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O Líbano é o país que mais recebeu refugiados nos últimos anos devido ao conflito na vizinha Síria. Muitos estão vivendo em condições de superlotação, sofrendo com estresse psicológico, receosos por sua segurança e sem condições de arcar com os custos dos cuidados médicos. Tivemos a oportunidade de falar com uma médica que foi voluntária no país e nos contou detalhes da situação dos refugiados e, principalmente, refugiadas.

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Mariana Sampaio Silva, 27 anos, é médica recém formada pela Universidade Adventista del Plata (UAP) e, atualmente, reside em Porto Alegre. Como parte da sua formação academica, a Universidade requisita dos alunos 8 meses de serviço voluntário à comunidade, que pode ser realizado em diferentes partes do mundo. Mariana tinha interesse em trabalhar com crianças e um professor instruiu-lhe a ir para o Líbano, onde a universidade tinha convênio. Conversamos um pouco com ela para saber como foi a experiência. Confira:

#ATLGIRLS: Sabemos que existem muitas diferenças entre os países do Oriente e do Ocidente. Você teve algum choque cultural? Como foi lidar com a língua e a cultura de um país  diferente da sua realidade?

Mariana: Não aprendi a falar árabe, mas depois de 8 meses meu ouvido ficou um pouco acostumado e as poucas palavras que eu aprendi me ajudavam muito. Na maior parte do tempo, eu tinha um tradutor que me acompanhava nas visitas médicas. Felizmente, no Líbano tem muitas pessoas que falam inglês e isso me ajudou bastante. Uma situação engraçada que vivenciei em relação ao idioma foi com o transporte. Os táxis do país vão andando pela cidade e os motoristas que decidem se eles querem levar você. As pessoas ficam andando até aparecer um táxi e buzinar. Então, várias vezes eu ficava perdida, sem falar a língua local e morrendo de medo por ser uma mulher sozinha num país desconhecido. 

#ATLGIRLS: Como é a postura dos homens em relação as mulheres no Líbano? O assédio e a violência contra a mulher fazem parte do cotidiano?

Mariana: O Líbano é um país muito seguro com relação ao assédio. Esse medo que nós mulheres temos de andarmos sozinhas na rua não senti nesses oito meses que estive lá. Eu andava sozinha o dia inteiro e nunca cheguei a passar medo como aqui no Brasil. Coisas corriqueiras como andar com o celular e carteira na mão, nunca assoviaram para mim, não ficam olhando de cima a baixo, nada disso. A maioria dos homens quando estão interessados em você, pensam muito em casar, convidam para almoçar em suas casas e conhecer a família. E por eu ser médica e estrangeira eles me respeitavam muito, eu colocava essa barreira. 

#ATLGIRLS: Como a cultura do Líbano vê a mulher? Como são as mulheres que vivem lá?

Mariana: Dentro do Líbano, temos uma realidade muito diferente: um a cada quatro habitantes é refugiado. É uma relação muito alta, então tem muito refugiado no país. O Libanês é uma coisa, o refugiado é outra. A mulher libanesa é muito mais ocidentalizada, ela já trabalha (não todas, pelo fato de ser a cultura arábe) andam todas muito bem maquiadas, pois para o arábe a aparência é tudo. Não a aparência como no Brasil, que valorizamos mais o corpo e a sensualidade. Para elas a aparência reflete o que você tem dentro de casa, se você é uma mulher bem maquiada e anda cheia de jóias quer dizer que seu marido te ama. Não existe demonstração de afeto pública, então, elas demonstram que estão sendo amadas pela aparência. As mulheres refugiadas que eu vi eram sírias e iraquianas, em sua maioria. Vi muita desigualdade, a mulher é um tratada como um nada, servem basicamente para reproduzir, cuidar dos filhos e fazer comida. Muitas delas se sacrificam e dão tudo que tem para cuidar dos filhos. Trabalham como escravas para chegar no final do dia com um ticket para alimentação.

#ATLGIRLS: Teve algum caso envolvendo mulheres refugiadas que te deixou chocada?

