É inevitável querer comparar Capitã Marvel com Mulher Maravilha. Não apenas pela ‘rixa’ já conhecida entre as editoras Marvel e DC, mas porque foram os dois primeiros grandes filmes de heróis com mulheres como protagonistas e antes de fazer uma análise, devo dizer que se a Mulher Maravilha é um sólido 8, Capitã Marvel é um 7,2 chorado.

Com uma cara, no mínimo, diferente do selo, chega aos cinemas a Capitã Marvel. À exceção da já manjada ‘jornada’ dos heróis apresentados pela primeira vez, a narrativa de apresentação da Capitã é, pra não dizer caótica, confusa. Ela já é jogada aos telespectadores com poderes e sendo treinada, o que, sinceramente, eu achei interessante para que o público se sentisse um pouco que nem a personagem, perdido (e também porque obviamente a sua ‘mutação’ é um dos plot twists do filme). Contudo, apesar dessa escolha narrativa de misturar o passado e o presente ser bem trabalhada – mas nem tanto, o roteiro do filme só não é ruim porque os personagens conseguem segurar o filme nas costas e ainda assim os fracos diálogos dificultam muito a nossa conexão com a Capitã.
Com um enredo simples, no filme, a heroína se envolve em uma guerra galáctica entre duas raças alienígenas. Vítima de uma emboscada, ela acaba caindo na Terra, chamada de C-53. O filme tem tudo que um filme precisa ter pra ser bom. Bons personagens, uma boa história, uma relevância gigante dentro do universo ao qual pertence, mas me pareceu sinceramente um filme feminino dirigido e escrito por um homem, mesmo com a diretora Anna Boden dividindo a direção com Ryan Fleck. Cheio de chavões, atuações fraquíssimas, pra não dizer rasas, e uma “mensagem de fundo” muito mal definida e estruturada, ele perde pontos por querer deixar extremamente explícito algo deveria estar naturalmente presente no roteiro e não está, diferentemente da Mulher Maravilha. Em contraponto, gosto do tom sério que deram à heroína (diferente de todos os heróis da Marvel), do fato de que que ela não tem uma trama romântica com ninguém no filme e do fato dela não ter sido sexualizada em nenhum momento, fatos que fizeram Mulher Maravilha perder pontos, pra mim.

A Capitã Marvel é definitivamente e indubitavelmente o herói mais poderoso da Marvel até agora, mas o roteiro do filme é fraquíssimo e não tem o poder que merecia e precisava ter pra que ficasse ainda mais claro o papel dela dentro do Ultimato (o último filme dos Vingadores). Quem roubou a cena no filme foi a amiga e companheira de Carol (a Capitã), a Maria, mas quem realmente merecia o protagonismo é o gato, que, aliás, tem uma importância muito maior do que parece ter – em um primeiro momento.

Filmes como este acordam novamente o debate sobre o que realmente é representatividade e, além do fato de ter uma mulher como protagonista, digo que não me senti exatamente representada pelo filme. Acho que entrei com uma expectativa “Pantera Negra” e saí com uma sensação “Homem Formiga” – que não é ruim, nem um pouco, mas que não acrescenta nada, além de ser um bom entretenimento. Pautas como feminismo, racismo e homofobia estão muito em alta, então é normal que estes temas comecem a surgir cada vez mais no universo do cinema e em qualquer outro universo relacionado a arte, mas só ter uma mulher como protagonista já não é o suficiente para realmente gerar um debate e para necessariamente ser representativo e nesse quesito o filme perde muito.
Super heróis já são batidos pois há uma volumosa gama de produções sendo feita e para se destacar como uma produção diferente é preciso ter, além de efeitos especiais e lutas, um roteiro inteligente e que realmente represente algo, neste caso, como as mulheres se sentem em suas batalhas diárias e isso só é possível se tivermos – tchanam – mulheres na pré produção, na produção, nos roteiros e na direção, caso contrário, não é representatividade, é Hollywood fazendo o que faz de melhor, usando pautas para ganhar dinheiro.
Eu não to dizendo que é errado ou que não é importante ter mulheres, negros e membros da comunidade LGBT representados nas telonas, claro que é, mas não é realmente representativo, se não for pensado por quem vive isso todos os dias. Foi um pouco do que senti na Capitã Marvel: um filme legal, que tem uma mulher “badass” e poderosa mas que não tem um roteiro igualmente poderoso e ”badass”, apenas um roteiro divertido para um filme que eventualmente vai passar na sessão da tarde.

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