Toda vez que me perguntam o que faço da vida o sentimento que surge não é o de orgulho, talvez por uma construção social-familiar de que trabalho de verdade é aquele que tu bate cartão das 9h ás 18h, porém faço a melhor expressão facial que consigo reunir e respondo: “sou modelo, ah, e blogueira também”. Já ouvi as mais inusitadas réplicas, por exemplo “modelo? De que?“, obviamente porque eu sou gorda e tenho 1,70 cm, ou “tá, mas o que tu realmente faz? tipo, de trabalho mesmo”, dependendo do meu dia relevo, xingo no Instagram ou deito na rede e reflito na vida.

As perguntas que mais tenho recebido no meu Instagram (@falabrigitte) são relacionadas a ser modelo plus size, como eu comecei, qual é minha agência, que conselho eu dou pra quem quer começar na carreira. Já tenho mais ou menos a resposta padrão, que é a que eu vou dar pra vocês aqui, mas também vou acrescentar algumas verdades.

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Há 2 anos atrás eu começava o meu blog e no início, eu era a rainha da problematização, queria falar sobre questões sociais, questionar o status quo, comunicar sobre comportamento e etc. Chegou a um ponto que comecei a perceber que cada vez que eu tinha um bloqueio criativo eu tendia a produzir conteúdo de moda, por ser um assunto que fluía. Amava falar sobre red carpets e alta costura, foi então que o lance da moda começou, consegui meu primeiro trabalho fotográfico para uma loja multimarcas em Novo Hamburgo, a demanda começou a crescer, comecei a gostar mesmo de fazer fotos. As coisas foram andando assim até eu decidir participar do concurso Top Model Plus Size RS, onde tive essa primeira experiência de concorrência de mercado, afinal era um concurso, todo mundo quer ganhar, mais ou menos como os castings da vida, é uma vaga pro job que todo mundo quer.

Fiquei em segundo lugar no concurso, o que pra mim foi ótimo. Foi ótimo pra minha confiança como profissional, entendi que eu realmente poderia fazer isso, eu poderia ser modelo, eu poderia entregar um trabalho de qualidade para as pessoas. Depois assinei com a Passarela Brasil, minha agência mãe, que me apresentou para o mercado paulista, e dentre das opções que eu tinha, decidi assinar com a ELO management.

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Aqui estou, em São Paulo, longe de tudo o que eu conhecia, não vou jogar a “carta da saudade” ou a clássica da “guria da cidade pequena que veio pra cidade grande“, porque essas coisas realmente não colam comigo. Sempre fui a louca do viajar sozinha, se eu quero consigo, e essas coisas do gênero, porém querida, às vezes é foda ter que fazer tudo sozinha, sem ninguém pra se escorar, fala sério, é muito bom chegar em casa e ver que alguém lembrou de comprar a massa que faltava, alguém estendeu as tuas roupas pra ti, alguém se importou se tu tava bem.

Blá blá blá. Sobre a profissão modelo, afinal vocês querem ler sobre isso, certo? Às vezes eu me sinto como uma dona de casa dos anos 50: ninguém quer saber se tua vida tá difícil, o que o povo quer é que tu seja bela, sorridente e entregue a bosta do trabalho! O que eu não reclamo, afinal, o povo tá pagando, então tem que ter um resultado bacana, mas ninguém te prepara pras partes fodas, só te atraem pro glamour, pros eventos, pras produções, que é 5% do trabalho. Lembre-se, há uma preparação intensa para que um simples clique agrade o cliente, então a partir do momento que tu recebe a proposta do trabalho, pesquise a marca, público, perfil, o que eles esperam de ti, poses na frente do espelho, cuidados intensos com corpo, pele e cabelo, o que particularmente não é o meu forte, porque eu apenas não tenho muita paciência.

Se tu quer uma carreira daquelas longas e, quer ser respeitada na tua área, as coisas são bem difíceis, sair de casa pra outro estado ou outro país é o menor dos teus problemas, não saber quando vai vir o próximo trabalho, se vai pagar as contas, se vai aguentar ser sozinha; a indiferença das pessoas ao teu momento da vida, o fato de ter que abrir mão de um monte de coisas por um lance que tu nem sabe se vai dar certo, a pressão de ser sorridente o tempo todo, cativar o cliente, até nos teus piores dias. De novo, tem horas que cansa, e não quero nem chegar aqui no mérito de rejeição, que pode ser bem foda se tu não sabe lidar com isso.

Se eu amo o que eu faço? Amar é uma palavra muito forte, eu gosto bastante. Na real eu gosto da sensação de ver o meu rostinho estampado na campanha de dia das mães da Marisa, que a propósito, a ruiva sorridente dos anúncios é esta que vos fala. É narcisista que se fala? haha. Falando sério, minha relação com a minha profissão é bem de amor e ódio, o que pode ser por causa da minha personalidade que não sabe o que quer. Tem dias que eu acordo e vejo alguns trabalhos que fiz e penso “sou foda“, e tem dias que eu não tenho nada pra fazer e fico enlouquecendo por não ter um cartão pra bater.

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Quer um conselho? Não joga a carta da fama, querida, porque o tombo vai ser feio. Não vai nessa que vai ser fácil, vai ter dias que tu vai pirar real oficial, que tu vai perguntar aos céus o que tu fez para merecer tão cruel vida, mas vai ter pequenos momentos onde tu vai ver o teu trabalho por aí, o respeito das pessoas por ti, e vai valer a pen. Well, mais ou menos, no meu caso vale mais a pena a minha conta bancária positiva.

2 beijos, Lê.

@falabrigitte

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