Chape

Quando a gente esquece o quanto a vida é passageira, frágil e efêmera, lá vem a morte, como só ela, nos fazendo lembrar isso. Ontem só o silêncio parecia um bom lugar pra se estar, pois era difícil demais pensar em alguma palavra que pudesse oferecer o mínimo de conforto pra qualquer pessoa. Ao meu redor as pessoas choravam enquanto eu me encolhia dentro da minha insignificância pra pensar que a morte é só mais uma etapa da vida, uma etapa difícil demais pra quem fica. Doeu demais em mim. Doeu em mim, mesmo que eu acredite que temos uma missão aqui em nosso tempo de vida. Doeu em mim, mesmo que eu saiba que as coisas acontecem por um motivo. Fui tomada por aqueles velhos sentimentos do luto, a incerteza, a descrença, a injustiça, a raiva e uma dor que só aumentava enquanto eu via os “e se…” em cada postagem de Facebook e tweet que eu abria. Sucumbi.

Cheguei em casa. Deitei na minha cama e repensei toda a minha vida. Nós somos uma porção de escolhas que fazemos. Nós somos “e se..” diários. A vida não é um sopro. A morte é. Ela é um soco repentino na nossa barriga. Ela nos recorda que somos ossos e carne, como em um bom episódio de CSI. Ela nos recorda sobre a nossa pequenez, pessoas seguem pegando seus ônibus, acendendo e apagando seus cigarros, indo para o trabalho, o dia segue amanhecendo. Ela nos lembra de que temos que viver cada dia como se fosse o último das nossas simples e extraordinárias vidas. A morte não nos espera tirar aquele ar condicionado novo e recém comprado da caixa, a morte não nos espera pagar aquele boleto atrasado. A morte não nos espera aproveitar o tempo com as pessoas que nós amamos, ela só chega. De uma hora pra outra. E o seu ar condicionado? E seus boletos? E seus amigos da faculdade que você estava pra marcar de ver? Não deu tempo.

Não morreram jornalistas, jogadores e profissionais. Não. Morreram pais e maridos dedicados, morreram amigos leais e morreram filhos que dão orgulho aos seus pais. Morreram pessoas. Seres humanos. A dor que eu senti, foi como a dor que senti na Kiss. Uma dor sem explicação, porque, de fato, eu não conhecia ninguém dentro daquele avião ou daquela boate, mas no fundo eu conhecia. Eu conhecia, porque, no fundo, somos a Chapecoense. Nós estamos na D, na nossa vida, em vários momentos dela. Mas nós aprendemos a nos reerguer com garra e com a ajuda dos nossos amigos. Nós sonhamos e com muita força de vontade, nós sabemos que podemos alcançar nossos sonhos. Nós conquistamos as pessoas pelo nosso carisma, pela nossa alegria, pela nossa capacidade de levantar depois de uma D, depois de uma queda.

Desse aprendizado fica a nossa resiliência, que no dicionário é a capacidade que um corpo tem de voltar à forma original depois de sofrer grandes abalos, mas que eu enxergo como a nossa capacidade de recomeçar. A nossa capacidade de recomeçar depois de um sofrimento como a morte. A nossa capacidade de recomeçar lembrando dos sorrisos dos nossos companheiros que se foram. A capacidade que temos de acordar depois de acreditar que não conseguiríamos. A nossa resiliência é impressionante. Que fiquemos com o amor diante da certeza de que a vida segue, diante da certeza de que aqueles velhos sentimentos do luto como a incerteza, a descrença, a injustiça são subitamente substituídos por uma fé que a gente nem sabia que existia em nós, uma fé de que, mesmo com tanta dor, mesmo com tanto sofrimento, mesmo com tantas perguntas sem respostas, nós conseguimos seguir em frente. Diante da certeza de que enquanto houver amor, não estamos sozinhos nessa caminhada esplêndida que é vida.

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