Te desafio a assistir um episódio de Brooklyn 99 sem rir. É comum que a graça desmoralize ou diminua um grupo e acho que temos de aplaudir quando a comédia consegue ser ao mesmo tempo um recorte crítico sobre algo e que a graça seja apenas uma ferramenta usada pra desconstruir ou escrachar estereótipos sobre isso. Brooklyn 99 tem todas essas características.

Primeira coisa são as representações femininas na série.

Santiago: A Amy é uma representação muito comum de mulheres que, por estarem em um ambiente predominantemente masculino, se cobram o dobro e tem de estar sempre provando sua capacidade para os homens e para elas mesmas. Ela passa grande parte da série se sentindo incapaz, não merecedora de suas conquistas e muito ansiosa – além de sobrecarregada, o que demonstra sua insegurança e faz com que ela estude muito mais do que os outros e seja uma das detetives mais organizadas e inteligentes dali. Outro aspecto que é importante para entender o comportamento da Amy é que ela é uma latina vivendo nos estados unidos (filha de um policial), país que abertamente recrimina e segrega esse grupo e acho que seria um exemplo parecido com a Hermione sendo “sangue ruim” e por isso estar constantemente provando o seu valor.

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Rosa: a Diaz é a representação extrema de como são vistas (ou querem ser vistas) as mulheres que reprimem os seus sentimentos para se ‘misturarem’ em ambientes hostis e masculinizados. Ela amedronta, reprime seus sentimentos e afasta as pessoas, principalmente quando ela mais precisa. E em um dos episódios fica implícito que ela tem esse comportamento na delegacia, porque os vizinhos dela aparecem e a descrevem como sorridente, simpática e o oposto do que ela é naquele ambiente. Isso aparece também quando ela compra o cachorro pro Boyle e se apega a ele e essa visão mais dura que temos dela se desmistifica ainda mais quando ela se assume bissexual e começa a namorar uma mulher, o que eu acho sensacional e acho que, de alguma forma, estava planejado desde o início da série.

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Gina: A Linetti é a representação extrema das mulheres que são engraçadas para fazerem “parte do grupo”. É a mulher que quer tanto evitar se tornar uma piada que faz de todo mundo uma piada e isso, de forma alguma, deixa a personagem rasa ou vazia, pelo contrário. Ela é uma personagem super complexa, inteligente e muito leal, sendo a única que seguiu o capitão Holt quando ele saiu da 99. Mas ela é a unica da delegacia que não é detetive e muito do porque ela reforça sua alta autoestima o tempo todo e faz graça tem a ver com isso e como ela se sente em relação a isso. Ainda assim ela é, de longe, a personagem mais segura da série. Um dos meus momentos preferidos é quando o Jake e a Amy tem de explicar para as filhas do Terry de uma forma didática porque ele foi parado por um policial na rua (por ser negro) e essa é a resposta dela.

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Segunda coisa: as representações masculinas.

Acho que essa é a minha parte favorita. É muito inteligente a forma como os homens são representados na série (com uma masculinidade saudável) e como todo tipo de relação entre eles mesmos e com as mulheres são super saudáveis e humanas. A coisa que mais me chama atenção na série é que dos 6 americanos representados, os mais respeitados e admirados da série são DE LONGE os negros (sendo um gay), são também os dois com maior cargo, e eu não acho que isso tenha sido sem querer e é extremamente simbólico.

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Hitchcock & Scully : Dos quatro americanos brancos, héteros e padrões, os dois que são o maior estereótipo de “americanos” são os dois mais preguiçosos e que só estiveram envolvidos ao longo da série em dois ou três casos, sempre dormindo ou comendo, mas mesmo assim, eles também subvertem essa capa e demonstram bastante ao longo da série o carinho e afeto que sentem um pelo outro.

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Terry: O ‘sarg’ é um homem com o estereótipo escrachado de policial de seriado, com o físico monumental e o tamanho de uma parede, mas o comportamento dele é o oposto disso. É um homem negro, musculoso (sexualizado) e extremamente sensível e afetuoso. Pai de meninas. Viciado em Yogurt. Apesar de ser o mais sexualizado, ele já mostrou que é mais do que esse estereótipo, sendo uma figura respeitada na delegacia e que em vários momentos se mostrou ser o personagem mais equilibrado e com maior capacidade de auxiliar as pessoas que estão passando por problemas. Sem contar na competência dele como pai, quando eles vão para o turno da noite, ele reforça que não gostaria de trabalhar naquele turno pra estar presente pelas suas filhas e esposa e isso demonstra o valor que ele da tanto pra elas quanto pra responsabilidade de ser pai e marido.

