onibus

“Mas que porr.. que merda de barulho é esse?”

Toca o despertador do meu celular. Mais 10 minutos. Só mais 10. A ideia de levantar me parece tão dolorosa quanto a lembrança de que eu não tenho conseguido tomar café e de que o excesso de energético não tem me feito bem nos últimos tempos, então, já começo a pensar em alternativas criativas para me manter acordada durante o dia. Tudo isso com os olhos ainda fechados, não tomei coragem para abri-los.

Depois de clicar quatro vezes no botão de adiar ou no primeiro botão que meus dedos acham depois de fuçar embaixo do meu travesseiro. Decido, enfim, abrir meus olhos. Hoje eu tive uma noite daquelas: passei a madrugada inteira tentando desesperadamente dormir, falhando miseravelmente em cada tentativa frustrada de fechar os meus olhos.

Já se foi uma hora pensando em como eu ia resolver a situação atual desse relacionamento confuso que eu tô vivendo. A segunda hora eu gastei escrevendo, porque depois de refletir eu preciso produzir. Logo eu começo a ser tomada, em uma dimensão completamente desproporcional, por um sentimento de que tudo vai dar errado. Existe uma teoria de que as três da manhã é a “hora das assombrações”. Eu não acredito nessas coisas. De todas as assombrações fantasmagóricas ou sobrenaturais, já bastam as da vida real. Já basta a quantidade homérica de merdas que a gente tem que digerir diariamente: a lava jato, os moradores de ruas ignorados por toda a população, a falta de alimento pra boa parte das crianças marginalizadas em ruas que a prefeitura esqueceu de olhar, que a gente esqueceu de olhar, e, que a gente segue esquecendo de olhar. Os bares cheios de pais de família prontos pra voltar pra casa e encher a mulher de soco. Mais uma mulher morta nas mãos de um vagabundo que deixou a droga tomar conta da sua essência. De todas as assombrações, me basta a insônia e a ansiedade e todo esse meu caos interno e esse caos externo que a gente vive no nosso cotidiano.

Depois de me revirar sem parar embaixo do cobertor que me protege do frio severo do lado de fora, eu decido que realmente não dá mais pra protelar. Eu tenho essa mania de protelar até o ultimo momento. “Será que eu realmente preciso acordar?”, a pergunta que eu me faço todos os dias. Precisa. Você precisa acordar pra trabalhar. Precisa acordar pra pagar as últimas parcelas daquela fast fashion com um logo da cor da paixão (ou do sangue), que te fez mais uma das escravas de boletos deles e por conta de todas essas dívidas, por conta daquela TV que você comprou pra assistir o Netflix, ou daquele ar condicionado. “Desgraçada. Quem mandou querer televisão no quarto?

Conto até três, mas no dois já to em pé, se não eu ia acabar nem levantando mesmo. Visto a primeira combinação que encontro no meu guarda-roupa, o lado bom de ser monocromática é que não tem mistério. Qualquer peça serve.

Desço pra tomar um achocolatado, já que o cheiro de café me lembra do teu beijo e desde que você não me beija, eu não consigo tomar café. Procuro um leite dentro da geladeira. Falho. Logo procuro alguma fruta perdida dentro das gavetas geladas no refrigerador. Falho de novo. Até penso em passar um café, mas não adianta, ele não ficaria igual ao seu e eu falharia. Desisto.

Antes de sair de casa, pego aquele guarda-chuva pequeno, que cabe na minha bolsa. Aquele meu osso quebrado não para de latejar. Demorei alguns meses pra entender que isso era sinal de chuva. Ao pensar nos meus ossos quebrados, logo me lembro da minha avó e de como eu sempre duvidei das suas curiosas dores no joelho e da sua capacidade sobrenatural de adivinhar quando vinha chuva por aí. Talvez não fosse tão sobrenatural assim, talvez não fosse nenhum dom, talvez fosse só porque o joelho dela realmente latejava quando vinha chuva, assim como o meu osso lateja.

Ando a passos largos até a parada mais próxima da minha casa. Desço a lomba contando as pedras do paralelepípedo que asfalta a minha rua pra enxergar o tempo passar mais rápido, enquanto isso, no meu ouvido eu escuto os grandes clássicos dos anos 90 em uma playlist aleatória do Spotify. Logo troco a playlist, axé demais pra essa hora da manhã. Coloco aquele velho rock que aprendi a ouvir com meu ex-namorado mas que hoje só me faz lembrar de cheiro de vômito e copos de plástico naquela casa noturna tradicional aqui da cidade. Troco novamente de playlist. Cheiro de vômito só me lembra que eu não tomei café e logo enjôo. Coloco aquela playlist que me lembra de alguém que eu não quero e não devo lembrar. Que ideia imbecil. Sofro – rapidamente. Mal consigo escutar a primeira frase. Aperto o pause. Será que um dia eu vou conseguir ouvir novamente? Troco de playlist ou desisto de ouvir qualquer coisa hoje?

Chego na parada de ônibus, lá esperando já tem um grupo surpreendentemente grande de senhores e senhoras parados. “Puta que pariu”. Logo penso na demora que eu vou ter pra passar na roleta. Cinco, 10, 25 minutos e nada dessa porcaria de ônibus. Os senhores até já se renderam e pegaram a boa, velha e absurdamente cara lotação. Eu sigo firme e forte. Do outro lado da rua, em uma escola, uma mãe que parece ser nova demais pra ser mãe, ignora uma criança mal educada que passeia de forma inconsequente entre o meio fio e a rua, sem nem olhar para os carros. A mãe tampouco olha. Parecia preocupada demais flertando com um pai que também ignorava sua filha, e que ,eu tenho quase certeza, que usava aliança. Nada de novo sob o sol – infelizmente.

Um ônibus vem em minha direção. Recolhe. “Tá de brincadeira!“. Mais de 30 minutos esperando. Enquanto eu ainda tô irritada murmurando qualquer xingamento pra empresa de ônibus e para prefeito novo da cidade, o meu ônibus finalmente chega. Tiro a alça da mochila do braço esquerdo pra não ficar empacada na roleta. Acredite, eu já fiz isso muitas vezes. Entro no ônibus e sento naquele lugar que fica de frente para todos os passageiros. Gosto de observar as pessoas no ônibus. Logo, entra uma senhora que não tem onde sentar e eu penso em fingir que não vi, mas logo lembro da minha avó e das suas dores no joelho, então, resolvo dar meu lugar pra ela. Olho pela janela e vejo umas crianças na sinaleira pedindo dinheiro. Uma menina se oferece pra segurar minha mochila. Vejo uma moça dando um pedaço de pão para uma das crianças, que beija o pão e agradece olhando pra cima. Sucumbo.

A gente passa a vida toda vivendo no morno e no meio merda. Penso na sorte que tenho de ter um celular. De ter um emprego. De ter uma cama. De ter um guarda-chuva. De conseguir ouvir. De ter lembranças que ajudaram a construir parte de quem eu sou. Agradeço. Sigo o dia.

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