
O rock gaúcho tem uma história que atravessa gerações. De nomes que ajudaram a construir a cena nos anos 1980 a bandas que ganharam força na década seguinte, o Rio Grande do Sul se tornou terreno fértil para diferentes estilos e artistas que marcaram a música brasileira.
Foi nesse cenário que surgiram e cresceram nomes como TNT, Defalla, Duca Leindecker, Humberto Gessinger, Tequila Baby, Acústicos & Valvulados, Ultramen, Comunidade Nin-Jitsu e Fresno, entre tantos outros. Muitos desses artistas também passaram pela trajetória da Olelê Music, produtora comandada por Lelê Bortholacci, que atuou diretamente na cena musical gaúcha entre as décadas de 1990 e 2010.
Agora, parte dessas histórias será revisitada em Rock do Milênio, nova série original da ATL TV, canal da Rede Atlântida no YouTube.
Lelê Bortholacci revisita histórias do rock gaúcho
Além de ter acompanhado a cena de perto como produtor e empresário, Lelê Bortholacci também já vinha resgatando essas histórias em outros projetos. Entre eles está o podcast Eu Quero Ser Seu Amigo de Novo, criado ao lado da jornalista e pesquisadora Carol Govari, que reúne relatos de músicos e bastidores da cena entre 1995 e 2015.
Para Rock do Milênio, esse material ganha uma nova dimensão. Arquivos pessoais, registros históricos e depoimentos de quem viveu aquele período ajudam a reconstruir uma história que, para Lelê, vai muito além da trajetória de uma única produtora ou de algumas bandas.
O resultado é um registro sobre uma geração que ajudou a colocar o rock gaúcho no centro da música produzida no Estado.
Confira a entrevista completa com Lelê Bortholacci
De onde surgiu a ideia de transformar a história do rock gaúcho em um documentário? Em que momento tu percebeu que essa história precisava ser registrada?
Lelê: Na realidade, eu tenho muito material guardado da minha época de produtor. Então, essa ideia surgiu de eu contar uma história mais da minha produtora, assim.
Mas depois eu fui concluindo que o universo é muito maior e, como eu tenho uma relação muito legal com muitos músicos da mesma geração — e a grande maioria deles trabalhou comigo, e os que não trabalharam comigo viraram meus amigos —, a gente resolveu chamar mais gente para poder contar essa história.
Mas o grosso mesmo, o caldo grosso do material de arquivo, são das bandas com as quais eu trabalhava.
Por que contar essa história agora, em 2026? O que mudou na cena ou na forma como ela é percebida que tornou este o momento certo para revisitar esse período?
Lelê: É que, na realidade, eu já tentava contar essa história. Eu, na realidade, conto essa história em pílulas, digamos assim, no podcast que eu faço, chamado Eu Quero Ser Seu Amigo de Novo. Mas lá é mais uma conversa mesmo.
Mexer no conteúdo, principalmente de vídeo, que a gente tinha e que eu tenho nos arquivos, e também em outras coisas que a gente pode ter com os arquivos do Grupo RBS, foi uma junção de fatores que acabou pilhando a gente a fazer o documentário.
Porque a RBS tem muita coisa legal de arquivo, só que eu tenho muita coisa de bastidores que ninguém tem. A RBS não tem, a Globo não tem, a MTV não tem. Mas eu tenho.
Como foi reviver essa história ao lado de artistas e pessoas que fizeram parte dela? Teve alguma lembrança ou relato que te surpreendeu durante as gravações?
Lelê: Viver essas histórias é sempre muito legal. Até porque a memória já trai um pouco. Porque a gente está falando ali de coisas que aconteceram há 30 anos, 25 anos. Então, às vezes, a gente lembra de uma história, mas não lembra dos detalhes dela.
E contar essa história com os envolvidos é muito mais legal. Primeiro porque tu tem mais de uma versão, ela pode ser mais rica em detalhes. E, segundo, porque a história sempre fica melhor contada quanto mais pessoas que fizeram parte dela contam.
Às vezes eu tenho uma versão diferente de uma história que eu vivi com outra pessoa, e não é nem por maldade, às vezes é por memória mesmo. Então, eu acho que, quanto mais envolvidos, mais fiel fica o relato.
