jaqueta Cel obra de arte

Muito se discute sobre a relação da moda com a arte: enquanto os mais românticos dizem que moda é arte sim, o mercado responde dizendo que não, moda é negócio, basta ver quem lidera a lista dos empresários mais ricos do mundo no momento: o dono da Zara.

giphy (1)

Mas aqui vos fala alguém que tem ascendente em lua e em aquário, caso você não saiba nada de astrologia isso quer dizer que tenho ascendente e lua em ser do contra. Por isso, resolvi provar com as minhas próprias mãos que moda é arte sim. Eu e minha sócia fomos convidadas para expor em uma exposição muito legal aqui de Porto Alegre, chamada Casa Vendida e aí surgiu o insight: vamos mostrar que moda pode ser arte, sim!

[Tenho uma marca de customização e reaproveitamento de moda chamada Céu Handmade – nos segue lá no insta: @ceuhandmade – e uma das coisas que costumamos fazer é extreme makeovers em jaquetas vintage – se você acompanha o blog já viu os DIYs que fizemos por aqui! 😉]

E o resultado está aí abaixo: decidimos um tema que também adoramos – música – e transformamos 10 jaquetas vintage em telas que contam histórias de músicos ou movimentos musicais que serviram como uma forma de protesto, começando por Bob Dylan, na década de 60 e chegando até Beyoncé em 2016.

As jaquetas que não foram vendidas na exposição estão na loja virtual: loja.ceuhandmade.com.br <3

Caso você tenha alguma que não usa mais, pode nos chamar e encomendar a sua: contato@ceuhandmade.com.br.

#1 Bob Dylan e Joan Baez

ALEX1173 (1)

Bob Dylan e Joan Baez namoraram até 1965 e foi nessa época que a carreira do cantor contou com mais músicas de protesto. Letras políticas e anti guerra foram tocadas por todo o mundo. O estilo folk do casal sempre permaneceu em suas músicas.

Na jaqueta, a frase pintada com tinta para tecido é de uma das mais famosas músicas de Dylan “Times They Are A-Changing“. A imagem dos artistas foi impressa através de sublimação em tecido sintético e a estampa com elementos e cores que lembram a cultura folk foram feitas com retalhos de couro de descarte da indústria calçadista.

#2 Nina Simone

ALEX1058

Nina Simone sempre usou a música como forma de expressão dos direitos civís, e participou ativamente de momentos decisivos para a comunidade negra nos EUA, dedicando sua produção musical para o assunto.

Na jaqueta, a cruz com estrelas ao fundo simula a bandeira do estado americano de Mississipi, tema da canção “Mississipi Goddam“, que foi composta logo após o assassinato de um ativista no estado. Na foto, impressa em tecido através de sublimação, tecidos africanos originais foram utilizados para ressaltar a origem da cantora, e, simulando um colar, estão costurados cristais brutos.

#3 Tropicália

ALEX1034

Tropicália (ou Tropicalismo) foi um movimento cultural brasileiro que misturou diversas correntes artísticas, mas principalmente a música, para dar voz para grande parte da sociedade na época do Regime Militar, no final da década de 60. O movimento Tropicalista contava com muitos artistas da MPB.

Na jaqueta, foi utilizada a foto de três integrantes do grupo na época chamado de Doces Bárbaros: Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Betânia (Gilberto Gil também fazia parte do grupo, embora não apareça na imagem). Ao redor da foto, impressa em tecido através de sublimação, aplicamos retalhos de jeans simulando uma estampa camuflada, para remeter à ditadura militar. Por trás do militar surgem flores coloridas, estampa muito presente no tropicalismo.

#4 Woodstock

wood

O festival de Woodstock é considerado o marco da contracultura e o símbolo da cultura hippie e da geração “Paz e Amor” do final da década de 60 e começo de 70. Os hippies questionavam padrões da família tradicional americana e pediam paz, já que era o período do auge da Guerra Fria. Quando Jimmi Hendrix tocou o hino nacional americano com sua guitarra e simulando sons de bombas, foi um dos marcos de protesto do festival.

Nas costas, uma imagem do evento foi impressa em sublimação. Os dizeres “we are one” foram bordados em linha, e franja feita com tecido de camiseta e tie dye foi aplicada com uma fita com motivos étnicos, remetendo a elementos da cultura hippie.

#5 John Lennon

john

O inglês John Lennon escolheu Nova York para morar, junto com sua esposa Yoko Ono desde os últimos anos dos Beatles, mas foi somente na década de 70, já em carreira solo que sua figura e suas músicas representaram importantes formas de pedido de paz. Em meio à Guerra do Vietnã, músicas históricas pediam o fim da guerra e compreensão entre as pessoas e a voz de uma figura tão popular como John Lennon trazia força e engrossava o coro dos protestos anti guerra.

