Death Note no Netflix

Quando Tim Schafer confessou ter se inspirado no filme Brazil, revelou algo que quem já conhecia a produção tinha certeza: Grim Fandango PEGOU muitos elementos do clássico cult de ficção científica. O game lançado em 1999 tem os enquadramentos, a atmosfera distópica, o movimento revolucionário e até o sistema de correio pneumático (que é sabotado pelo protagonista).

Se for um mínimo entusiasta dos games, Terry Gilliam — o americano mais britânico da história — deve ter ficado orgulhoso.

“Inspiração”, neste caso, é daquela tarantinesca que pega ideias de outros produtos culturais e as compila em um filme novo (ou nem tanto). E nem por isso Grim Fandango ou os filmes do Quentin Tarantino deixam de ser amados por público e crítica.

Plágios do bem existem aos montes, e resultaram em materiais diversos. Existem também os filmes pouco conhecidos do Oriente que foram trazidos ao Ocidentais por Hollywood, como O Chamado e O Grito, que podem ser consideradas adaptações de suce$$o.

Assim, quando foi divulgada a adaptação norte-americana de Death Note, a sensação de curiosidade se misturou com um certo temor: nem os cineastas japoneses conseguiram entender a complexidade que envolve o universo da série de mangá e anime mais popular que lámen com frango na ilha de Honshu.

Eu não sou fã da série, mas do pouco que acompanhei, senti a complexidade e profundidade dos assuntos tratados. É informação suficiente para sociólogos desenvolverem um trabalho de respeito sobre os valores, costumes e a sociedade japonesa depois do Plano Marshall.

O clima escolar em Death Note não tem nada a ver com Malhação ou filmecos da Mandy Moore. É um oceano de ideias e crenças habitado por arquétipos tipicamente japoneses povoa a franquia. Para mastigar tudo isso em um longa de 1h30, um desafio hercúleo está lançado. Se levar a história para uma cidade americana, por mais nipônica que ela seja, a chance de fracasso é alto.

Mais um filme adolescente

É esse o grande erro da adaptação lançada pelo Netflix. Nem os atores, escalados a dedo a partir de seriados adolescentes, parecem acreditar no que estão metidos. A reação do nosso Light ocidental (Nat Wolff) ao se deparar com o poderoso caderno da morte caindo em seu colo é emblemática: só falta rir com a voz do diretor ao fundo dizendo “Corta”.

Mas não era um making of, tudo aquilo era o filme rodando, tudo após os cortes dos produtores e a aprovação final da distribuidora… Apesar de toda a parte estética favorável, com ângulos, cores e luzes muito bem trabalhadas, não há nenhum momento muito convincente no filme.

Salva a dublagem interessante de William Dafoe revivendo seu Duende Verde, que desta vez era o espírito da morte que guia o protagonista em sua busca por tornar o mundo um lugar mais justo. Conhecidos como shingamis, essas entidades estão presentes tanto no xintoismo quanto no budismo, e formam parte do imaginário e da mitologia japonesa. A relação desses espíritos é algo que os japoneses entendem bem, e os ocidentais nem tanto.

Não teria sido melhor um plágio leve de Death Note? Inspirar uma produção nova, com mitologias ocidentais e coisas que coubessem no dia a dia do universo de um filme de terror colegial? Aí, talvez a escola em Seattle faria mais sentido.

Tanta gente já fez isso. Tarantino, Tim Schafer, As Aventuras de Pi e até O Rei Leão! Tanathos/Leto, Morrigan, Anúbis, as Queres, deuses da morte maias, astecas, tupis. Até a Santa Muerte  —  que define o conceito de Grim Fandango  —  caberia melhor no embasamento da produção do Netflix.

Se o filme fosse bom, todos ficariam encantados, e a equipe por trás poderia dizer que “agradece [Death Note] por ter sido a semente desta ideia”. No caso de um fracasso, ninguém iria dar atenção à produção, que seria sepultada no cemitério dos filmes ruins. Estaria ao lado de Howard, o Super Herói e A Reconquista. E descansaria em paz.