dinheiro

Eu faço parte daquela geração que não aprendeu a separar as tarefas pessoais das profissionais. Sério. A gente tenta, mas é praticamente impossível. Talvez porque a gente trabalhe demais (o que eu não acho que seja o caso) ou talvez porque a gente não saiba organizar com precisão e foco o nosso tempo útil, o que provavelmente é a real causa pela qual essas confusões e misturas acontecem. Em um terceiro caso talvez seja uma mistura do excesso de trabalho com o excesso de afazeres e a falta de organização, o que culmina em uma vida de tarefas não cumpridas, deveres pra fazer e metas que estabelecemos com frustrações que não acabam.

Às vezes eu queria pausar as minhas rotinas. Eu não sou tão arrogante a ponto de pensar que isso é uma vontade só minha. Tá, eu sei que não sou só eu. Eu sei que todas as gerações de todas as épocas sentiram isso. Eu sei que absolutamente TODO MUNDO já sentiu isso em algum momento da vida. Mas eu não falo nem em relação ao excesso de coisas pra fazer e o cansaço que isso gera, mas em relação a não saber administrar bem o direcionamento do meu tempo e sentir que estou perdendo várias coisas importantes.

A gente passa a vida inteira procurando formas de conseguir juntar dinheiro pra fazer aquilo “que a gente realmente quer“, que raramente é o que a gente faz e a gente esquece que o dinheiro compra um carro automático, compra um tênis que tá na moda, compra um sushi que a gente quer comer, ele compra até o nosso deslocamento entre a nossa casa e aquela festa que a gente esperou a semana inteira pra ir, mas dentro dos clichês mais bregas e batidos, ele não compra o tempo que a gente perdeu. Ele não compra a primeira vez que a sua afilhada conseguiu escrever seu nome e você mal pode dar atenção. Ele não compra a primeira vez que seu afilhado comeu brócolis e surpreendentemente adorou. Ele não compra aquela festa de família que você não sabia, mas que era a última que você veria a sua avó – mas você não foi porque tinha que trabalhar. Porque tinha ensaio do teatro ou porque você tinha que ir ao aniversário do seu amigo que você não via há longos anos, por culpa do trabalho também. Ou porque você tinha aquele curso de inglês que você fez pra planejar a sua viagem que acabou não saindo também pela sua falta de organização.

Eu me pergunto se todos sentem isso. Se todos sentem que não aproveitam a família como deveriam e que não conseguem se concentrar no trabalho porque não aproveitam a família e se martirizam com as culpas que isso gera; Se todos sentem que na grande maioria das vezes falham com os amigos pelo excesso de coisas pra fazer que o trabalho exige; Eu me pergunto se todo mundo já chegou aos 30 e olhou pra trás e pensou “eu queria ter aproveitado mais aquela viagem”, “eu queria ter ficado mais tempo com a minha mãe, com o meu pai”, ” eu queria ter tido mais tempo pra pensar na minha saúde ou na minha vida amorosa”. “Eu queria ter dito mais vezes que eu amava a minha avó, meu avô, minha afilhada”. “Eu queria ter feito uma tatuagem e não fiz”.

Quantos arrependimentos a gente precisa ter até que a gente faça algo que de fato vai ser a virada da chave da nossa vida?

A gente passa anos nas mesmas rotinas que caminham entre trabalho e dormir. É como se a gente só acordasse, fizesse o que tem que fazer no trabalho, fosse dormir e depois voltasse a viver todo esse ciclo de novo. E de novo. E de novo. E de novo. E a gente sempre deixa o que mais importa pra depois: a nossa vida. A gente deixa tudo pra depois. A nossa família. Nossos amigos. Aquele curso de francês que a gente prometeu começar. A gente deixa o nosso sonho de ir pra Tailândia ou pra Buenos Aires ou pra Maceió pra depois e quando a gente acorda, a gente tem 50 anos. A gente tem 50 anos. Mil sonhos que a gente já não tem mais condições de realizar, porque montou uma família com alguém que talvez a gente nem ame tanto assim e tem os filhos e outras prioridades. A gente acorda e perdeu 50 anos correndo atrás e se desgastando por coisas que não importam.

Acho que eu dei a sorte de descobrir cedo as diferenças entre valor e preço e queria propor que todos que estão lendo esse texto pensassem nisso. No fim, o dinheiro realmente compra tudo. Tudo mesmo. Menos o que a gente realmente precisa e realmente quer: tempo e leveza pra viver.

Pra ser feliz a gente só precisa de coragem pra começar.

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