Na expectativa pelo Oscar buscamos resenhar todos os filmes indicados para a maior premiação do cinema norte-americano.

AVISO: muito provavelmente haverá SPOILERS.

É uma verdade universalmente conhecida que um filme inglês de época baseado em fatos reais que ocorreram na II Guerra Mundial está a procura de um Oscar.
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O Jogo da Imitação permanece fiel à regra, com seus atores ingleses sólidos, figurinos de época e a história de como Alan Turing – matemático genial, professor universitário, provável autista e homossexual escondido – descobriu o segredo de Enigma, o sistema de mensagens cifradas que a Alemanha nazista usava na guerra e que acabou ajudando a mudar o rumo do conflito.
O ator principal – Benedict Cumberbatch – tem um estilo de fala e pronúncia frio, quase glacial, em que parece congelar o tempo e nos levar com ele. Não fica arrastado, você se vê outra frequência apenas. Isso funciona extremamente bem na série Sherlock, da BBC, e em Star Trek, quando ele interpretou Khan. Mas em O Jogo da Imitação, junto com uma quase gagueira do personagem, a atuação fica apenas fria, e não glacial. É uma boa atuação, e nada impede Cumberbatch de conseguir seu primeiro Oscar, mas ele é um ator que merece mais, muito mais.
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De qualquer modo, o problema do filme não são as atuações, que são sólidas, mas sim um tipo de desrespeito com o espectador. Turing é responsável por construir uma das primeiras máquinas reprogramáveis da história, um computador, capaz de decodificar um código que possuía 159 trilhões de combinações diferentes que mudavam todo dia. O feito em si é incrível. Ele e a equipe fizeram isso em 2 anos e mudaram toda a história. Mas o filme não consegue mostrar isso.
Baseado numa das melhores biografias de Turing – publicada em 1983 – o filme falha em explicar o que exatamente a máquina fazia, e então nós – o espectador – ficamos olhando para um totem metálico cheio de alavancas como se fôssemos macacos olhando para um carro. Não faço a menor ideia de como a máquina funcionava. O filme não explica. O que nos contam é que ele era um gênio, difícil de lidar, solitário, homossexual (apesar do filme só mencionar isso e não aprofundar o tema). Mas o que vemos é um matemático que não aplica matemática e um computador misterioso que não sabemos como funciona.
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A solução do filme acontece num bar, num comentário aleatório. E todos se abraçam.
(Ingleses se abraçando. Dá para saber que não é um filme sério quando há ingleses se abraçando.)
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É um filme que se destaca não pelas coisas que aparecem no filme, mas pelas coisas que não aparecem. Turing era um corredor sério, e quase entrou na equipe inglesa de maratona nas Olimpíadas de 1948. Além disso era um apreciador do filme “A Branca de Neve e os Sete Anões”. Ele foi encontrado morto em sua cama em 1954 com uma maçã envenenada com cianureto pela metade no chão. Provavelmente suicídio.
Meudeus, como que deixaram isso de fora??
The Imitation Game desafia a inteligência do espectador. E da pior forma possível.