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O Batman configura entre os super-heróis mais adorados e lembrados. Não é à toa que é o personagem que teve mais adaptações para as diferentes mídias (cinema, desenhos, games) e é o personagem mais licenciado da Warner /DC Comics. Não há dúvidas de que ele é, de longe, um dos personagens mais pitorescos e lembrados quando o assunto é quadrinhos, super-heróis, em especial, por sua personalidade bem definida (memes de “porque eu sou Batman” e outras sátiras povoam as redes sociais).

A Batmania da década de 1960, com o pessoal na danceteria imitando a dança do Batman de Adam West ilustra a febre em torno do personagem. Há inclusive a celebração de um “Batman Day” (iniciado em 2014) não só nos Estados Unidos, mas também em outros países do mundo. A desconstrução aqui não se trata de criar uma polêmica nem um desgosto em torno do personagem (longe disso), mas apenas indicar uma perspectiva mais multidimensional a esse herói que tanto amamos. Então, três reconsiderações que podemos ter ao pensarmos em Batman:

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1) Super-herói ou herói?

Por definição, Batman é um herói e não um super-herói. Nildo Viana, professor da UFG que já escreveu bastante sobre super-heróis e superaventura, confirma a ideia de que o que distingue um herói de um super-herói são os poderes sobre-humanos. As características como exímio investigador, perito em artes marciais ou mesmo playboy bilionário não configuram como algo “sobre-humano”. Então, por definição, o Batman não é um super-herói, mas um herói (como Tarzan, Flash Gordon, Fantasma, etc.). Entretanto, por ele estar inserido no universo da superaventura (o mesmo mundo fantástico do Superman, da Mulher-Maravilha e do Flash) ele poderia ser considerado (e, na verdade, ele o é) um super-herói; tipo, agregado, não em suas origens. Sim, o Batman, diferente do Superman (o novo filme deverá provar isso), sangra!

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2) Herói ou rico mimado?

A fortuna de Bruce Wayne provoca um grande diferencial que possibilita o Batman, bem… ser o Batman. Conhecido por usar aparatos tecnológicos exclusivos que só o dinheiro compra, a grande pergunta é: o que faz um jovem bilionário arriscar sua vida nas ruas de Gotham, espancando e capturando bandidos e salvando velhinhas indefesas?

Será que o dinheiro bem aplicado em projetos sociais ou outras ações humanizadoras não poderia contribuir muito mais que abater bandidos um a um? Por que ele faz o que faz? Afinal, em que medida o que ele faz é de fato justiça, se não for vingança? (Diga-se de passagem, que a grande sina dos super-heróis não é a luta por transformação social, igualdade de direitos ou justiça social, mas sim manutenção do status quo e a defesa da propriedade privada, já afirmava Eco em seu livro Apocalípticos e Integrados. Então, na verdade, ao falar de Batman estamos falando de um rico proteger seus próprios interesses, o que não deixa de ser sedutor em nossa sociedade capitalista). Há quem o defenda como um “herói virtuoso”, referindo-se, inclusive à ideia de “virtude” de Aristóteles. Será?

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3) Rico mimado ou psicopata?

A justificativa recorrente que encontramos no universo mitológico do Batman, e que o transformou em “herói” em primeira instância, foi o assassinato de seus pais, quando criança. É “senso comum” nos quadrinhos que a morte dos pais na frente do jovem Bruce Wayne traumatizou o menino. E as justificativas que, vira e volta, retornam dali é a ideia de que “para que outros não sofram o que eu sofri”. Outra justificativa recorrente e que mantém o pique da narrativa é que, por muito tempo, nunca se soube quem matou os pais de Bruce Wayne. Isto é, foi um bandido qualquer.

Assim, volta a pergunta: em que medida a cruzada do Batman não é, no fundo, uma cruzada por Vingança, um trauma que ele não conseguiu superar e tenta, daí, abater todo e qualquer bandido que aparece (talvez, até como se visse cara a cara com o assassino de seus pais, toda a vez que vê um bandido). Embora o Wikipedia não seja uma fonte confiável (por ter risco de plágio e cópias indevidas de conteúdo), vale a pena conferir o que lá remete à “psicopatia”: “é a designação atribuída para um indivíduo com um padrão comportamental e/ou traço de personalidade, caracterizada em parte por um comportamento antissocial, diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controle comportamental ou, por outro, pela pertença de uma atitude de dominância desmedida”. Ué, não parece que o conceito descreveu o Batman?

Conclusão polêmica: Quem é o Batman? De um lado poderíamos afirmar que o Batman pode ser visto como um rico mimado que atua como herói (ou ainda anti-herói), considerado super-herói por estar no universo da superaventura, com altos traços psicopatológicos, cujo heroísmo virtuoso é questionável à medida que suas histórias dão margem a compreender sua ação como uma cruzada em busca de vingança. De outro lado, bem, o Batman é o Batman, e nós o amamos assim mesmo. Afinal, se não fosse sua presença marcante e bem definida (na Liga da Justiça), certos desenhos animados não seriam assim tão legais.

Por Iuri Andréas Reblin / Cult de Cultura

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