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Comemore torcedor brasileiro: as entrevistas do #pénaestrada estão de volta!

(Caso você não saiba, ano passado fizemos uma série de entrevistas com mulheres incríveis que escolheram locais exóticos ou pouco comuns para passarem uma temporada morando. E o melhor: elas foram SOZINHAS! Teve linda morando na Turquia, no Vietnã, no Marrocos, na Finlândia, na Índia, na Ucrânia e teve até italiana falando sobre morar no Brasil.)

E para começar bem o quórum de maravilhosas que vamos apresentar esse ano, conversamos com a Pati, uma paulista coisamaisquerida que passou três meses buscando suas origens no lugar que usamos de exemplo quando queremos falar de algo beeeem longe: o Japão. Vem ver o que ela nos contou:

Pati, conta pra nós quais cidades tu conheceu no Japão e por quanto tempo tu ficou lá?

Nossa, passei por muitas cidades! No total fiquei quase 3 meses no Japão. Passei por Okinawa, Quioto, Nara, Arimatsu, Osaka, Tóquio e Fujino.

Como foi a escolha do local, por que Japão?

O Japão é a terra dos meus avós maternos, especificamente Okinawa, onde meu avô nasceu e morou antes de imigrar para o Brasil. Quando eu comecei a pesquisar o Shibori, técnica milenar de tingimento artesanal japonesa, adentrei nas memórias da minha família para entender a cultura e as tradições que a técnica carrega e que fazem parte do meu cotidiano. Neste processo, me deparei com cartas e histórias sobre meus antepassados. Com todas as descobertas sobre minha família e os anseios em conhecer in loco a técnica, ir para o Japão foi inevitável. Fui pra lá em busca das minhas raízes, para reestabelecer o contato com minha família de lá, que foi perdido há 20 anos, e redescobrir minha identidade enquanto artista nipo-brasileira.

Shibori indigo

Olha que lindo o trabalho dela!

O que mais te encantou e o que mais te desencantou no Japão?

O Japão é outro mundo! Em nenhum outro país tive uma experiência tão intensa como eu tive lá. É uma explosão de cultura, cores, ideogramas. Tudo é diferente: a maneira de se vestir, de falar, de se comportar. O tempo é mais lento (menos em Tóquio), tem o contraste do barulho da cidade versus o silêncio e contemplação nos templos budistas. Eu fui absorvida pelo ambiente, queria ser um deles imediatamente. Foi uma experiência encantadora em todos os sentidos.

Mas uma coisa me incomodou, talvez pelo período extenso que fiquei por lá, e pelo fato de estar sozinha a maior parte do tempo: a ausência do calor humano que temos no Brasil. Lá as pessoas são fechadas, não se tocam, respeita-se a distância dos corpos, não tem beijinho, nem abraço nem aperto de mão. No começo foi tranquilo porque tudo era novo, mas conforme o tempo foi passando, senti falta.

metrô tóquio

Quais foram as maiores dificuldades de morar em um país com uma cultura tão diferente?

Acho que o mais difícil nessas situações é não saber muito bem como se comportar e acabar ofendendo alguém ou a própria cultura por isso. Acho muito importante pesquisar um pouco sobre os costumes de países que têm culturas muito fortes e específicas antes de viajar, para não ter problemas. Isso facilita muito na convivência por lá, e você acaba aprendendo coisas novas até pro seu dia a dia. O japonês é muito regrado neste sentido: formas de cumprimento, a maneira de segurar o hashi, não usar sapatos dentro das casas, hotéis e restaurantes, o respeito aos mais velhos e aos professores. Infinitos detalhes que, apesar de não ter muita importância aqui, pra eles são fundamentais.

HArajuku

Qual a vantagem que tu vê em conhecer um local tão exótico ao invés dos tradicionais como EUA, Austrália ou alguns países da Europa? Qual seria a principal diferença?

Pra mim a principal vantagem de um país exótico é o choque cultural que rola logo de cara, a surpresa, a excitação pelo novo. Isso é mais intenso nos países com culturas muito fortes e opostas a nossa. E tem também a curiosidade deles com a nossa própria cultura, é uma descoberta para os dois lados. Uma troca generosa, deixamos sempre um pouco de nós com eles e trazemos um pouco (ou muito) deles em nós.

Qual a relação dos japoneses em geral com a mulher? Tu sentiu algum tipo de preconceito por tu ser uma mulher sozinha (e brasileira) nesse local?

