Sem aquela pressa de precisar entregar tudo de uma vez.
Eu fiz ele com calma. Eu fui lançando ele aos poucos. ‘Ah, você não vai lançar?’ ‘Não, agora não.’ Eu nunca falei não. Aprendi a falar não. Aprendi não.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
Durante a conversa, ele também citou o livro A Coragem de Não Agradar e falou sobre aprender a ser dono do próprio tempo e administrar melhor a própria vida.
E isso tem tudo a ver com uma das músicas do álbum.
A frase estranha que virou “Unfollow”
A história de “Unfollow” começa com uma discussão entre Di e um grande amigo. No meio da conversa, o amigo soltou uma frase que ficou na cabeça do cantor: “Não me faça parar de te seguir.”
A primeira reação de Di foi achar aquilo meio absurdo. “É uma frase muito estranha, né? É até meio quinta série”, observou.
Mas depois, começou a pensar no que aquela frase realmente queria dizer. E foi aí que a ideia da música apareceu.
Você quer que eu poste ou sei lá? Algo que vai te agradar. Vai agradar aos outros. Isso quer dizer... aí eu trouxe isso pro mundo mesmo.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
A reflexão acabou virando uma crítica à ideia de precisar ser aquilo que o outro espera, quase como se fosse necessário funcionar bem para o algoritmo de alguém. “Você quer que eu seja um algoritmo bom pra você, né?”, refletiu.
E, no fim, a música conversa diretamente com esse momento em que Di diz estar mais interessado em fazer as coisas no próprio tempo.
Tá, mas e a relação com as redes sociais?
Eu não podia deixar passar. Depois de falar tanto sobre algoritmo, precisava perguntar qual é, afinal, a relação dele com as redes sociais. A primeira resposta foi direta: “Tóxica. Super tóxica!”.
Mas, calma. Ele estava brincando.
Di explica que hoje a relação é bem mais tranquila. A diferença é que ele não fica entrando nas redes sem perceber e passando horas rolando o feed.
Eu só entro quando eu quero mesmo. Assim, agora, hoje em dia. Não fico lá que nem um zumbi lá rolando.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
E, durante a conversa, ele ainda brincou sobre aquela cena que provavelmente tu também já viu: a pessoa no ônibus, no celular, completamente parada, rolando a tela sem nem perceber quanto tempo passou.
Ou seja, parece que Di encontrou um meio-termo. Continua nas redes, mas tenta não deixar que elas ocupem todo o espaço.
Serginho Moah no palco
E, para fechar, uma parceria que promete deixar o show ainda mais especial para quem estiver no Bourbon Country: Serginho Moah.
Os dois já se conhecem há bastante tempo, mas nunca tinham tocado juntos.
Pô, o Serginho é ídolo, né? Então... Só que a gente nunca tinha feito nada tocando junto, nem nada. Só backstage, festas, rolês, que é muito legal.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
A ideia surgiu também pela admiração de Di pela voz do cantor.
Eu adoro a voz dele, o timbre de voz dele. Acho que vai combinar muito ali com algumas músicas que a gente vai tocar junto, umas minhas, umas deles.
DI FERRERO
em entrevista à Atlântida.
E o repertório deve passear pelos dois lados: músicas de Di e músicas dos Papas da Língua, banda que ele acompanha há muitos anos. “Lembro quando eles estouraram. (...) Então, vai ser o maior prazer tocar com eles”, relembrou.
No fim, o que fica da conversa é justamente essa ideia de que o acústico abre espaço para coisas que talvez se perdessem em um palco gigante. A música fica mais exposta, o público participa mais e o próprio Di consegue simplesmente parar, respirar e curtir o momento.
E, pelo jeito, é exatamente aí que ele gosta de estar.
Serviço: Di Ferrero — Acústico em Porto Alegre
Local: Teatro do Bourbon Country (Avenida Túlio de Rose, 80, Passo d’Areia, Porto Alegre)
Data: Sexta-feira, 18 de setembro
Abertura da casa: 20h
Show: 21h
Classificação: 16 anos. Menores de 14 anos somente acompanhados dos pais ou responsável legal. Crianças de até 24 meses, no colo, não pagam.