Mariana: Vi vários casos de mulheres espancadas que eu tive que cuidar, eu ficava morrendo de raiva e não podia fazer muita coisa. Teve uma paciente que os filhos dela pediram para visitá-la, por que ela estava mal. Ela tinha batido a cabeça e nem lembrava dos filhos; teve um caso de perda de memória. Quando eu cheguei e conversei com ela dava pra ver as marcas no rosto e no corpo da agressão que ela sofreu pelo marido. Ele jogou ela contra a parede e também chutou a cabeça dela. Foi muito triste o que eu vi entre os refugiados.

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#ATLGIRLS: Por ser mulher, acha que teve mais receptividade com essas mulheres?

Mariana: Com certeza! Foi uma grande vantagem que eu percebi. Por ser médica e mulher consegui atender homens, que me respeitavam por ser autoridade; mulheres, que me respeitavam por ser mulher e com crianças, por ser uma figura materna, apesar de ainda não ser mãe. Há necessidade de médicas voluntárias, não somente no Líbano, mas para trabalhar com refugiados. Eles respeitam a mulher empoderada, com formação acadêmica, com autoridade. Pode ser que a maioria dos homens não goste, mas eles respeitam. 

#ATLGIRLS: Na área médica, as necessidades das refugiadas eram mais no âmbito emocional ou físico?

Mariana: Com certeza emocional! O país está superlotado, aqueles que saíram do campo de concentração têm muitas ONG´s que os ajudam providenciando acompanhamento médico. O que falta para eles é o carinho, o cuidado e mostrar para eles que -por mais que eles estejam como refugiados, sem pátria e sem bandeira- eles têm um lugar. Comprar um bolo para uma casa com 5 ou 6 crianças, comprar brinquedos, dar um abraço numa mulher grávida, comer a comida das mulheres e ver elas se sentindo valorizadas. Como médica de família, que era o que eu fazia nas visitas, eu podia criar um vínculo emocional muito forte com elas. Eu esperava que elas se sentissem valorizadas, por que é isso que falta nos refugiados, o sentimento de valor.

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#ATLGIRLS: E o que acrescentou na vida da Mariana essa missão? O que você diria para as pessoas que pensam em fazer o mesmo?

Mariana: Chorei muito, me senti de mãos atadas e inúmeros dias eu olhava pra janela e pensava “não estou fazendo nada”, por que o trabalho de visitas e “empoderamento” não só para mulheres, mas também para crianças, você não vê resultados em oito meses. Entretanto, me fez crescer muito. Percebi que tenho limites, que posso ainda me superar e que eu sou bem mais forte que eu pensava. Recomendo a experiência para quem está pensando, não pense duas vezes, apenas vá. Se a gente pensa e racionaliza vamos encontrar inúmeros contras e estando lá sozinha, eu orava e pedia para que Deus me usasse da melhor forma. Espero um dia ver esses resultados, quem sabe né?

Por fim, Mari nos contou uma história. Ela foi para o Líbano por meio de doações e conseguiu quase o dobro do valor que estava planejado. Ela achava que o dinheiro fosse a maior necessidade das pessoas, mas ao chegar lá percebeu que não era -apesar de ter algumas pessoas pedindo. Geralmente, Mari não dava dinheiro para as pessoas, ela pagava exames, almoços, etc. Uma família atendida por ela, constantemente lhe pedia dinheiro e ela teve a idéia de arranjar um emprego para a filha mais velha dessa família. Uma médica ia se casar e precisava de uns prendedores para fotos; Mari comprou os prendedores e ensinou a menina a pintar um noivinho e uma noivinha nos prendedores e prometeu um dólar para cada um que ela fizesse. No dia que a menina foi entregar os noivinhos prontos, Mari entregou o dinheiro e falou “Isso é seu primeiro dinheiro, não é para sua família, é para você. Separe o que é de Deus e depois você pode começar a produzir mais e ficar mais independente.”

“Se eu consegui empoderar uma, já valeu muito a pena.” Mariana, sobre a história.

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