O Japão ainda é um país muito patriarcal por conta da sua história. As mulheres ainda ganham salários menores do que os homens, apesar de ocuparem o mesmo cargo. Muitas abandonam seus trabalhos para cuidar da família quando casam ou têm filhos. Os mangás japoneses tendem a retratar jovens mulheres de maneira hiper sexualizada. Mas assim como em outros países, as mulheres já não querem mais abandonar seus trabalhos e vida social pelo casamento, elas estão se articulando para conquistarem seus direitos e mais respeito. Como mulher estrangeira, eu não tive problemas. Muitos ficaram admirados por eu viajar sozinha, como um ato de coragem. Talvez não seja muito comum por lá. Não fui assediada em nenhum momento.

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Tem alguma(s) história(s) especial(is), engraçada ou inspiradora que aconteceu nesse período que tu esteve por lá que tu possa nos contar?

Eu tenho uma muito engraçada, já que estamos falando de mulheres independentes. Como já tinha ouvido falar que no Japão existem lugares e coisas muito inusitadas (e um tanto estranhas), resolvi pesquisar na internet o que fazer, e acabei encontrando um lugar bem interessante para fazer uma visita: um bar que se chama Vibe Bar Wild One, em Shibuya, Tóquio. A porta de entrada, discreta do lado de fora, se revela em uma vagina enorme do lado de dentro. Você paga uma taxa para permanecer por 90 minutos, ganha dois drinks à sua escolha e dicas de uma personal vibrator para escolher o aparelho ideal dentre os 300 modelos de vibradores presentes na casa. Você pode tocá-los (com uma luva de látex), e desfrutar do ambiente colorido, kawaii e cheio de imagens eróticas na decoração. Quando fui era época de Halloween, então tinha uma decoração bizarra e sugestiva, com teias de aranha por toda parte!

vibe bar

Como essa experiência influenciou na tua vida pós viagem?

Esta viagem pro Japão foi pra mim muito reveladora, mudou minha vida. Encontrar as minhas raízes fez com que eu me conhecesse melhor. Muito de mim, que não fazia sentido, foi justificado quando processei tudo o que o Japão me deu. Além do lado pessoal, mudou completamente a minha carreira e meu entendimento enquanto artista. Aprender diretamente com os mestres artesãos me fez conhecer o Shibori além da técnica, me mostrou toda a carga cultural que ela carrega e a importância do fazer manual e de preservar tradições. Hoje eu vejo que o tempo que fiquei lá definitivamente não foi suficiente, e o Japão já me chama de volta. É um sentimento esquisito, que chamo de ”saudade ancestral”. É como se eu já pertencesse àquele lugar mesmo sendo daqui. Como se meus antepassados me chamassem de volta, sabe? É estranho, mas um sentimento muito bom.

família okinawa

Quais são os locais do Japão que não dá pra perder? 

Todos os lugares que passei foram incríveis e dá uma dorzinha no coração ter que escolher, mas vamos lá: Okinawa, a província mais ao sul do país, paraíso tropical. Pessoas amáveis e praias maravilhosas. A culinária de lá, com muita carne de porco e legumes frescos, é o segredo da longevidade dos moradores da ilha.

Okinawa

Kyoto é pura história, parece que você viajou no tempo. Tem inúmeros templos e santuários pra você apreciar. Nikishi Market com suas lojinhas, pequenos restaurantes tradicionais. Faça tudo de bike.

templo Kyoto

Em Tóquio, não perca o Tsukiji Market,o mercado de peixes que vende o sashimi mais fresco e delicioso do mundo, o Museu Nacional de Tóquio, e os bairros Harajuku (<3) e Shinjuku. E se tiver lá entre julho e agosto, encaixe nos planos escalar o Monte Fuji.

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Se tu pudesse dar um conselho para uma mulher que está pensando em ir pra lá, mas está em dúvida/medo, qual seria?

Vai sem medo, lá é muito seguro. Permita-se experienciar o novo, e explore cada pedacinho que você passar do Japão, tudo tem detalhes surpreendentes. É uma cultura que completa a gente.

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Hora do jabá: nos conta um pouco mais sobre o teu trabalho incrível! :]

Trabalho com o Shibori, técnica japonesa de tingimento artesanal, e é através dela que compartilho, em estampas e cores, as minhas memórias de viagem e heranças culturais que foram passadas pra mim pelos meus avós. É um processo longo e artesanal em todas as etapas: a escolha dos tecidos e sua preparação para o tingimento, amarrações, costuras e dobras que dão forma às estampas finais, as misturas de cores, que são intuitivas. É um trabalho de muita reflexão, cuidado e surpresas, porque nenhuma estampa sai igual, cada peça é única. É a minha maneira de manter viva a cultura japonesa ao meu redor. <3

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Incrível, né?

Se quiser conhecer um pouco mais da história e do trabalho dessa artista visual maravilhosa – vale a pena, é tudo MARAVILHOSO -, entra na página da empresa dela: www.shiboridesayuri.com ou nas redes sociais: Facebook e Instagram.

Instagram ATL Girls