Na jaqueta, a famosa imagem de John Lennon e Yoko Ono com o cartaz escrito “War Is Over“, no natal de 1970 foi impressa em tecido, com os dizeres apagados, para darem lugar a bordados florais, representando a cultura hippie da época. A frase original do cartaz está representada ao fundo da imagem em diversas línguas diferentes, pintadas com caneta para tecido. Na manga, foi aplicado um retalho de jeans com a frase “PEOPLE FOR PEACE” também escrita em caneta para tecido, simulando uma peça usada pelo próprio Lennon.

#6 Chico Buarque

ALEX1003

Chico foi um dos grandes artistas brasileiros a produzir canções de liberdade na época da ditadura militar no Brasil. A canção Cálice (ou Cale-se) passou pelo crivo da censura artística, pois, brilhantemente o autor falou “Pai, afasta de mim esse cálice“, quando na verdade estava pronunciando cale-se, justamente um protesto sobre a falta de liberdade de expressão da época.

A jaqueta vintage foi customizada com imagem do Chico Buarque impressa em retalho de poliéster através de sublimação. Ao fundo, rostos desenhados de caneta de tecido com a censura bordada nas bocas, simbolizando toda a população que precisava se calar durante o período do regime militar. As flores são retiradas de retalhos de chita, tecido tipicamente brasileiro, simbolizando o Tropicalismo e a brasilidade presentes em toda obra do artista.

#7 David Bowie

bowie

Durante o período que David Bowie morou na Alemanha, ele compôs Heroes, famosa música que conta a história de um casal em que cada um mora em um lado do muro de Berlim. Em 1987, David Bowie fez um célebre show na Alemanha Ocidental, para aproximadamente 60 mil pessoas. Em um momento a música parou e ouviu-se um ruído do outro lado do muro, onde havia outra multidão, que embora não pudesse ver, podia escutar o artista. Nesse momento, Bowie virou-se para aquele lado do muro e dedicou a próxima música ao público escondido: tocou Heroes. Após a morte do artista, em janeiro de 2016, o ministério das Relações Exteriores da Alemanha o agradeceu por ter ajudado a derrubar o muro de Berlim.

A imagem de David Bowie em frente ao muro de Berlim foi impressa em retalho de poliéster através de sublimação e o icônico raio vermelho e azul que identifica o cantor foi pintado com tinta para tecido sob a imagem. Ao fundo, temos um trecho de Heroes traduzido para a língua alemã, escrito em caneta para tecido. A bandeira com o refrão de Heroes foi feita com bordado digital sob retalho de algodão cru e aplicada com adesivo termocolante.

#8 M.I.A.

ALEX1125

Cantora, artista, cineasta e ativista, a britânica de origem tâmil (Sri Lanka), encontra em suas músicas uma forma de expor importantes temas sociais. Assim como em Paper Planes, em que ela fala sobre tráfico de armas e pessoas, no seu último trabalho, chamado Borders, M.I.A. abordou outro assunto delicado: refugiados, falando sobre o drama de africanos e asiáticos que tentam se refugiar na Europa.

Na jaqueta, foram aplicados tecidos indianos originais nas mangas, para remeter à origem da cantora. O refrão da música está escrito no topo em inglês e o restante da letra em ceilão (língua falada no Sri Lanka), ambos em caneta para tecido. A imagem da artista foi impressa em tecido através de sublimação e foram aplicadas tachas, correntes e pingentes lembrando os ornamentos típicos das mulheres Índia e região.

#9 Beyoncé

bey

A mulher mais poderosa da música mundial já fala de feminismo e girl power há algum tempo, mas foi somente no seu último trabalho que trouxe as questões raciais tão presentes nos Estados Unidos, seu país de origem. Beyoncé critica a violência policial contra negros nos EUA, fala sobre racismo e sobre ter orgulho da sua cor. Em março de 2016, apresentou seu single Formation com dançarinas vestidas de Black Panthers, famoso grupo ativista dos direitos dos negros da década de 70.

Ao fundo, vemos uma versão de um famoso pôster da época em que a figura central é Angela Davis, mulher mais importante dos Black Panthers na época. Em caneta e tinta para tecido representamos a arte do cartaz e ao centro está aplicada imagem da Beyoncé em retalho de poliéster impressa através de sublimação, substituindo a de Angela. Nas mangas, trecho da música Formation está aplicada com stencil e tinta para tecido e os acessórios da cantora são feitos com correntes e tachas.

E aí? Te convencemos que moda é arte? :]

 

(fotos por: Alex Brandão e Talles Kunzler)

Instagram ATL Girls