Na expectativa pelo Oscar buscamos resenhar todos os filmes indicados para a maior premiação do cinema norte-americano.

AVISO: muito provavelmente haverá SPOILERS.

Grande Hotel Budapeste é mais um filme do diretor Wes Anderson que se parece incrivelmente com um filme dirigido pelo diretor Wes Anderson. Isso não é exatamente algo ruim, quando se gosta do seu estilo. Wes Anderson é, talvez, o Tim Burton que deu certo.
The-Grand-Budapest-Hotel-Still
A história do filme é meio mirabolante, se é que há uma história. Em 1985 um escritor conta como quando em 1968 visitou o Grande Hotel Budapeste e conversou com seu proprietário, Sr. Moustafa. Esse por sua vez, contou a história de como veio a se tornar o proprietário do hotel, na década de 30, após uma série de aventuras rocambolescas com o concièrge do hotel, um tal Monsieur Gustave H., quando ainda era conhecido como Zero Moustafa, um rapaz pobre, imigrante e que trabalhava como garoto de recados e carregador de bagagens no hotel.
gustavesoldiers
Todo o filme é um tipo de ode à nostalgia. Ou quase uma meta nostalgia. Numa década de 30 em que um império Austro-Húngaro é dominado pelo nazismo (tudo apresentado em uma grande analogia) o Concièrge – um homossexual que troca favores sexuais com suas hóspedes anciãs e ricas – já é um tipo fora do seu tempo. Cheio de um cavalheirismo que estava acabando, numa época em que as piores coisas estavam começando a acontecer. Quando uma dessas anciãs morre repentinamente, ele se vê como herdeiro de um dos quadros da coleção dela; e, logo depois, acusado de ser o assassino. A partir daí o filme vira uma mistura engraçada de estilos de filmagem e de roteiro, tudo contado da maneira mais exagerada e circense possível. O exagero do filme é obviamente de propósito, mas algo me diz que essa apresentação cartunesca vai acabar afastando quem ver o filme, e não o contrário.
Screen-Shot-2014-03-14-at-2.40.23-PM
O brilho principal do filme é claramente seu desenho de produção. Wes Anderson é um perfeccionista nesta categoria, e todos os seus filmes têm direção de arte e cenários espetaculares. (Os Excêntricos Tennembaums talvez seja o que tem isso em menor conta, e também é – na minha opinião – o melhor dos seus filmes). Todos os cenários são uma pintura. Tudo é criado para dar a impressão de conforto. Todos os cenários são um pequeno hotel.
Tem como não adorar esta cena?
THE-GRAND-BUDAPEST-HOTEL-elevator-scene
Algumas coisas em Grande Hotel Budapeste são muito foda: a cena da fuga da prisão foi extremamente engraçada, e no seu modo de apresentar lembrou Charles Chaplin e os Irmãos Marx, com todas as piadas corporais dos filmes da década de 30. Também o grupo de concièrges espalhados pelo mundo dos hotéis, a Sociedade das Chaves Cruzadas (Society of Crossed Keys, no original), que os ajuda com informações, dinheiro, passagens de trem e (não menos importante) borrifadas do perfume preferido de Monsieur Gustave H.
A Sociedade das Chaves Cruzadas, este grupo bizarro de concièrges espalhados ao redor do mundo tem uma vaga semelhança com o grupo criado por Thomas Pynchon em “O Leilão do Lote 49“. No livro, há uma sociedade secreta de carteiros, que travam uma batalha histórica com outro grupo de entregadores de correspondência. (Sério, é um dos melhores livros de um dos melhores autores.)
o-GRAND-BUDAPEST-HOTEL-TRAILER
E por fim: ao final há uma menção a um autor, Stefan Zweig, e a ideia de que o filme foi feito baseado nas suas obras. Zweig foi um escritor judeu nascido no Império Autro-Húngaro que escrevia sobre como a cultura europeia estava em vias de ser destruída pelo nazismo. Obviamente ele teve que fugir do seu país, se refugiando em vários países e finalmente se estabelendo no Brasil (!) onde acabaria sendo encontrado morto junto com a esposa no que pareceu ser um suicídio duplo na sua casa em Petrópolis. A influência de Zweig parece estar em todo o filme, e a ironia com que ele escrevia está em todas as cenas e diálogos de Grande Hotel Budapeste.
Porém Grande Hotel Budapeste é tão bonitinho em tudo que os vilões não parecem tão vilanescos. E tudo fica parecendo um desenho animado muito bem feito com uma história muito engraçada. (Em defesa de Wes Anderson, o filme é uma comédia. O que mais eu esperava?)
O filme teve 9 indicações ao Oscar 2015: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Trilha Sonora.