Depois de te explicar por aqui o significado de gírias como cunt e moggar, chegou a vez de uma palavra que aparece bastante quando o assunto é moda, celebridades e cultura pop: camp. O termo pode até parecer simples à primeira vista, mas carrega uma história que passa pela cultura queer, pela estética e por uma maneira particular de enxergar o mundo.
A dificuldade começa justamente na definição. Camp não é apenas uma peça exagerada, um look chamativo ou algo considerado brega. O conceito está mais próximo de uma sensibilidade estética, marcada pelo artifício, pelo exagero, pela teatralidade e por uma certa ironia.

Afinal, o que significa camp?
De maneira geral, algo pode ser considerado camp quando exagera uma ideia estética até transformá-la em linguagem. Pode aparecer na moda, no cinema, na decoração, na música ou até na maneira como uma pessoa constrói sua própria imagem.
O camp gosta do que foge do natural. Uma roupa pode ganhar proporções enormes, uma produção pode parecer saída de um espetáculo ou um objeto cotidiano pode ser transformado em algo completamente inesperado.

Mas existe uma diferença importante entre o camp e aquilo que é simplesmente considerado cafona. No camp, o exagero ganha outro sentido. A estética pode brincar com as expectativas sobre o que deveria ser bonito, elegante ou sofisticado.
Por isso, ser camp também tem a ver com a forma como algo é percebido. A mesma peça pode parecer apenas estranha em um contexto e ganhar uma leitura camp em outro.
De onde surgiu o termo camp?
A origem da palavra não é totalmente consensual. Uma das teorias mais conhecidas relaciona camp ao francês se camper, expressão associada à ideia de posar ou assumir uma postura de maneira exagerada.
O termo passou a aparecer em registros em inglês no fim do século XIX e início do século XX, período em que também ganhou uma forte associação com homens gays e códigos de expressão usados dentro de comunidades queer.
Nesse contexto, o camp também podia funcionar como uma forma de brincar com normas sociais. Gestos, roupas, referências femininas e maneiras de performar gênero podiam ser exagerados e transformados em uma linguagem própria.
Com o tempo, porém, o conceito ultrapassou essa origem e passou a ser utilizado para falar de diferentes manifestações culturais.

Um dos momentos mais importantes para a história do termo aconteceu em 1964, quando a escritora norte-americana Susan Sontag publicou o ensaio Notes on Camp, conhecido em português como Notas sobre o Camp.
No texto, Sontag reuniu 58 observações para tentar explicar essa sensibilidade. Em vez de apresentar uma definição fechada, ela descreveu diferentes características que poderiam ajudar a reconhecer o camp.
Para a autora, o conceito tinha uma relação forte com o artificial, o exagerado, o teatral e o estilizado. A ideia não estava necessariamente em considerar algo bonito ou feio, mas em observar o quanto aquela estética se distancia do que é natural ou convencional.

Uma produção pode ser enorme, cheia de brilho e completamente chamativa sem necessariamente ser camp. O conceito também envolve uma relação com a própria estética, podendo existir humor, ironia, teatralidade ou uma ruptura com aquilo que normalmente esperamos de determinada situação.
É por isso que o camp aparece tanto na cultura pop. Ele permite brincar com referências conhecidas e levá-las a outro lugar.
Um exemplo clássico é o famoso vestido de cisne usado por Björk no Oscar de 2001. A cantora apareceu no tapete vermelho usando uma criação de Marjan Pejoski que reproduzia a forma de um cisne. A roupa virou uma das imagens mais lembradas da história do evento justamente por levar a ideia de vestido de gala para um território completamente inesperado.

Camp na moda
A moda talvez seja um dos lugares em que o conceito fica mais fácil de visualizar.
Plumas, volumes gigantes, acessórios em formatos inesperados, referências teatrais, materiais que imitam outras coisas e combinações que parecem desafiar a ideia tradicional de elegância são alguns caminhos possíveis para uma estética camp.
O conceito ganhou ainda mais atenção na moda quando o Met Gala de 2019 adotou o tema Camp: Notes on Fashion, inspirado no ensaio de Sontag. A exposição do Costume Institute do Metropolitan Museum of Art investigou justamente como o camp atravessou diferentes períodos e chegou à moda.
Looks de nomes como Moschino, Gucci, Viktor & Rolf e Jean Paul Gaultier, além de aparições de celebridades no tapete vermelho, ajudaram a colocar a estética no centro da conversa.
Lady Gaga, por exemplo, chegou ao evento com uma performance de moda que envolvia quatro trocas de roupa no próprio tapete vermelho. O exagero fazia parte da proposta.

O camp encontrou uma relação especialmente forte com a cultura queer porque permite brincar com normas de gênero, beleza, comportamento e bom gosto. A estética exagerada pode virar uma maneira de questionar essas regras, em vez de simplesmente obedecê-las.
Hoje, o termo também circula muito além desse contexto. Aparece em redes sociais, na moda, em produções audiovisuais e nos looks de celebridades. Em muitos casos, dizer que algo é camp virou uma forma rápida de identificar uma estética que parece ter ido um pouco além do esperado.

