cultura

Nos dias de hoje onde a instabilidade política e social é tão pesada que pode ser sentida no ar, é impossível nos colocarmos a pensar/discutir um tema, sem correr quase que obrigatoriamente, o risco de ser acusado de coxinha ou petralha. A gente está tão preocupado de que lado cada um está, que se esqueceu o que está sendo discutido no meio disso. Um grande exemplo disso tudo, foi o fim do ministério da cultura.

A pergunta não é se um partido está certo e o outro estava errado. A questão não é se Dilma é melhor que Temer, vice e versa. Se o Wagner Moura lutou contra a corrupção ou se o protesto da equipe do filme Aquarius em Cannes é adequado. A pergunta que nos cabe neste caso é se o ministério da cultura era/é importante? Ou analisar se configura como uma boa ideia este ministério ser absorvido pelo ministério da educação. E até mesmo avaliar se o próprio ministério da educação já não está com as mãos cheias (e bolsos vazios).

Eu entendo que temos necessidades mais urgentes neste país. Exemplos dramáticos deles podem ser citados como as condições desgraçadas que se encontram a saúde, o desemprego, a segurança e a própria educação do Brasil. O que me intriga na maioria dos debates envolvendo o tema do ministério da cultura, é que prezar por ele, tem sido visto como escolher entre cinemas e hospitais. Nossa discussão ficou tão rasa e polarizada a ponto de pensarmos que estamos lidando com assuntos equivalentes – saúde e cultura, e não apenas que ambos são necessários?

“Pão e circo” bradam uns, esquecendo-se que neste país, o futebol representa muito mais a distração do povo, do que a cultura. A lei Rouanet é satanizada como “boquinha”, quando de fato é uma lei de incentivo que busca capital privado, é regularizada com suas tramitações burocrática e métricas de avaliação, e aberta a todos – eu disse todos – os produtores culturais interessados. Uns questionaram o bom gosto e relevância dos projetos, outros os investimentos e ideais (ou agenda política) dos mesmos. E uma vez que cultura promove também valores intangíveis, entendo suas riquezas e resultados possam ser alvo de questionamentos. Mas o que falar sobre a economia criativa, uma das modalidades que gera receita e empregos no país da crise? Eu também sou a favor do enxugamento da máquina. Mas minimizar a importância da cultura (e sua contribuição econômica), destituindo o seu ministério, são seria agir de forma leviana?

Eu sou uma privilegiada, falando em educação. Eu nunca senti na pele o que é não ter acesso à escola/universidade. E por ser privilegiada, eu também tive acesso à cultura desde muito cedo, e talvez por isso, para mim as duas andem de mãos dadas. Na escola eu aprendi sobre as coisas da vida, em matérias muitas vezes mais decoradas do que compreendidas. Nas minhas atividades culturais aprendi a entender a vida, questioná-la. Através da música, do teatro, e das artes plásticas eu aprendi a criar, imaginar possibilidades, ponderar causa e efeito (e trouxe o desejo pela publicidade mais tarde). Na escola foi fortalecida a obediência ensinada pelos meus pais, e foi onde aprendi a socializar e conviver. Através das instituições culturais com as quais me envolvi, desenvolvi meu pensamento crítico, aprendi discutir e a me expressar. Na escola eu aprendi sobre moral e ética, e com a cultura moldei (e sigo moldando) o meu caráter. Então veja, para mim ambas tem peso e são fundamentais. E sabendo que sou uma privilegiada, eu acredito que ambas – educação e cultura – deveriam ser acessíveis para todo brasileiro e brasileira.

Não precisa ser cult ou bicho-grilo pra entender a importância da arte. Pegue um livro de história e verá que não existe nenhum movimento social, político e econômico que não tenha sido vivido/sobrevivo sem grandes explosões artísticas. Esse amplo e diversificado leque de vertentes abraçado pela cultura, faz pensar até o mais tímido dos engajados. Estimulado pelo cubismo de Picasso ou pelas letras de Criolo, ninguém fica alheio a uma expressão cultural. Política pode até não ser pauta convidativa, a aqui reina um dos nossos grandes defeitos como eleitores. Mas a arte é convidativa. Cultura convida a pensar. Ajude a entender o mundo. Promove a inclusão social e a diversidade. Ricardo Darín, o aclamado ator e diretor argentino, disse em uma entrevista que teremos que voltar as nossas origens para nos redescobrirmos. Ora, e cultura não é justamente isso? Olhar para as nossas origens e convidar a plateia a redescobri-las?

Charles Watson, um escocês que adotou o Brasil desde a época de 70, é pesquisador, professor, palestrante e artista, e passou sua carreira inteira provando que a criatividade é essencial para o ser humano. Ele prova e comprova através de experimentos e cursos que ministra que, exercitar a nossa criatividade em resolver problemas amplifica a nossa capacidade de lidar com a adversidade do mundo. Treina nosso cérebro a superar as frustrações envolvidas no aprendizado. Nos tira da nossa zona de conforto. Intriga, questiona. Movimenta. Em país em que a nossa maior dificuldade é desenvolver um pensamento crítico aprofundado (vide a polarização política cega de hoje), a ideia de que um ministério da cultura não é importante, é no mínimo desconcertante. Não é?

O ministério da cultura, criado em 1985, tem apenas 31 anos, e como eu nesta mesma idade, ambos temos inúmeras coisas para aprender a fazer direito. Mas sua contribuição para a criação de mentes pensantes e questionadoras me parece de profunda relevância. Talvez esta seja uma das poucas certezas que tenho neste ambiente político conturbado. E com isso não quero dizer que eu quero menos hospitais, ou que não me preocupe com ruas mais seguras, ou que a educação não mereça todos os recursos necessários. Eu quero tudo pro meu país, inclusive cultura.

Talvez seja utopia minha. Ou minha alma de artista falando (ainda de presa no corpo de uma filha do corporativismo que quer ver a economia crescer). Mas prefiro pensar, assim como Darín, que teremos que criar cada vez mais espaços de discussão e para poder divagar sobre as nossas utopias. Talvez lá estejam às respostas para a nossa realidade.

antonianodiva.com.br

PS: Prezados leitores, antes de iniciarem as críticas partidárias nos comentários, fica o registro. Nem coxinha, nem petralha, ou tão pouco fã dos termos. Sou mais uma brasileira perdida, entre a esquerda e direita, torcendo que o país vá mesmo é pra frente.

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