ana paula corte

Quando a editora do ATL Girls me ligou pedindo um texto sobre a polêmica Ana Paula Vs o Laércio no BBB, eu sabia que estava entrando num vespeiro. Pedofilia, “chilique”, rede nacional, novinhas, velhos, certo e errado. A primeira coisa que pensei era se a discussão realmente valia a pena. Desliguei o celular e caminhei pela rua pensativa, quando passei por uma loja de roupas infantis, onde o som estourado gritava “as novinhas tão ‘sensacional’, descendo gostosa, prendendo legal”. E assim, MC Romântico (oi!?) me convenceu sobre a importância da pauta.

Pesquisei e li a respeito. Dei-me o trabalho de assistir aos vídeos do programa, entretenimento que abri mão quando passei a perder a fé nos “brothers”, e consequentemente na humanidade. Esse não era o primeiro episódio que, como mulher, me causava repulsa. Já havia assistido a ameaça de violência física e um estupro televisionado (outra polêmica) de uma garota desmaiada, tudo ali, acessível do sofá da minha casa. Fui mais longe e procurei meus amigos advogados, para estabelecer as premissas básicas da legalidade do acontecido. Aprendi que 14 anos é a idade do consentimento no Brasil, e pedofilia caracteriza-se como “violação de indivíduos abaixo desta idade”. O que queria dizer que Laércio, não era pedófilo, e sim “efebófilo” (outra novidade pra mim) que significa “adulto que tem uma atração sexual primária por adolescentes na puberdade”. Em resumo: Laércio não fazia nada de ilegal em “preferir as novinhas”, já Ana Paula sim, podia sofrer um processo ao praticar injúria e difamação contra o colega de confinamento.

Neste caso, a constituição brasileira tava do lado dele. Ana Paula, eu, e talvez até você, nem tanto.

“A mulher amadurece mais cedo que o homem” – foi frase dita pelo brother da barba azul para justificar a relação entre homens mais velhos e as novinhas.  Peguei-me pensando que de fato escuto isso a minha vida inteira como se fosse uma acusação. Era como se a realidade científica de garotas terem corpos e cérebros amadurecendo cerca de 10 anos antes dos garotos, também nos fosse obrigado ou esperado o aceleramento das nossas experiências.  E se a ciência estava contra a tranquilidade do nosso relógio biológico, a sociedade deu seu jeito de acelerar ainda mais os ponteiros. Seja através da erotização de calcinhas e sutiãs infantis com estampas de oncinha e cetim ou a celebração de Suri Cruise, de 4 anos, usando salto alto. Seja conduzindo meninas a “sentarem que nem mocinha”. Seja achando normal jovens casarem, namorarem, transarem com sêniors. Entre a sexualização da juventude, a nossa dita  “maturidade” e a falta de experiência, muitas de nós acabamos sofrendo o nosso primeiro abuso antes mesmo da idade do consentimento, e isso mexe muito com nossa opinião sobre o certo e o errado. Sobre ser racional ou a “loka”. Lembramos-nos de Valentina no Master Chef Junior e a campanha #meuprimeiroabuso, e veremos que os casos são corriqueiros, banalizados pela sociedade e deixam marcas na vítima para a vida toda.

O fato de ser constitucional um senhor (ou senhora) bem mais velhos se relacionarem com jovens em formação, não muda o fato de que estamos sim, errando em proteger a infância e juventude. Glamuralizamos corpos jovens e a sensualização de seu comportamento na música, na publicidade e na cultura. Uma simples pesquisa pela palavra “novinha” na internet convida para uma viagem assustadora pela superexposição de jovens em idade escolar, posicionadas em seus ângulos mais íntimos. O cenário, seus quartos com artefatos ainda infantis, acusam a controversa. As novinhas não estão sensacionais, como canta MC Romântico. Estão perdendo a inocência da juventude e correndo sérios riscos da vida de adulto. O fato de que seus corpos estejam prontos para o sexo consensual, não impede que a falta de experiência lhes exponha a um comportamento de risco (Oi HIV! Oi aborto!). E mesmo que elas “amadureçam mais cedo”, suas cabeças “maduras” são imensamente mais sucessíveis à persuasão de indivíduos com meio século de vida nas costas. A constituição, tão aclamada nesta polêmica, garante que todos nós sejamos iguais quanto a idade, sexo e preferência sexual. A responsabilidade, moral e ética são pessoais e intransferíveis.

Então a Ana Paula foi lá, rodou a baiana, e disse que não admitia o comportamento do colega. Usou o termo errado, chamando-o de pedófilo, tal como usou errado o termo machista, ao referir-se a ela mesma. Posou de “loka”, porque acreditou que jovens devem ser protegidas e respeitadas, ao invés de desejadas e caçadas. Não admitiu a objetificação da mulher, provando ser mais feminista do que acreditava. E o fato de que ela se posicionou, alto e incisivamente, incomodou muita gente. Acontece que a indução ou abuso de jovens (meninos e meninas) e de tantas mulheres já em idade adulta, hoje é uma realidade que incomoda muito mais. Então não adianta o tal do Bial falar sobre os “exageros” de Ana Paula, por conta das “Anitas e Lolitas” de Laércio com tom de brincadeira. Somos todas Anitas e Lolitas: pais, professores, conhecidos, comunidade. E por isso vai ter barraco sim, senhor. Ou como diria Jout Jout, “nós vamos fazer um escândalo”. E não adianta tentar usar o gaslighting, aquele abuso psicológico em que o abusador alega que o abusado está exagerando, de TPM ou que está louca porque reclamou de algum tipo de violação. Se proteger as novinhas é ser “loka”, sejamos todas loucas, por favor.

antonianodiva.com.br

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