Na tua visão, qual foi a principal transformação do rock gaúcho entre os anos 1990 e 2026? E o que permaneceu igual?
Lelê: É que, nos anos 90, tu tinha ali um gap. Porque, depois da geração dos anos 80, que foi a primeira, aquele primeiro boom do rock gaúcho, tiveram, no início dos anos 90, algumas bandas de sucesso, que surgiram e começaram a fazer barulho ali, como o Cidadão Quem, a Maria do Relento e tal, a própria Rosa Tatuada. Só que a gente não teve um boom assim, de várias bandas.
E isso passa a acontecer na segunda metade dos anos 90, quando vem aquela turma toda ali. O próprio Papas da Língua, que era uma banda que já era formada, vai dar o boom mesmo na segunda metade dos anos 90, junto com o Comunidade, o Acústicos & Valvulados, o Tequila Baby.
Então, aí tu tem uma cena que acaba efervescendo e já trazendo também a galera da virada do milênio, na sua segunda, digamos assim, essa segunda safra de bandas que surgiram depois da virada, como Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Fresno, Reação em Cadeia, o próprio Armandinho, que aí surge com a sua carreira solo.
Então, eu acho que tem toda uma coisa legal assim dos anos 90 para a virada para os anos 2000 e, claro, para hoje também. Até uma coisa que eu noto agora, mais recentemente, é que a gente vê que tem um movimentinho rolando de mais de uma banda. E isso é legal, porque todo movimento que é feito em conjunto, que a gente pode até chamar de uma cena, né?
Às vezes eu tenho medo de falar "cena", mas, quanto mais bandas envolvidas tiverem e a qualidade for legal dessas bandas, e eles pegarem juntos, a probabilidade de dar certo é muito maior.
Para encerrar, se alguém que não conhece a história do rock gaúcho assistir a série, o que tu gostaria que essa pessoa entendesse sobre a importância dessa cena para a música brasileira?
Lelê: Eu acho que, se a pessoa não conhece a história do rock gaúcho, ela vê o documentário e deveria se aprofundar no repertório dessas bandas, né? Procurar nos streamings e tal, para ouvir a qualidade da música feita no Rio Grande do Sul.
E uma qualidade diversificada, porque tu pode ver que cada banda tem a sua característica musical, e todas elas tiveram hits de rádio, músicas que viraram verdadeiros hinos para toda uma multidão de pessoas aqui do Sul. E é uma pena que a grande maioria dessas bandas não chegou a ter esses hits cantados por todo o Brasil.
Porque eu tenho convicção e certeza em afirmar que a qualidade musical das bandas gaúchas não fica nada a dever para nenhuma cena ou nenhum grupo de bandas de algum determinado estado do resto do Brasil.
Eu acho que todos os estados têm representantes muito consistentes e muito legais nas suas músicas, né? O Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Brasília, tudo certo, né? Todo mundo tem os seus ícones, todo mundo tem as suas bandas de extremo sucesso e tal.
Mas, se a gente fosse botar tudo junto para ouvir, montar umas playlists, cantar as músicas e ter isso como realmente uma diversidade de qualidade, o Rio Grande do Sul seria o primeiro colocado, sem bairrismo nenhum.
Rock do Milênio: conheça a nova série original da ATL TV
Com estreia marcada para 22 de outubro, às 19h, Rock do Milênio vai revisitar, em seis episódios, a efervescência do rock gaúcho na virada do milênio. Período marcado por uma nova geração de bandas que começou a ocupar palcos, casas de shows, rádios e espaços culturais de Porto Alegre e do Estado.
A produção reúne depoimentos de músicos e artistas que viveram essa época, além de histórias e registros de arquivo que ajudam a reconstruir os bastidores daquela cena. A proposta é olhar para esse período a partir de quem estava lá, contando histórias de uma geração que ajudou a transformar o rock feito no Rio Grande do Sul.
Novos episódios serão disponibilizados no YouTube todas as quintas-feiras, às 19h, após a transmissão da segunda edição do Pretinho Básico.

