saudade mari

– Garçom, pode trazer outra dose?

Eu não nasci pra jogar esse jogo de perdas. Não sei brincar de amor. Desculpe. Ninguém nunca me ensinou. Eu dei partida, joguei os dados e achei que tinha aprendido a jogar. Mas de repente surgiram umas barreiras que não estavam nas instruções, não entendi. Ela disse que me amava e nunca mais apareceu e eu fiquei aqui contando estrelas, esperando ela voltar. Eu deixei a porta aberta, caso ela quisesse aparecer. Acho que ela não quer.

Acho que ela nunca quis.

– Garçom, pode trazer outra?

Eu fico aqui recontando meus passos, ganhando alguns segundos a mais entre o Zaffari da Lima e Silva e a parada da Pão dos Pobres, na medida em que acelero a marcha do meu caminhar. Eu procuro ela em lugares que eu sei que posso encontrar. Sei de cor as minhas falas. Ela deixou uns livros do Quintana na minha casa, antes de ir. Acho que ela queria ser encontrada. Caramba. Eu sinto falta dela, tenho certeza que nunca mais vou amar assim.

Acho que ela era música em excesso para toda a minha desafinação. Eu tentei encontrar o tom. Eu tentei ligar. Eu lembro de dormir com o rosto dela de frente pro meu, mas acho que ela quis juntar as escovas com outro poeta. Eu só era um arquiteto que amava ouvir o que ela tinha à dizer. Eu era inteiro. Mas ela foi e deixou só umas partes dentro de uma xícara de café ou de um livro de história da arte. Eu sempre quis perguntar como ela conseguia amar Chico Buarque e ser encantada por Guns’n’Roses, ou o porquê do seu ódio por flores. Mas o máximo que eu conseguia era arrancar dela um: “ah, flores são muito clichê”.

Eu achei que ela gostasse de excessos. Mas no fundo acho que ela tinha medo. Adorava ver o sol, mas deixava só as frestinhas abertas pra ele entrar. Acho que eu nunca perguntei porque ela não abria a janela de uma vez. Talvez pelo medo de se queimar. “Garota, se for pra se machucar, que seja pelo excesso”. Não pude nem dizer isso pra ela. Ela mudou de número. Ás vezes aquele meu amigo diz que viu ela por aí, que ela parecia mal ou que estava com o fulano pendurado no pescoço, em alguma dessas festas que eu poderia ter aparecido, mas não apareci.  Será que um dia vou amar alguém assim de novo?

Talvez nesses meus colapsos de vinte e poucos anos eu até aprenda a jogar esse jogo que alguns chamam de amor. Talvez eu siga errando e perdendo por aí partes de alguéns em xícaras de café ou copos de cerveja. Não sei. Só sei que hoje em dia ninguém realmente se conhece.

Eu queria muito que ela tivesse ficado. Não queria ser passagem de um capítulo pra alguém que foi um livro inteiro pra mim. E quantos livros a gente lê por aí? Fui. Acontece, né? Dizem mesmo que todo mundo sofre desse tal de amor. Chegou a minha vez.

Mais uma dose. Outro parágrafo. Gim, Vodka, uma loira do outro lado do bar. Qualquer coisa que desça ardendo a ponto de quase me fazer esquecer ou pelo menos acreditar que tudo foi um sonho e que talvez ela acorde ali, olhando pra mim, novamente. Se você estiver lendo minha história, garota, espero que saiba que só um sopro teu me traria a consciência novamente. Não tem dose que aguente a falta que teus excessos de embriaguez traziam à minha vida sóbria. E vai saber o que a vida nos reserva, né? Quem sabe em um desses cantos entre a Cidade Baixa e o Bom Fim a gente não se encontra em tragos ou goles.

– E, ah.. Garçom! Pode trazer a conta?

Tem uma loira ali do outro lado e acho que me apaixonei outra vez.

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