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Capitão Holt. Eu adoro esse personagem. Policial negro e gay em uma época em que ambas as coisas eram sinônimos de preconceito e segregação (ainda são mas mais veladas hoje em dia) em um ambiente como a polícia dos Estados Unidos. Ele é parecido com a Rosa, no sentido de reprimir o que sente, mas a diferença é que ela tem esse comportamento mais sério tanto em casa quanto na delegacia. O fato de ele ser um cara que não demonstra tanto os sentimentos não impede, de forma alguma, que ele seja absolutamente empático e capaz de  e é um a forma de – justamente – fazer uma crítica de forma escrachada às pessoas que se tornam robôs por conta dos trabalhos e são incapazes de se expressar.

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Boyle: ele é um dos que mais quebra estereótipos, tendo vários passatempos e manias que podem ser consideradas “de mulher” (cozinhar e dançar) e ele não dá a mínima para o que pensam e isso é um padrão de comportamento dele na série. O desapego dos julgamentos externos. Ele não tem vergonha de expor o quanto admira o Jake e o mesmo acontece com os outros personagens, eles não sentem vergonha de sentir carinho um pelo outro. Isso faz da série tão inteligente a ponto de nem te deixar notar o quanto ela te faz refletir essa subversão de que homens não sentem e expressam, entre outros assuntos. Após a adoção, Boyle também se mostra um pai super presente e preocupado, lidando com as complicações que permeiam a vida do filho com muita paciência e compreensão e o momento que isso se mostra pra nós telespectadores é quando ele deixa de ir a uma missão com o Jake pra cuidar do Nicolaj. Fica evidente também ao longo da série que o Boyle se torna o herói do filho, mesmo que ele pinte esse papel pro Jake.

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O Peralta: Jake (como ele mesmo diz ao longo da série inteira) é um menino com problemas de abandono e que busca no Terry e no Holt as figuras paternas que não teve e em Boyle um irmão.O fato do Jake ter sido criado pela mãe mostra que ao longo da série ele respeita muito tanto as mulheres como figuras fortes quanto o espaço delas nas suas relações. Isso fica evidente quando ele diz pra Amy que gosta dela (essa é uma das provas da masculinidade saudável também). Quando ele toma essa atitude ele não faz nenhum grande ato, pressionando a, ele não stalkeia ela, invadindo sua privacidade, ele, apesar de ser imaturo, fala com ela sobre como ele se sente a respeito dela. E eu gosto da forma como a relação deles se desenvolve, porque a forma como ele demonstra que gosta dela é ingênua e quase pura, como uma criança que fica implicando com a outra mas ambos amadurecem muito e se fazem bem, como pessoas e como profissionais.

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Terceira é é a forma como os personagens se relacionam na série, tendo relacionamentos verdadeiros, complexos e que vão além de qualquer interesse seja ele sexual, monetário (ou, nesse caso, porque querem subir de cargo). As relações são genuínas. Normalmente em séries, principalmente de comédia, vemos as relações entre mulheres e homens como predominantemente sexualizada e isso é um padrão que passa longe de Brooklyn 99. No decorrer, as relações vão ficando ainda mais verdadeiras e complexas.

O Peralta poderia muito bem reduzir o Boyle ou se aproveitar dele (que é o padrão em filmes, o “valentão” bonitinho e popular e o “looser”) ao invés disso, ele “abraça” o Boyle. O Charles, por outro lado, quando arma a festa surpresa pra Rosa (que não tem ninguém e era exatamente o que ela queria). Ou o Jake quando ajuda ela a contar para seus pais que é bissexual. São amizades reais. Quando o Jake fica com ciúmes da Amy ele não surta ou é invasivo e possessivo, ele conversa com ela a respeito de uma forma bem madura e saudável. O capitão além de respeitado (não só pelo cargo) é admirado pelos outros personagens e aprende com eles em várias situações.

As relações deles são trabalhadas na base do crescimento pessoal que cada um deseja para o outro. Quando a Amy quer fazer o teste para ser promovida a sargento, ela recebe o apoio total do Jake (que poderia se sentir ameaçado de estar em uma posição inferior a dela) mas não. Ou quando o Terry não consegue passar no teste pra ser tenente e a Gina faz da vida dele um inferno, só pra quando ele consegue superar uma das pegadinhas dela, ele se sinta bem e esqueça da reprovação.

Meu ponto preferido é que a masculinidade e relação dos personagens é trabalhada a ponto de parecer totalmente saudável e ainda assim não ser nada idealizada. Não tem “o homem ou mulher perfeito” tem homens e mulheres normais, com qualidades e defeitos e que erram, acertam e aprendem. E questões como racismo e feminismo são abordadas de uma forma totalmente natural, porque é como se fizessem constantemente parte do enredo, não precisando ser um tópico ABORDADO (mesmo que implicitamente sempre presente).

Pra mim, o real propósito da graça é esse: ser inteligente nos estereótipos que desconstrói (por meio de subversões) e que escracha (com o objetivo de questionar) sem que isso se torne maçante, clichê ou perca a comicidade.

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