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Meu pai sempre sonhou em ter um filho homem. É consenso que praticamente todo homem apaixonado por futebol sonha em um dia ter um filho para compartilhar sua paixão. O sonho do meu pai se realizou em 2002, meu irmão nasceu. Porém, antes dele, meu pai teve duas meninas: eu e minha irmã mais velha. Gosto de contar essa história, por que apesar do meu pai esperar um filho homem ele nos ensinou igualmente a jogar futebol, as regras do jogo e, principalmente, que futebol não tem gênero. Com o tempo as piadas foram surgindo; eu e minha irmã fomos inúmeras vezes alvos de preconceito por sermos mulheres num meio dominado por homens.

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Até hoje isso me incomoda. O que me conforta é saber que não estou sozinha nessa luta, nos últimos dias, um grupo de mais de 50 jornalistas esportivas deu a aula que todos nós precisávamos ter há tempos: a do respeito. Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, elas soltaram o grito que estava engasgado para todas: #DeixaElaTrabalhar. Centenas de comentaristas já deram “explicações táticas” para mulheres em transmissões. E  outras centenas de narradores já fizeram comentários igualmente machistas. E milhares de torcedores já ofenderam repórteres. Tudo isso sempre sendo justificado com a típica frase: “É só uma piada“. Uma novidade para você que continua dando essa desculpa: o tempo que as mulheres aceitavam essas “piadinhas” passou.

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Nos últimos dias mais um episódio desagradável para as amantes de futebol, um comentário infeliz durante a transmissão do amistoso da seleção brasileira contra a Alemanha por parte de Maurício Noriega na transmissão do SporTV: “Para as crianças e mulheres que não sabem o que é linha de 4 ou linha de 5…”, disse ele. Prezado Maurício, não estou aqui para te crucificar (você já fez seu pedido de desculpas e sua explicação) você só é mais um produto dessa sociedade que ainda reproduz esse tipo de pensamento sem pensar no contexto, sem pensar no quanto essa frase foi carregada de preconceito. A maioria das mulheres provavelmente não sabe o que é linha de 4 ou de 5. Mas, pasmem! Boa parte dos homens também não sabe. Aliás, uma imensa parte dos amantes do futebol não sabe. E não tem problema algum, porque não precisa ser especialista em tática para gostar de futebol.

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Está na hora de entendermos que as coisas estão mesmo mudando. Que se antes era engraçado pedir para uma mulher que gostava de futebol explicar o que é impedimento, agora não é mais. Que mulher pode entender da linha de 4, de 5, do falso 9 e dar um nó tático em qualquer um que duvidar disso. Deixo aqui uma lição que aprendi com o meu pai -ele não precisou falar para me ensinar- apenas me deixou ser quem eu queria ser, me colocou dentro do campo sem pensar que eu era uma menina. Homens apenas deixem a gente ocupar um espaço que também pode ser nosso, apenas nos deixem torcer, jogar, trabalhar. Me permitam que, como mulher, ensine uma linha tática do futebol para vocês: O RESPEITO.

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